Uma série mexeu demais comigo… ‘Years and Years‘ abordava a vida de uma família em meio aos acontecimentos geopoliticos mundiais e me tocou profundamente por sua narrativa inteligente, e por ter previsto várias coisas que aconteceram mesmo antes de acontecer. O que me deixou bastante instigado a assisti-la de novo, mas eis que descubro que a série literalmente SUMIU. Produzida pela BBC e exibida pela HBO Max, a série foi removida do catálogo do streaming. Ficou um tempo no Prime Video. E puf. Sumiu também. Então decidi relembrá-la aqui com vocês, por que tenho certeza de que quem assistiu ficou maravilhado e assustado com o futuro que a série trazia, e que parece em partes estar acontecendo.
‘Years and Years é uma série britânica criada por Russell T Davies que mistura drama familiar, ficção científica e crítica sociopolítica para traçar um retrato assustadoramente verossímil das próximas décadas. A trama acompanha a família Lyons — uma típica família britânica de Manchester — ao longo de 15 anos, entre 2019 e 2034, enquanto o mundo sofre transformações drásticas em política, economia, tecnologia e moralidade.
Tudo começa em 2019, com a reeleição de Donald Trump nos Estados Unidos e uma crescente onda de populismo que se espalha pela Europa. No Reino Unido, surge Vivienne Rook (interpretada pela brilhante Emma Thompson), uma carismática e controversa empresária e comentarista política que ganha notoriedade por declarações chocantes e xenófobas — uma figura que simboliza o avanço de lideranças autoritárias e o colapso do discurso político tradicional. Sua ascensão ecoa os movimentos populistas globais, alimentados pelo medo, desinformação e desencanto com a política convencional.
Enquanto isso, o mundo vive uma sucessão de crises globais. As tensões entre dois países culminam num conflito que causa instabilidade geopolítica e uma série de consequências econômicas. A crise dos refugiados se agrava, e o governo britânico, sob a influência de Vivienne Rook e seu partido “Four Star Party” (cujo nome vem de um palavrão censurado nos noticiários), adota medidas cada vez mais autoritárias — campos de concentração disfarçados de centros de “reassentamento”, perseguições políticas e o fechamento das fronteiras.
A série acompanha essas transformações através da vida cotidiana dos Lyons:
- Daniel Lyons, um funcionário público gay, trabalha com refugiados e acredita em políticas de acolhimento, até que se apaixona por Viktor, um refugiado ucraniano que foge da perseguição e acaba sendo deportado ilegalmente. Sua história traz à tona o drama humano da imigração e a brutalidade dos sistemas de controle de fronteira.
- Stephen Lyons, o irmão mais velho, prospera como consultor financeiro, mas vê sua fortuna desaparecer após um colapso bancário — um retrato do capitalismo volátil e das desigualdades crescentes. Sua família é obrigada a se adaptar a um novo estilo de vida, simbolizando a fragilidade da classe média.
- Edith Lyons, ativista política, viaja o mundo documentando injustiças e acaba se envolvendo em ações clandestinas contra governos autoritários. Ela é uma das vozes mais lúcidas da série, lutando para denunciar abusos e revelar verdades escondidas.
- Rosie Lyons, que vive com paralisia, representa as classes trabalhadoras e o impacto direto das políticas de austeridade, da precarização do trabalho e das transformações tecnológicas.
- E no centro de todos, a matriarca Muriel Lyons, que observa, com a sabedoria e o ceticismo de quem já viveu guerras e crises, como o mundo parece repetir seus erros em nova escala.
Muriel faz um monólogo que mexeu demais comigo, como as caixas de supermercado estão sumindo e dando espaço para máquinas:
À medida que os anos avançam, a série mostra um mundo tecnologicamente avançado, mas moralmente em ruínas. A inteligência artificial e o transumanismo ganham espaço — a neta Bethany, por exemplo, deseja “transcender” o corpo humano, implantando chips e se tornando uma “pessoa digital”. Essa subtrama discute a fusão entre homem e máquina e as fronteiras éticas da tecnologia.
Paralelamente, o planeta enfrenta crises climáticas, colapsos econômicos e apagões tecnológicos. A desinformação domina as redes sociais, e as pessoas vivem em bolhas ideológicas. O sistema político britânico entra em colapso completo sob o domínio de Vivienne Rook, que implanta um regime totalitário disfarçado de democracia populista.
O clímax da série ocorre quando os Lyons, devastados por perdas pessoais e revoltas sociais, decidem agir. Daniel morre tragicamente tentando salvar Viktor, que foge para o Reino Unido. Edith, já gravemente doente por exposição à radiação após um ataque nuclear em Hong Kong, lidera uma missão para invadir um dos campos de concentração onde refugiados são exterminados. Com ajuda de tecnologia e coragem, eles expõem os horrores do governo de Rook, desencadeando um levante popular.
O final é ambíguo e profundamente simbólico. Muriel, em sua velhice, faz um discurso poderoso sobre a responsabilidade coletiva da população — que permitiu a ascensão de tiranos ao escolher o conforto e a indiferença. A série termina com uma nota agridoce: Edith morre, mas sua consciência é digitalizada, unindo-se a Bethany num espaço virtual — um vislumbre de esperança num futuro onde a humanidade pode sobreviver de forma diferente, ainda que fragmentada.
O editor-chefe Renato Marafon traz a crítica em vídeo da minissérie que é uma mistura de ‘This is Us‘ e ‘Black Mirror‘.
Assista a crítica:
No momento, a série está desaparecida. Disponível em nenhum streaming. Você assistiu? Achou espetacular?
