Será que vai existir um novo ‘Esqueceram de Mim‘? Essa dúvida veio na minha cabeça depois que eu assisti ‘Um Natal Ex-Pecial‘ na Netflix. O streaming arrasou em trazer a minha eterna musa da adolescência Alicia Silverstone de volta em um filme de Natal, que é uma farofinha gostosa, mas não tem o impacto que os filmes antigos tinham. É um clichê bem executado. Estamos vivendo em um momento à base da nostalgia: reciclar o que funcionou e adicionar elementos que nos lembrem do passado. Os anos 80 e 90 nunca estiveram tão na moda quanto hoje em dia. Temos até a volta do chocolate Surpresa. Mas me indaga a pensar o que nos faz se apegar tanto às décadas passadas.

Os filmes traziam histórias inovadoras e desbravadoras, como ‘Jurassic Park‘ e ‘ET‘, e elas continuam sendo revividas nos cinemas com sequências e derivados, mas não possuem o mesmo impacto narrativo que tiveram outrora. E isso me faz pensar no que consumimos e no que queremos consumir. Ficou muito mais fácil reviver histórias antigas do que iniciar novas. Quais filmes modernos viraram franquias? Em que momento paramos de idealizar novas histórias para viver apenas de histórias que já conhecemos e que nos trazem conforto?
É muito difícil achar um filme atual bom, seja nos streamings ou nos cinemas, mas também quando eles chegam poucas pessoas tem acesso ou interesse. As histórias mais interessantes acabam chegando em poucas salas de cinemas, passando batido, e quem sabe uma hora encontramos em algum streaming. Eu pude ver alguns filmes muito interessantes em festivais de cinema. ‘Baby‘ foi um deles.

E aí começa um novo problema, de como você pode acessar novas histórias. Indiquei o filme para um amigo, mas não estava nos streamings que ele assinava. E ele já assinava vários. Não dá para assinar mais um streaming só pra ver um filme que não está no seu streaming. Antes você ia na locadora e escolhia um filme. Pronto. Simples. Agora, são dezenas de streamings a rodo. Muito conteúdo, mais do mesmo. E quando você quer indicar um filme, não está no streaming que a pessoa assina. E cá estou de novo em um retrato nostálgico sentindo saudade das velhas locadoras. “É só comprar o filme no streaming, uai”. Fato. Mas de repente voltamos na era da TV a cabo. O filme que quero sempre parece estar no streaming que não assino. E quantos streamings…
Ficar zapeando e procurando um título bom pra assistir, horas e horas. Uma busca solitária. Sem a interação das videolocadoras e sem o charme de pedir ajuda para o atendente. Quem sabe até descolar o VHS lançamento que está escondido embaixo do balcão para os clientes VIPs? Ou se deparar com a fita de Faces da Morte e ficar morrendo de medo? Ou dar uma envergadinha para a sessão adulta com medo de ser descoberto? Ah, que saudade das videolocadoras.

Me faz pensar que nossos sentimentos ao assistir a um filme não estavam só no produto em si, mas em toda a jornada para descobri-lo. A magia dos filmes antigos talvez estava na história que nos levou a eles. Hoje temos muitas ofertas, mas tudo parece mais do mesmo. Antes, blockbusters eram raros e preciosos. Quando um blockbuster ia ser lançado, tinhamos meses de preparação. Lembro de ir comprar a revista SET para saber como o Stephen Sommers conseguiu transformar o The Rock em um Escorpião na sequência do maravilhoso ‘A Múmia‘. Que filme delicioso. Hoje vejo quão porco foi o CGI, mas na época eu não me importava. Foram meses me preparando para aquele lançamento, com filas no cinema. 1999 foi o melhor ano da história do cinema. E ‘Independence Day‘? E o que foi o fuá em torno de ‘A Bruxa de Blair‘? Eu nunca sai tão aterrorizado do cinema em imaginar que sim, aquilo podia ter sido verdade e foi vendido como. Que marketing genial, meu Deus. E nem vou falar de ‘Matrix‘ por que esse merece uma matéria só pra ele. Quando teremos algo parecido? O Bug do Milênio nos bugou? A internet nos deixou muito acelerados? Sem paciência?

Isso me leva a pensar que hoje estamos pecando pelo excesso. Temos um blockbuster chegando por fim de semana nos cinemas, um filme imperdível. Você precisa ver. “Não perca, hein?”. As vezes até dois blockbusters no mesmo fim de semana, como o fenômeno ‘Barbenheimer‘. Mas as histórias não parecem mais tão atrativas, e bora rebuscar o passado pra reviver uma história confortante. Amo. ‘Pânico 7‘, ‘Eu Sei o Que vocês Fizeram no Verão Passado‘ (dessa vez eu preferia não ter sabido), a estafa dos super-heróis. Muitas sequências. Poucas histórias inéditas. Nos apegamos ao passado e às franquias. Salvo algumas excessões, como ‘Pecadores‘, ‘Faça Ela Voltar‘ e ‘O Agente Secreto‘. E de repente, ‘Harry Potter e o Cálice de Fogo‘ volta aos cinemas e estreia em segundo lugar nas bilheterias. Levou 373 MIL pessoas aos cinemas. Em um dia. Um filme lançado há 20 anos. Estamos relançando filmes antigos. Acho que não sou só eu que estou nostálgico.
Sem entrar no tabu da qualidade do conteúdo ofertado hoje em dia tanto nos cinemas quanto nos streamings, que me faz ter saudades imensas de passar as manhãs assistindo os mesmo episódios de ‘A Caverna do Dragão‘ no Xou da Xuxa. Eram episódios repetidos que pareciam novos, tamanha a complexidade. Falando nisso, quando conseguir, assista ao fofo filme nacional ‘O Último Episódio‘, de Maurílio Martins. Um coming of age delicioso que se passa nos anos 90 e aborda toda essa nostalgia. O filme saiu em poucas salas de cinema, e em breve deve chegar ao streaming. Espero que seja em um streaming que você assine. Risos.
Mas eu queria saber de você. Por que estamos tão apegados às histórias do passado e por que não nos interessamos pelas histórias novas? O que falta? Qualidade? Conteúdo?
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