Dica da Semana | ‘A Autópsia’, um dos filmes de terror mais subestimados da década passada


O terror é um dos gêneros mais populares entre os cinéfilos e está intrinsicamente atado ao surgimento do cinema. Afinal, se pensarmos nos primórdios da sétima arte, títulos como ‘Nosferatu’ e ‘Fausto’, ambos de F.W. Murnau, ‘M, o Vampiro de Dusseldorf’, de Fritz Lang, e ‘O Gabinete do Doutor Caligari’, de Robert Wiene, se tornaram emblemas desse tipo de narrativa e introduziram tropos que seriam remodelados e emulados mais de um século depois de terem chegado às telonas. E um dos incontáveis realizadores que se apropriaram desse expansivo universo foi André Øvredal.

O diretor norueguês, que tornou-se conhecido por seu trabalho em ‘A Última Viagem do Deméter’ e na elogiada adaptação ‘Histórias Assustadoras para Contar no Escuro’, fez sua estreia oficial na sétima arte em 1997, com o longa independente ‘Future Murder’, migrando para o mainstream quase uma década e meia mais tarde com ‘Trollhunters’, que começou a atrair atenção midiática ao realizador. Em 2016, Øvredal encontraria um sucesso ainda maior com o atmosférico e subestimado horror sobrenatural de A Autópsia, que chegou sem muito alarde aos cinemas e que, dez anos mais tarde, permanece como uma das peças mais originais do gênero.

A trama nos leva para o interior da Virgínia e se inicia com uma brutal investigação criminal que revela um estranho corpo enterrado no porão de uma casa, que, por sua vez, foi palco de uma série de homicídios cruéis. O corpo da desconhecida, então, é levado para o legista local, Tommy Tilden (Brian Cox), que administra um necrotério ao lado do filho, Austin (Emile Hirsch). A dupla, então, resolve trabalhar a noite inteira para encontrar a causa da morte da vítima para que os detetives continuem a investigar, mas se deparam com um mistério que se transforma em uma luta pela sobrevivência e que coloca um ponto de interrogação na verdadeira identidade do cadáver que jaz sobre a mesa de necropsia.

Øvredal encontra sucesso em boa parte do filme, principalmente quando pensamos na construção da atmosfera: apoiando-se em um sólido slow burn cujo objetivo principal é nos envolver nessa angustiante jornada contra forças invisíveis, Tommy e Austin se veem no centro de um complexo quebra-cabeça que não faz o menor sentido – e que vem acompanhado de acontecimentos estranhos, desde a constante estática no rádio até as luzes piscando. Conforme realizam o minucioso exame, verdades arrepiantes sobre a desconhecida vêm à tona: desde os pulmões enegrecidos às lacerações no pulso e nos tornozelos, culminando em símbolos que inexplicavelmente foram cravados do lado de dentro de sua pele. E as coisas ficam ainda mais complexas quando eles encontram um pequeno patuá alojado entre seus órgãos.

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É interessante ver o modo como o diretor, aliando-se ao roteiro de Ian Goldberg e Richard Naing, transforma o que poderia ser apenas mais um terror de bruxas em um enervante suspense procedural com toques de melancolia – e o escopo restrito permite que outros elementos sejam esquadrinhados a fim de nos manter vidrados do começo ao fim. Os conhecidos jumpscares, dessa forma, são transformados em sequências de antecipação que premeditam o que vai acontecer através de sutilezas visuais e sonoras – fomentando cenas que utilizam jogos simples de luz e sombra para reiterar a inescapável e opressora ambientação do necrotério.

Øvredal demonstra uma incrível habilidade em “desbravar o desconhecido”, por assim dizer – mas não de forma a se apoiar no horror cosmológico. Pelo contrário, ele utiliza o isolamento e o silêncio para colocar os dois protagonistas em um jogo de gato e rato com uma antagonista que nem sequer respira. Ao passo que a força psíquica da protagonista se transmuta em um indelével desejo de vingança, o temor toma conta de um microcosmos que os encarcera entre uma furiosa tempestade e os terrores infernais que os estão caçando. E nada disso seria possível sem o comprometimento exemplar de Cox e Hirsch, que não apenas desfrutam de uma química fabulosa em meio a personalidades distintas e explosivas, como partem em seus próprios miniarcos que indicam uma iminente ruína.

Marcando a estreia em língua inglesa do diretor, A Autópsia derrapa ao chegar ao terceiro ato, oferecendo uma saída que, por mais coesa que seja, soa um pouco pensada de última hora e não segue os passos dos dois blocos iniciais do longa. Porém, a construção sensorial que André Øvredal arquiteta ao lado do trabalho incrível de Brian Cox e Hirsch são o suficiente para nos deixar à beira de um colapso nervoso nesse instigante e fantasmagórico mistério de terror.

Lembrando que o filme está disponível no catálogo do Prime Video.

Thiago Nolla
Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.

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