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Crítica | Zodiac Killer Project esmiuça a obsessão por documentários true crime através de uma impecável análise satírica


Ao acender das luzes do projetor, uma voz serena emerge, traçando as primeiras linhas do que poderia ser mais um documentário true crime. Um amplo estacionamento é o centro das nossas atenções. Vazio, em uma silenciosa região, ele marca o início de algo que não foi e jamais será. Charlie Shackleton tenta aflorar nossa imaginação com seu argumento, que bem narrado, visa nos transportar para uma angustiante cena que nos levaria à descoberta do século: quem é o assassino do Zodíaco.

Mas esse aqui não é um documentário e essa cena de abertura ainda não nos significa absolutamente nada. Zodiac Killer Project é de fato uma espécie de “wishful thinking”, um desejo que domina a mente mas jamais é consumado. Um devaneio que não se cumpre. Uma ilusão que encontra conforto na mente. E é uma das produções mais ousadas do gênero documental dos anos recentes.

Fruto da obstinação de um documentarista frustrado por perder sua fonte – um policial que jura veementemente ter encontrado o assassino do zodíaco -, Zodiac Killer Project existe por uma questão de honra. Com o objeto de seu filme, Shackleton, abandonando a ideia de transformar suas teorias em um longa, o diretor decide por fazer de um azedo limão uma inexplicável e inesperada experiência sinestésica. Munido de um texto brilhantemente escrito, ele se aconchega em uma cabine de gravação e faz de seu fracassado documentário uma reflexão sobre o fascínio humano por produções true crime.



Inerentemente, ele faz uma análise e crítica à linguagem artística usada pelo gênero de docs true crime, à medida em que compartilha sua visão artística, regada pelo desalento de jamais poder executar aquilo que tanto ansiou. Embarcando em uma epifania onde compara as diversas séries e filmes nesse formato a partir de suas apelativas técnicas de persuasão e encantamento, Zodiac Killer Project pondera sobre as escolhas moralmente questionáveis na reconstrução narrativa de crimes reais.

Perpassando por diversas produções que atingiram sucesso global nos principais streamings, o diretor faz uma observação crítica afiada desse formato tão popular, enquanto explica pela ótica de documentarista porque cada um desses elementos sinestésicos são tão sedutores, tanto para o diretor, bem como para a audiência. Com um senso de humor próprio onde se coloca nas lentes de um telescópio e também se julga pelos mesmos parâmetros que usa para avaliar seus colegas de profissão, Ele consegue nos inebriar para dentro de seu wishful thinking”, nos acomodando em suas ideias de tal maneira que nos sentimos presos pelo som de sua voz e pelas imagens frias que percorrem a tela – com o objetivo de nos ambientar naquela narrativa documental que jamais se cumpriu.

E ao refletir sobre o filme que jamais conseguiu fazer, Shackleton tenta aceitar o irremediável e amargo destino de um documentário que apenas existirá em sua mente. E ainda que sua insatisfação seja completamente palpável e compreensível, a verdade é que Zodiac Killer Project é infinitamente superior do que aquele doc true crime que nunca verá a luz do projetor. Mal sabe ele que tais devaneios e reflexões sobre toda uma indústria alimentada pelo sangue de vítimas reais têm muito mais a oferecer do que qualquer documentário sobre um assunto tão desgastável e, infelizmente, eternamente insolúvel.

E de maneira original e audaciosa, Zodiac Killer Project registra em 1h30 toda sua visão criativa para o longa, como se fizesse de seu filme um desabafo profundo e despretensioso. Com uma voz serena, uma locução envolvente e um texto exemplar, que convida a audiência para dentro de sua visão criativa jamais consumada, o diretor entrega um documentário honesto e envolvente. Estruturado como um desabafo entre amigos, seu argumento é autêntico e sincero, sem a pretensão de se tornar a voz da razão em meio a um gênero que se farta do sangue alheio. Vulnerável em sua exposição e absolutamente certeiro em suas reflexões, Zodiac Killer Project é infinitamente superior a qualquer versão originalmente desenhada. Para os seus produtores, talvez seja apenas a sombra de algo que não fruiu. Para nós, enquanto audiência, é visão completa e crua do que um excelente filme denúncia precisa ser.

Filme assistido durante o Festival de Sundance 2025

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