Mesmo em meados dos anos 2020, há inúmeras pessoas que enxergam o cinema nacional como uma anomalia da sétima arte que produz apenas filmes de comédia pastelão ou produções esquecíveis e cópias de Hollywood.
Todavia, para aqueles que resolvem esquadrinhar um pouco mais as várias décadas do entretenimento nacional, vemos que a nossa cultura não deve nada à internacional – e, muitas vezes, ultrapassa a qualidade dos bombardeios que vêm lá de fora.
No dia de hoje, 19 de junho, comemora-se o Dia do Cinema Brasileiro e, pensando nisso, preparamos uma breve lista elencando os melhores filmes nacionais da década (até agora).
Veja abaixo as nossas escolhas e conte para nós qual o seu favorito:
7. MANAS (2024)

Marianna Brennand fez uma gloriosa estreia como diretora com o drama ‘Manas’, que chocou o público ao denunciar o abuso sexual sofrido por jovens da Ilha de Marajó, no estado do Pará. Contando com Dira Paes, Jamilli Correa e Rômulo Braga em interpretações fantástica, Brennand nos conduz com visceralidade e uma melancólica beleza estética através da história de Marcielle, uma jovem que começa a entender que o futuro não lhe reserva muitas opções. Encurralada pela resignação da mãe e movida pela idealização da figura da irmã que partiu, ela decide confrontar a engrenagem violenta que rege a sua família e as mulheres da sua comunidade.
6. A PAIXÃO SEGUNDO G.H. (2024)

Adaptar os romances e os contos de Clarice Lispector para o audiovisual não é um trabalho fácil – mas, quando feito de maneira comprometida, pode se tornar uma joia. E foi isso que Luiz Fernando Carvalho fez com ‘A Paixão Segundo G.H.’: mergulhando de cabeça nas explorações epifânicas da icônica autora brasileira e pautando uma narrativa marcada pelo fluxo de consciência, o diretor fez o impossível e trouxe ninguém menos que Maria Fernanda Cândido para encabeçar essa empreitada simplesmente apaixonante e que merecia maior reconhecimento do público.
5. MEDIDA PROVISÓRIA (2020)

Poucos filmes causaram tanta polêmica quanto ‘Medida Provisória’, que marcou a estreia de Lázaro Ramos na direção. Alvo de boicote por grupos de extrema-direita, o longa alicercou uma poderosa crítica ao governo do ex-presidente Jair Bolsonaro através de metáforas originais e uma urgência analítica e sociológica que o transforma em uma obra-prima dramática e distópica. Na trama, em uma iniciativa de reparação pelo passado escravocrata, o governo brasileiro decreta uma medida provisória e provoca uma reação imediata no Congresso Nacional. Os parlamentares aprovam uma medida que obriga os cidadãos negros a se mudar para a África na intenção de retomar as suas origens – afetando a vida de inúmeras pessoas.
4. BABY (2024)

‘Baby’, dirigido por Marcelo Caetano, fez sua estreia oficial no Festival de Cannes e, em pouco tempo, conquistou o público e a crítica – e não é por menos: através de uma dramática narrativa recheada de inesperados eventos e de uma preocupação estética que reflete as pulsões íntimas do ser humano em contraste com o urbanismo predatório de uma das maiores cidades do mundo, o longa conta com interpretações fabulosas de João Pedro Mariano e Ricardo Teodoro em um coming-of-age mandatório de tirar o fôlego.
3. MARTE UM (2022)

‘Marte Um’ provavelmente passou longe de seu radar, mas merece ser apreciado em sua completude, seja pela belíssima obra de arte que cria para os espectadores, seja pelas importantes mensagens que passa – principalmente em uma época em que as divisões políticas acendem um perigoso barril de pólvora. Analisando os perigos da extrema-direita na sociedade, a trama acompanha uma família negra da periferia de Contagem, Minas Gerais, que busca seguir seus sonhos em um país que acaba de eleger como presidente um homem autoritário e tirânico que representa o contrário de tudo que eles são.
2. OESTE OUTRA VEZ (2025)

Dirigido por Érico Rassi, ‘Oeste Outra Vez’ fez sua estreia oficial no CINEBH antes de chegar ao circuito nacional – e, em pouco tempo, tornou-se uma das produções mais aclamadas do ano. Analisando temas como a masculinidade mandatória e tóxica (delineada através de sátiras pungentes e cruas), bem como incursões sobre a violência no sertão de Goiás e sobre crises existenciais, a produção vale-se do trabalho irretocável da equipe artística e das poderosas atuações de nomes como Babu Santana, Ângelo Antônio e Antônio Pitanga.
1. AINDA ESTOU AQUI (2024)

Em pleno século XXI, há pessoas que rendem-se ao vira-latismo cultural ao acreditar que o Brasil não produz filmes bons, como já mencionado no início desta matéria. Walter Salles veio para provar novamente que isso não é verdade ao encabeçar o visceral e impactante drama ‘Ainda Estou Aqui’.
Ambientado no obscuro período da Ditadura Militar, o longa funciona como um retrato cru de um dos momentos mais duros da história nacional – e, além de contar com uma soberba produção técnica e artística, é encabeçado por uma performance arrebatadora de Fernanda Torres, que se reitera como uma das melhores atrizes de todos os tempos. O sucesso do longa, inclusive, rendeu ao Brasil seu primeiro Oscar, na categoria de Melhor Filme Internacional, e garantiu a Torres um Globo de Ouro e uma indicação ao Oscar de Melhor Atriz.
