‘Um Maluco no Golfe 2‘ quebrou recordes de audiência para a Netflix, estreando como um de seus filmes originais mais assistidos de todos os tempos. O filme faz parte da parceria da empresa com o comediante Adam Sandler, que iniciou em 2015 e já soma treze filmes. Desde então Sandler não lançou mais comédias no cinema – já que seu acordo é de exclusividade. Como de praxe com a plataforma de streaming, ela disponibilizou também a obra que deu origem a ‘Um Maluco no Golfe 2‘, ou seja, ‘Um Maluco no Golfe‘, o filme original de 1996 – uma produção da Universal Pictures. Ambas estão hoje (no lançamento desta matéria) no ranking dos filmes mais vistos da plataforma (o primeiro em nono e o segundo em terceiro). É justamente sobre o primeiro ‘Um Maluco no Golfe‘, a comédia mais celebrada da carreira de Adam Sandler, que iremos falar aqui.
Adam Sandler começou sua carreira ainda bem jovenzinho com participação em quatro episódios da icônica sitcom ‘The Cosby Show‘ no período entre 1987 e 1988. Depois disso, apesar de fazer sucesso com seu estilo irreverente, provocador, mas também muito infantil, em shows de stand-up comedy, realizou uma muito malsucedida estreia nas telonas com o fiasco ‘Ir ao Mar‘ (Going Overboard), de 1989, o qual escreveu o roteiro e estrelou. O filme conta as desventuras de um jovem funcionário de um cruzeiro de luxo, esperando sua grande oportunidade na comédia. Apesar do tema ser totalmente propício, Sandler ainda não estava pronto para se tornar uma estrela. E filme poderia ter acabado com sua carreira, mas felizmente não foi isso que ocorreu.

Sua grande chance viria mesmo no ano seguinte, quando sua carreira deu um salto ao ser descoberto para o programa Saturday Night Live – um dos humorísticos mais duradouros da história da TV. Em 1990, Sandler foi contratado inicialmente como roteirista e, pouco depois, passou a aparecer diante das câmeras, interpretando personagens cômicos que rapidamente conquistaram o público. Durante seus cinco anos no SNL, Sandler virou sinônimo de humor nonsense, com quadros memoráveis como o do cantor Operaman e canções como “The Thanksgiving Song”. Nessa fase, Sandler pôde dividir o palco e as câmeras com alguns outros humoristas que levaria consigo para a vida, como David Spade, Chris Rock e Rob Schneider. Mas o grande destaque era para o saudoso Chris Farley, que assim como Sandler fez sucesso no cinema também nos anos nos 90, mas nos deixaria cedo demais em 1997.
Ainda durante os seus cinco anos no elenco fixo do SNL, Adam Sandler teve a chance de fazer papeis no cinema, sempre como coadjuvante (para melhor entender o processo e não se atropelar como antes), em filmes como ‘Um Palhaço Suspeito‘ (1991), ‘Cônicos e Cômicos‘ (1993), ‘Os Cabeças de Vento‘ (1994) e ‘Um Dia de Louco‘ (1994). Foi só depois de ter feito este “estágio” nas telonas – trabalhando com veteranos como Steve Martin e Dan Aykroyd, que Sandler arriscaria novamente estrelar uma produção. Seu primeiro grande passo no cinema veio com ‘Billy Madison – Um Herdeiro Bobalhão‘ (1995), onde já exercia forte controle criativo, ao lado do parceiro Tim Herlihy. O filme foi recebido de forma morna pela crítica, mas atraiu um público fiel e abriu caminho para sua consolidação em Hollywood — algo que ‘Um Maluco no Golfe‘ viria a confirmar de vez no ano seguinte.

A ideia para ‘Um Maluco no Golfe‘ surgiu da colaboração entre Adam Sandler e seu amigo de longa data, o roteirista Tim Herlihy, com quem já havia trabalhado também no SNL. A dupla queria criar uma nova comédia centrada em um personagem explosivo, deslocado em um ambiente inesperado — e o golfe, tradicionalmente associado à elite e ao comportamento contido, pareceu o cenário ideal para a anarquia típica de Sandler. A inspiração também veio de observações sobre atletas com temperamentos fortes, como jogadores de hóquei, o que levou ao conceito de um protagonista que tentava migrar de um esporte brutal para outro completamente oposto. A partir dessa premissa inusitada, nasceu Happy Gilmore, o antijogador de golfe definitivo.
‘Um Maluco no Golfe‘ foi produzido pela Universal Pictures, estúdio que começava a apostar com mais força em novas vozes da comédia, especialmente aquelas com apelo entre o público jovem. A prova disso foi que o estúdio bancou os três primeiros filmes estrelados por Sandler, após ter se tornado um rosto conhecido no SNL.

O sucesso modesto de ‘Billy Madison‘ havia chamado atenção suficiente para garantir a Sandler e sua equipe maior liberdade criativa e um orçamento mais generoso. Para a direção, foi escolhido Dennis Dugan, veterano de televisão e cinema, conhecido por seu timing cômico. Dugan e Sandler estabeleceriam ali o início de uma parceria duradoura, com o diretor comandando vários outros projetos do ator nas décadas seguintes. Juntos, eles buscavam criar uma comédia que fosse tanto absurda quanto estranhamente emocional — um equilíbrio que se tornaria a marca registrada do universo de Happy Gilmore.
Para dar vida ao universo excêntrico de ‘Um Maluco no Golfe‘, Adam Sandler foi cercado por um elenco que mesclava veteranos carismáticos e rostos pouco conhecidos, escolhidos a dedo para realçar o tom cartunesco da história. Christopher McDonald brilhou como Shooter McGavin, o arrogante rival de Happy, entregando uma performance que virou cult entre os fãs. A atriz Julie Bowen, então em início de carreira, interpretou Virginia Venit, a executiva do torneio de golfe e interesse romântico do protagonista. Outro destaque foi Carl Weathers, famoso por interpretar Apollo Creed nos filmes ‘Rocky‘, aqui em um papel completamente diferente: o instrutor de golfe Chubbs Peterson, que rouba cenas com sua mão de madeira e temperamento contido. Até mesmo Bob Barker, o lendário apresentador de TV, fez uma participação hilária interpretando a si mesmo em uma das sequências mais lembradas do longa.

Na trama, Happy Gilmore é um ex-jogador de hóquei no gelo com um temperamento explosivo e um sonho frustrado de entrar na NHL. Quando descobre que sua avó está prestes a perder a casa por falta de pagamento, Happy decide tentar uma alternativa inusitada: se tornar um jogador de golfe profissional para ganhar o dinheiro necessário. Apesar de não ter nenhuma experiência no esporte, ele descobre que seu poderoso e descontrolado swing, herdado do hóquei, pode ser uma arma letal no campo de golfe. Com a ajuda do excêntrico treinador Chubbs Peterson, que retira-se do esporte após perder a mão em um acidente, Happy começa a aprender as regras e técnicas, enquanto luta para controlar seu temperamento.
Ao entrar no circuito profissional, Happy precisa enfrentar não apenas as dificuldades do esporte, mas também seu maior adversário, Shooter McGavin, um arrogante campeão que vê o novato como uma ameaça à sua hegemonia. Além disso, Happy tenta conquistar o respeito da bela executiva do torneio, Virginia Venit, enquanto mantém sua autenticidade e jeito irreverente, muito distante do mundo polido do golfe. O filme equilibra sequências de humor escrachado com momentos de emoção, mostrando a jornada de um personagem que desafia as convenções, prova seu valor e, no caminho, ensina que talento e paixão podem superar qualquer barreira.

Lançado no dia 16 de fevereiro de 1996, podemos dizer que ‘Um Maluco no Golfe‘ fez o que precisava para dar início a carreira de Adam Sandler de forma favorável. O longa dividiu a crítica da época e não foi por assim dizer um sucesso retumbante de bilheteria. Por outro lado, apesar de não ter estreado em primeira posição do ranking das maiores bilheterias de seu fim de semana (vaga que ficou com o blockbuster de ação ‘A Última Ameaça‘, estrelada por John Travolta e dirigida por John Woo – em seu segundo fim de semana), ficou com a segunda posição – a maior entre as estreias daquela semana. O filme, com US$8.5 milhões, desbancou os lançamentos do infantil ‘Os Muppets na Ilha do Tesouro‘, o drama político de prestígio ‘City Hall: Conspiração em Alto Escalão‘ (com Al Pacino, John Cusack e Bridget Fonda) e a comédia ‘Deu Tudo Errado‘ (com Ellen DeGeneres e Bill Pullman).
Em contrapartida, outra comédia de dois ex-integrantes do SNL havia se dado melhor nas bilheterias, dois fins de semana antes. ‘A Ovelha Negra‘, com Chris Farley e David Spade, arrecadou US$10.5 milhões e ficou em primeira posição do ranking. ‘Um Maluco no Golfe‘ encontrou um público apaixonado que logo transformou o filme em um sucesso. No final de sua estadia nas telonas, o filme arrecadou um total de US$41.4 milhões, com um orçamento de US$12 milhões, garantindo um sucesso modesto.

Se nos cinemas o filme teve um desempenho respeitável, foi nas locadoras que ‘Um Maluco no Golfe‘ realmente virou fenômeno. Lançado em VHS ainda em 1996, o longa se tornou um dos títulos de comédia mais alugados daquele ano nos Estados Unidos, figurando por meses entre os mais procurados nas prateleiras. No Brasil, o sucesso se repetiu, com o filme virando figurinha carimbada nos fins de semana em família, especialmente entre adolescentes que se identificavam com o humor rebelde e desbocado de Happy Gilmore. Esse desempenho explosivo no mercado de vídeo foi fundamental para ampliar o alcance do filme e consolidar Adam Sandler como um ídolo da nova geração. O sucesso nas locadoras também ajudou a criar demanda por novos projetos estrelados pelo ator, tornando-o um nome forte comercialmente para os anos seguintes.
‘Um Maluco no Golfe‘ foi um divisor de águas na carreira de Adam Sandler, marcando o momento em que ele deixou de ser apenas um nome promissor da comédia para se tornar um astro consolidado de bilheteria. O personagem Happy Gilmore personificava tudo o que o público passou a esperar de Sandler: um sujeito desajustado, explosivo, mas com um coração genuíno — uma fórmula que ele levaria adiante em inúmeros filmes. O sucesso do longa abriu caminho para a criação da Happy Madison Productions, produtora fundada por Sandler que se tornaria responsável por boa parte de seus projetos futuros.
Com o tempo, Happy Gilmore ganhou o reconhecimento que faltou na estreia, sendo hoje considerado um dos filmes mais emblemáticos da primeira fase da carreira de Sandler.
