Em 2016, em meio àquela leva de adaptações em live-action e filmes de princesas, a Walt Disney Animation Studios lançou uma joia valiosíssima em sua coroa cravejada de preciosidades. Zootopia: Essa Cidade é o Bicho chegou arrebatadora, conquistando público, crítica e as premiações. A história original sobre um mundo habitado apenas por animais antropomórficos que vivem na utópica cidade de Zootopia, que aceita e acolhe a todos, conseguiu misturar criatividade com bom humor e uma trama policial interessantíssima, conquistando crianças e adultos em todos os cantos do mundo.
Na ocasião, o público se apaixonou pela acelerada Judy Hopps, a primeira policial coelha da cidade, e pelo desapegado Nick Wilde, um pilantra de bom coração que acaba coagido a ajudar a coelhinha em uma investigação pelo submundo do crime desse mundinho perfeito. O contraste entre os protagonistas, que aprendem a lidar com suas diferenças e os pré-conceitos que envolvem manter uma relação com seu predador/ presa natural, cativou o público com suas mensagens de igualdade e do quanto o preconceito prejudica o avanço da sociedade.

Agora, praticamente uma década depois, Nick e Judy retornam para os cinemas em Zootopia 2. Nesta nova aventura, a dupla está tentando colher os louros de terem salvo a cidade. Só que eles não são bem aceitos pelos agentes mais tradicionais, então tentam provar seu valor a cada novo caso que aparece. O que também não pega bem entre os outros policiais. Em um desses casos, porém, as coisas saem do controle e a dupla acaba sendo afastada do serviço. No entanto, eles encontram uma pista sobre um possível roubo de um artefato histórico que estará exposto pela primeira vez em um século. Dispostos a recuperarem seus cargos, Judy e Nick se infiltram em um evento, dando início a uma nova investigação que vai mudar suas vidas para sempre.
Um dos pontos mais legais do primeiro filme era a construção de universo de Zootopia. A cidade era toda adaptada para o conforto das diferentes espécies que passam por lá. Portas pequenas para roedores, toboáguas para o transporte de animais semiaquáticos, trens com claraboias para girafas e animais maiores… Sem contar o próprio design dos personagens, que adaptavam as características dos animais da vida real a trejeitos humanoides, como as girafas andando com as costas mais curvadas, tigres dançando com passos que misturam ataques do predador a passos de dança, tatus andando com a postura de idosos e muito mais. Os animadores deixaram a criatividade falar mais alto e ousaram na hora de construir esse mundo.

E a boa notícia é que isso se repete na sequência. A trama gira em torno da comemoração do centenário de Zootopia e da criação dos painéis climáticos, que permitem a coexistência dessas espécies nos diferentes distritos. Além disso, eles explicam o motivo do público não ter visto répteis no primeiro filme. Diante disso, a equipe criativa explora novos cenários, como prisões, distritos desérticos, portuários e até mesmo montanhosos. A forma como trabalham esses cenários junto aos animais que habitam neles e vice-versa são simplesmente geniais. A sequência ambientada nesse distrito portuário é divertidíssima e explora ao máximo as espécies que estão por lá. A quantidade de piadas visuais por segundo é absurda. Algumas, inclusive, vão passar despercebidas, como a presença de um basilisco – um lagarto capaz de andar sobre as águas – chamado Jesus.
E se o primeiro filme abordava o preconceito social como parte central da trama, o cerne da sequência é ainda mais complexo. Eles abordam temas como o apagamento histórico-cultural promovido pelas grandes corporações, além de meter o dedo na ferida da gentrificação, um problema cada vez mais presente no mundo inteiro, que está vendo bairros tradicionais desaparecendo, após serem tomados por hipervalorizações repentinas, encarecendo tanto os entornos que deixa insustentável a permanência de famílias simples por lá, praticamente expulsando-as de suas casas e tomando esses bairros à força, descaracterizando tudo que fez desses lugares especiais. É um tema extremamente complexo, mas é tão bem trabalhado que até as crianças pequenas vão entender o motivo de ser algo tão problemático na nossa sociedade. O exemplo mais famoso do mundo é o Brooklyn, nos EUA, que passou de um bairro periférico para um bairro “hypado”, com custo de vida altíssimo. As famílias que construíram aquele lugar não têm mais condições de permanecerem por lá, por exemplo.

Claro que o preconceito está presente na trama novamente. Afinal, as grandes famílias que construíram a cidade não eram exatamente politicamente corretas, né? Só que acaba ficando com menos destaque do que no primeiro. Essa temática deu espaço a um maior desenvolvimento da relação entre Nick e Judy. E, sério, eles são tão bons juntos que parece difícil acreditar que eles teriam algum problema de relacionamento. Porém, como o próprio filme mostra, a duplinha tem uma série de pontos mal resolvidos que impactam em suas vidas sem que eles percebam.
A grande adição à trama é a cobra Gary, que é um bom personagem, muito divertido, mas não consegue brilhar tanto quanto Judy e Nick. Eles carregam a trama com suas perspectivas distintas sobre o caso que estão investigando – e sobre a vida em si. Nick ainda é uma raposa traumatizada pela infância, que usa as piadas como ferramenta de proteção, enquanto a Judy vive com o peso de ser a primeira policial coelha, um símbolo de inspiração para qualquer coelha ou animal de pequeno porte que sonhe em ser alguém na vida. Ela sabe que não pode errar. E a trama se constrói a partir de uma grande lambança da dupla. É um trabalho incrível que deixa a duplinha ainda mais apaixonante.

No fim, Zootopia 2 consegue expandir de forma brilhante esse universo tão rico, mantendo a essência do filme original e desenvolvendo ainda mais seus protagonistas tão espetaculares. Acima de tudo, é uma aventura policial divertidíssima que explora temas complexos, como a gentrificação e o apagamento de povos históricos, de forma simples, eficaz e instigante, que será capaz de conquistar a molecada e surpreender o público adulto. Não é exagero nenhum dizer que é a melhor animação da Disney desde o primeiro Zootopia.

