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Crítica | ‘Wicked: Parte II’ é uma épica conclusão para o maior evento musical do século


No final do ano passado, o mundo parava para assistir à primeira parte da adaptação do aclamado e prestigiado musical Wicked. Estrelado por Cynthia Erivo e Ariana Grande, e dirigido por Jon M. Chu, o longa tornou-se um sucesso de crítica e de público, superando todas as expectativas de bilheteria e faturando dez indicações ao Oscar. O impacto causado pelo projeto antecipou o vindouro lançamento da segunda parte desse épico musical – que adapta o ato de encerramento da peça original para as telonas de maneira a expandi-lo e a transformar um dos maiores eventos da década em uma espetacular conclusão que nos envolve através de expressivos 137 minutos.

Tendo início pouco depois dos bombásticos eventos do primeiro capítulo, em que Elphaba (Erivo) foi declarada inimiga pública número 1 de Oz pelas falcatruas do Mágico (Jeff Goldblum) e de Madame Morrible (Michelle Yeoh) – que a acusaram de torturar os animais sentinelas da Cidade das Esmeraldas quando, na verdade, eles a convenceram a lhes dar asas para trabalharem como espiões alados e cortar pela raiz o mal da rebeldia e de seus opositores. Condenada a uma vida isolada e de perseguição, Elphaba se esconde nas florestas de Oz e, quando possível, age às escondidas para livrar os animais presos em cativeiro e impedir que os planos corporativistas e malignos do Mágico se concretizem – enquanto lida com a falta de sua antiga melhor amiga, Glinda (Grande), e de seu amor perdido, Fiyero (Jonathan Bailey).



Não demora muito até que a situação escale a níveis catastróficos quando Elphaba, sendo convocada por Glinda a se juntar ao Mágico – que aparentemente aprendeu com os erros -, descobre que as coisas são mais podres do que aparentam e que ela é a única capaz de reverter Oz a seu estado original de liberdade e paz, jurando para si mesma livrar o mundo do falso feiticeiro que ocupa o trono e levar a verdade ao povo. E, à medida que enfrenta as mentiras espalhadas sobre si própria, Elphaba tenta mostrar a realidade para Glinda, que, por sua vez, se vê num estado de contentamento forçado em que emerge como um símbolo efêmero e frágil de esperança e união – e de reforço ao bode expiatório em que a melhor amiga e confidente foi transformada.

Particularmente, sempre afirmei em minhas críticas que o segundo ato de Wicked era um bom acompanhamento para a ato de abertura do musical – mas não conseguia chegar aos pés da experiência quase epifânica que Stephen Schwartz e os incontáveis diretores que encabeçaram as adaptações constroem até o ápice de “Defying Gravity”. E fico feliz em informar que Chu, cujo trabalho para além da releitura inclui os ótimos ‘Podres de Ricos’ e ‘Em um Bairro de Nova York’, não apenas supera as expectativas, como melhora o material original em um glorioso e vibrante espetáculo que não perde a mão a qualquer momento e que expande essa irretocável mitologia política em uma envolvente epopeia cinematográfica.

Assim que o lançamento da primeira parte se deu nas salas de cinema, vários espectadores comentaram sobre a falta de cor dentro do filme – e não acho que qualquer argumento tenha sido válido. Chu, cujas habilidades de câmera são inegáveis, une fantasia e realidade em um mesmo lugar ao utilizar a “falta” de um exagero de cores para prenunciar a podridão de Oz, escondendo em meio a dessaturações e a tons mais sóbrios o que os personagens escondem em seu âmago – seja o caráter demagogo do Mágico, a superficialidade destrutiva de Glinda e a impetuosidade cega de Elphaba. E, é claro, o diretor guarda os momentos de contemplação, nostalgia e ressentimento para uma construção plástica que dança entre a imaterialidade a palpabilidade – reiterando-se como um dos melhores realizadores da atualidade.

Mais uma vez, o elenco se entrega de corpo e alma a atuações fantásticas e que praticamente lhe garantem menções merecidas na próxima temporada de premiações. Erivo e Grande, nossas grandes estrelas, mostram um amadurecimento compulsório pelo qual Elphaba e Glinda passam, arremessando-as no centro de artimanhas políticas que as transformam em peões de tabuleiro de xadrez – mergulhando de cabeça em uma dosagem correta entre drama e comédia que funciona tanto em seus arcos individuais quanto quando dividem as cenas. Desfrutando de uma química e de vocais cristalinos e primorosos, as duas mostram novamente que nasceram para interpretá-las.

A dupla não está sozinha nessa empreitada, sendo acompanhada de perto por uma presença marcante de Bailey como Fiyero, privado de uma vida verdadeira ao lado de Elphaba para se conformar a um papel social mandatório ao lado de Glinda. Yeoh e Goldblum têm espaço de sobra para incrementar a personalidade condenável de Morrible e do Mágico, respectivamente, enquanto Marissa Bode (Nessarose) e Ethan Slater (Boq) constroem mágica através de um relacionamento falido e tóxico que culmina em tragédia e um perigoso desejo de vingança.

Wicked: Parte II’ mantém-se no altíssimo nível do capítulo anterior e supera nossas expectativas com uma gloriosa adaptação que não nos deixa entediados em momento algum. Contando com atuações espetaculares e uma direção que não apenas expande a mitologia de Oz como serve como uma carta de amor aos musicais, o longa é uma conclusão impecável que nos deixa felizes e, ao mesmo tempo, melancólicos por sabermos que está na hora de dizer adeus.

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Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.
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