Conan Gray fez sua estreia no cenário fonográfico em 2020 com o ótimo álbum ‘Kid Krow’, que o catapultou a um estrelato considerável e o eternizou como uma das vozes da nova geração da música – acompanhado de perto das produções mais minimalistas e intimistas de Olivia Rodrigo e Billie Eilish. Apostando fichas no indie pop e no bedroom pop, Gray suprimiu a demanda de uma presença mais jovem dentro do show business ao lado de suas conterrâneas e, cinco anos mais tarde, retornou com um amadurecido corpo de trabalho que ficaria conhecido como ‘Wishbone’ – recém-chegado às plataformas de streaming ao redor do planeta.
Através de doze faixas inéditas, Gray se manteve fiel à estética explorada nos primeiros anos de sua fase adulta e, caminhando agora para um novo capítulo, investiu em um amadurecimento lírico e identitário que nos tirou o fôlego e que, contando com pequenas falhas ofuscadas pela sutil grandiosidade das mensagens escondidas, explorou o pop-rock de maneira a acompanhar as pulsões mainstream sem se render a uma mercadologia plena. Dessa maneira, seu quarto compilado de originais sagra-se como um dos melhores do ano e um dos mais coesos de sua carreira, nos deixando muito interessados para ver o que o cantor e compositor tem guardado nas mangas para os anos que virão.
Contando com três singles promocionais, a obra é extremamente pessoal e se segura em um enredo que explora, de maneira menos exacerbada e mais controlada, as angústias juvenis que se integram à Geração Z – e a abertura do disco é simplesmente irretocável. “Actor”, faixa co-assinada por Gray e Dan Nigro (um prestigiado produtor que já trabalhou com Rodrigo e Chappell Roan), esquadrinha as dores de um romance que já encontrou seu fim e que, em meio a altos e baixos, não consegue se diluir em meio a memórias constantes: aqui, as cândidas notas do violão trilham um caminho similar ao explorado por Taylor Swift em suas conhecidas baladas, irrompendo em um orquestral arranjo que garante um caráter quase epopeico a uma das melhores incursões de sua carreira – e que, assim esperamos, não seja desperdiçado como apenas uma track.
De maneira singular, os tropos conhecidos do bedroom pop são reformulados com um equilíbrio invejável de minimalismo e maximalismo, navegando por temas que partem de uma linha pessoal e alcança níveis universais em um dialogismo sincero e sagaz, por mais que algumas repetições existam. “This Love” puxa elementos noventistas calcados por Natalie Imbruglia para construir uma deliciosa história de digna de filmes de romance, enquanto “Romeo” urge “Dan Nigro” em cada uma das batidas, emergindo como uma das melhores iterações do compilado, criando um fio condutor ao irretocável ‘GUTS’, de Rodrigo; “Nauseous” é uma belíssima balada movida pelo violão, pelo piano e pela bateria, fincando os dentes em uma crescente balada power-pop que nos verte no suprassumo jovial do medo de firmar relacionamento pela possibilidade de mágoa.
O álbum tem uma estrutura bastante sólida e que nos encanta faixa a faixa. Como mencionei nos parágrafos acima, os momentâneos deslizes vêm com algumas repetições estilísticas e líricas que, na verdade, podem ser encaradas como uma continuidade de um tour-de-force sentimental e que culmina no mandatório amadurecimento do artista – e, por essa razão, os equívocos são varridos para debaixo do tapete com facilidade inegável. Afinal, na segunda metade do projeto, Gray nos encanta com um dos melhores singles do ano e até mesmo da década, “Caramel”, uma exuberante e vibrante construção electro-rock e pop-rock marcada pela dissonância da guitarra e por uma rendição vocal que nos arremessa para meados dos anos 2000 com uma narcótica e pungente nostalgia.
E, assim como os artistas que o inspiraram em suas aventuras musicais, o performer sabe que a oscilação entre músicas lentas e upbeat é propositalmente caótica – motivo pelo qual, logo depois da faixa supracitada, somos envolvidos com a cândida “Connell”, pela melancolia quase letárgica de “Sunset Tower” (colocando em voga um coração partido que se recusa a seguir em frente de um relacionamento abruptamente finalizado) e pelas ousadias sonoras de “Eleven Eleven”, que se enlaça com as pulsões das primeiras faixas. Finalizando essa gloriosa jornada, “Care” se imortaliza como a chave de ouro do álbum, revisitando os temas de não-superação e de amor que delineou nas tracks anteriores.
‘Wishbone’ reitera a fabulosa estética explorada por Conan Gray desde sua estreia no cenário fonográfico – e faz isso com uma paixão criativa invejável e que, de fato, merecia maior reconhecimento. Mais do que isso, esse breve compilado nos envolve em uma experiência de autoconhecimento refletida nas angústias de um jovem musicista que, como podemos ver, ainda tem muito a nos contar através de sua brilhante mente.
Nota por faixa:
1. Actor – 5/5
2. This Song – 4,5/5
3. Vodka Cranberry – 4/5
4. Romeo – 4/5
5. My World – 4,5/5
6. Class Clown – 4,5/5
7. Nauseous – 5/5
8. Caramel – 5/5
9. Connell – 4,5/5
10. Sunset Tower – 5/5
11. Eleven Eleven – 4/5
12. Care – 5/5
