‘Diana – A Princesa do Povo’: Sara Sarres constrói sua própria Diana entre a memória coletiva e a presença do palco



Nos últimos anos, a figura da princesa Diana voltou a ocupar o imaginário da cultura pop a partir de diferentes releituras no cinema, na televisão e nos documentários. Produções recentes reacenderam o interesse por sua trajetória e ampliaram as formas de olhar para uma personagem que permanece em constante reconstrução.

É nesse contexto que Sara Sarres se aproxima da figura de Diana para vivê-la nos palcos no musical ‘Diana – A Princesa do Povo’, em cartaz no Teatro Multiplan, no Rio de Janeiro, até 26 de abril, antes de seguir para o Teatro Liberdade, em São Paulo, onde estreia em 14 de maio, em um processo que parte menos da reprodução de versões já conhecidas e mais de uma investigação direta sobre quem foi essa mulher.

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Ao revisitar esse material contemporâneo, a atriz reconhece sua importância como ponto de partida, mas estabelece um limite claro na forma como conduz sua criação. “Essas produções ajudaram a reabrir o debate sobre quem foi Diana e como a história dela continua sendo reinterpretada. Mas procurei não me prender a uma única leitura”. Em vez disso, o caminho escolhido foi outro, mais próximo de uma observação direta. “O meu processo partiu muito mais de entrevistas, registros históricos e imagens da própria Diana. Quis observar diretamente a presença dela, o ritmo da fala, os silêncios, o modo como escutava as pessoas”.

Esse movimento desloca o foco da representação para a presença. Ao invés de construir a personagem a partir de interpretações anteriores, Sara busca entender o que existe de mais essencial na figura de Diana — algo que, segundo ela, aparece com mais clareza nos registros documentais do que nas dramatizações. O processo também se desenvolve sob a direção de Tadeu Aguiar, que orienta a construção da personagem a partir de uma abordagem centrada na presença e na escuta em cena. “Quando você vê entrevistas e momentos espontâneos, percebe uma presença muito singular: o olhar direto, a escuta atenta, o gesto de se aproximar das pessoas sem distância”.

Ao levar essa investigação para o teatro musical, a atriz encontra uma linguagem que amplia ainda mais essa dimensão. Diferente do cinema ou da televisão, onde a mediação da câmera organiza a percepção do espectador, o palco impõe outra lógica de relação. “O teatro musical tem algo muito particular: ele transforma emoção em presença imediata. No palco, tudo acontece ao vivo, diante do público”. Nesse espaço, a música se torna um elemento central na construção da personagem. “Ela permite acessar dimensões internas que, muitas vezes, seriam difíceis de expressar apenas em diálogo”.

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Essa abordagem não ignora as representações já consolidadas da personagem, mas também não se orienta por elas. Ao comentar interpretações como a de Kristen Stewart no cinema, em Spencer, Sara reconhece a força dessas leituras, mas reforça a necessidade de construir uma trajetória própria. “Eu admiro muito a forma como diferentes atrizes trouxeram leituras da Diana. Mas, no meu processo, procurei não reproduzir nenhuma referência específica”.

Essa lógica também se estende à própria encenação: embora exista uma versão original do musical disponível na Netflix, a montagem brasileira segue uma abordagem não-réplica, com linguagem e construção próprias, que se afirmam em cena. A criação, nesse caso, se ancora nas condições do espetáculo, nas diretrizes da equipe criativa e na relação direta estabelecida em cena. “A personagem precisa dialogar com a música, com o ritmo da cena e com o público presente naquele momento”.

Esse equilíbrio entre memória coletiva e construção individual se torna ainda mais evidente quando se trata de uma figura tão conhecida. Diana não é apenas uma personagem histórica — ela é uma imagem já sedimentada no imaginário do público, atravessada por diferentes narrativas. “Quando uma personagem faz parte da memória coletiva, cada pessoa chega ao teatro com uma expectativa”, observa. O desafio, portanto, não é negar essa memória, mas expandi-la. “O meu trabalho é respeitar essa memória, mas também convidar o público a enxergar novas camadas dessa história”.

Nesse processo, os documentários recentes desempenham um papel importante ao revelar aspectos menos visíveis da personagem. Para a atriz, esse material ajuda a compreender uma Diana que vai além da imagem institucional. “Eles mostram uma mulher muito mais complexa, com uma inteligência emocional muito forte e uma consciência crescente do impacto que sua presença tinha no mundo”. Essa percepção desloca a personagem de um lugar puramente simbólico para um campo mais humano, onde sensibilidade e estratégia convivem.

Ao final, é justamente essa dimensão humana que orienta a construção de Sara Sarres. Mais do que reproduzir um ícone, sua interpretação busca recuperar a experiência de presença que marcou a trajetória de Diana. “No palco, ela deixa de ser apenas uma figura histórica e se torna uma presença viva”. É nessa troca direta com o público que a personagem se reconstrói — não como uma imagem fixa, mas como um encontro que acontece, de forma única, a cada apresentação.

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Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.

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