Crítica | Vingança a Sangue Frio – O filme de ação mais engraçado, divertido e insano de Liam Neeson

Crítica | Vingança a Sangue Frio – O filme de ação mais engraçado, divertido e insano de Liam Neeson

Nota:

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Até 2008, quando estrelou o suspense de ação Busca Implacável (Taken), ninguém pensaria no ator irlandês Liam Neeson como herói do gênero, calçando os sapatos que foram de gente como Stallone e Schwarzenegger nas décadas de 1980 e 1990. De fato, depois da indicação ao Oscar em 1993 por A Lista de Schindler (o divisor de águas em sua carreira), o ator era mais associado a papeis dramáticos, biografias e aventuras épicas. Sua reinvenção se deu aos 56 anos, e de lá para cá foram sete longas protagonizados pelo ator seguindo os mesmos moldes – sem contar as duas continuações do filme que começou tudo. E este filão deu certo, e muito, para Neeson – que se despede agora com chave de ouro.

Vingança a Sangue Frio é anunciado como o último filme da carreira de Liam Neeson dentro de tal segmento. Bem, chega a ser até injusto categorizá-lo desta forma – já que não está nem aos pés das demais obras do ator no quesito “tiro, porrada e bomba”. Por incrível que pareça, seu novo trabalho é uma comédia de humor negro, com toques de suspense. Sim, temos mortes. E sim, temos algumas porradas e muitos tiros, porém, seu propósito aqui é tirar graça da insanidade das situações e não entreter uma plateia esperando sua dose de adrenalina. Por isso, esteja avisado.

Refilmagem do norueguês O Cidadão do Ano (In Order of Disappearance, 2014), protagonizado por Stellan Skarsgard e Bruno Ganz, Vingança a Sangue Frio traz a direção do mesmo Hans Petter Moland do original. O cineasta consegue capturar a essência de seu projeto anterior, dando uma remodelagem moderna, e brincando muito com sua narrativa. Na trama, Nels Coxman (e não Dickman do original) é o tal cidadão do ano. Um pai de família dedicado e amoroso, o protagonista vivido por Neeson segue seus dias levando seu trabalho de limpar as estradas da intensa neve de sua cidadezinha muito a sério. Quando seu filho é assassinado por engano, o sujeito resolve declarar guerra aos mafiosos responsáveis.

O legal do novo filme de Moland, é que funciona quase como sátira às produções do gênero. Sua narrativa é esperta e transforma o que poderia ser apenas mais uma produção rotineira sobre vingança em um verdadeiro achado. Não deixe que qualquer sinopse ou prévia te engane, aqui os criadores injetam bastante frescor num tema pra lá de batido. Dos diálogos do vilão (o chefão Viking, papel de Tom Bateman), que transbordam tanta ironia que beiram o caricatural (mas de forma boa), passando pela relação dos policiais da cidadezinha (Emmy Rossum e John Doman – ótimos em cena), emulando Fargo, até a brincadeira em tela com a contagem de corpos que vai se amontoando, Vingança a Sangue Frio é pura criatividade.

Aproveite para assistir:



No filme, cada pequeno detalhe é uma gratificação a ser descoberta. Cada personagem é excentricamente único e funciona em sua caricatura cômica. Cada atenção dada à desconstrução de uma fórmula, cada diálogo inteligente e cada situação que caminha para o lado oposto do esperado ajudam a transformar o longa em uma pequena pérola escondida. No meio de seu rastro de vingança, o protagonista atiça uma guerra entre as duas facções criminosas locais por uma disputa sangrenta de território. A mudança em relação ao original vem de transformar uma destas organizações em um grupo de nativos-americanos, que igualmente rende boas tiradas, nada corretas, mas igualmente nada ofensivas. A tiração de sarro é inteligente o suficiente para pairar acima do grotesco e intolerável.

Sendo assim, colocar Vingança a Sangue Frio no mesmo pacote de ação que Liam Neeson vem colecionando é injusto. Nada contra seus outros trabalhos no gênero (inclusive adoro a maioria), mas seria comparar gêneros e estilos diferentes. A única similaridade está no protagonista – que interpreta mais ou menos o mesmo tipo de personagem. Com sua estreia em Hollywood, Hans Petter Moland entra com o pé direito, demonstrando ser uma voz diferenciada e que tem muito a dizer num mar de mesmice. Obras que desafiam seus moldes, impulsionando-as com vontade e muita energia, são cada vez mais raras dentro de uma indústria que privilegia o padrão. Justamente por isso, precisam ser enaltecidas. E que venham os próximos projetos do diretor para o grande público.


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