Baseada na sitcom britânica de mesmo nome, ‘Fantasmas’ é uma série que não tem o devido reconhecimento. Estrelado por Rose McIver e Utkarsh Ambudkar, a trama é centrada em Samantha e Jay Arondekar, um casal que descobre ter herdado um suntuoso casarão no interior de uma tia-avó de Sam. A princípio relutantes em deixar a vida urbana para trás, os dois decidem reformar a Mansão Woodstone, como é conhecida a propriedade, e transformá-la em uma espécie de pousada. Porém, no dia da mudança, Sam sofre um acidente e morre por alguns minutos antes de ser trazida de volta à vida; o que ela não imaginava é o que evento a traria a habilidade de enxergar espíritos que ainda estão presos em terra – incluindo as dezenas de almas que habitam a casa.
De início, ela acredita que está sofrendo alucinações – e a teoria é encorajada por Jay, que fica visivelmente preocupado com a esposa. Todavia, Sam descobre que realmente consegue enxergar fantasmas e, a partir daí, a vida do casal vira de cabeça para baixo. Eles agora devem lidar com Hetty Woodstone (Rebecca Wisocky), matriarca ancestral de Sam que já está lá há séculos; o Capitão Isaac Higgintoot (Brandon Scott Jones), oficial do exército dos Estados Unidos durante a Revolução Americana – que é secretamente gay; Sass (Román Zaragoza), um caçador lenape cínico e apaixonado por histórias; Thorfinn (Devan Chandler Long), um viking irritadiço, mas de bom coração, e um dos fantasmas mais antigos da mansão; Alberta (Danielle Pinnock), uma cantora de jazz e blues que acredita ter sido assassinada; Flower (Sheila Carrasco), uma hippie dos anos 70 que foi morta por um urso; Trevor (Asher Grodman), um empresário mulherengo que teve um ataque cardíaco; e Pete (Richie Moriarty), um espirituoso agente de viagens e líder de acampamento.

A série já se estende por quatro temporadas e, apesar de não ter tanta popularidade quanto produções similares do gênero, de fato merece nossa atenção. Afinal, Joe Port e Joe Wiseman, responsáveis pelo remake, constroem uma divertida e despretensiosa narrativa que une os melhores elementos da comédia, do drama e do sobrenatural em um mesmo lugar – construindo uma narrativa mais profunda do que aparenta e que discorre sobre o propósito da vida e as constantes explorações metafísicas do que existe após a morte. É claro que, de certa maneira, podemos traçar a atmosfera jocosa e ácida da produção a ‘The Good Place’ – mas é notável que os objetivos das duas produções são bem diferentes entre si.
Port e Wiseman têm plena noção de que desviar de convencionalismos é um trabalho difícil, ainda mais com a popularização de séries de comédia sobrenaturais nos últimos anos. Apoiando-se na base oferecida pelo original britânico, a dupla promove referência múltiplas enquanto busca por algo novo a ser ofertado ao público – e encontrando isso nos incríveis e propositalmente absurdos arcos que envolvem os personagens. McIver e Ambudkar desfrutam de uma química inenarrável como os protagonistas, brilhando juntos ou separados em atuações apaixonantes e delineadas com complexas camadas mascaradas pela sutileza performática; dessa maneira, Sam emerge como guia e força principal para que a narrativa ganhe momento e traz Jay consigo pouco a pouco.

A quantidade de personalidades distintas e conflitantes vibra as telas em um vórtice de personas que nos envolvem do começo ao fim, cada qual com seu respectivo problema a ser resolvido – e a um prospecto de que, um dia, eles seguirão em frente. E, enquanto Sam e Jay se veem desconectados de uma realidade única “vivida” pelos fantasmas, eles seguram as rédeas de uma peça teatral à la commedia dell’arte que os transforma em arquétipos sociais hiperbólicos e dotados de um timing cômico de nos tirar o fôlego. É impossível desviar o olhar do elenco e mais impossível ainda tentar escolher um como favorito, visto que todos nos cativam de imediato.
Estruturalmente, o projeto é uma sitcom; porém, é notável como ele se calca como um encontro entre as clássicas comédias de situação dos anos 1980 e 1990 e a acidez contemporânea de títulos como ‘Schitt’s Creek’ e o já mencionado ‘The Good Place’. Aliando-se a um time competente de roteiristas e diretores, os showrunners reduzem o escopo imagético para cenários controlados e práticos, mas expandem os inteligentes diálogos sem se valerem de didatismos baratos, e sim nos convidando a uma branda e despojada reflexão – e, dessa maneira, as engrenagens se completam sem muitas atribulações e de forma a nos satisfazer por completo.

‘Fantasmas’ merece nossa atenção e, ao lado de premiadas séries contemporâneas, sagra-se como uma das melhores comédias da década. Contando com atuações exemplares e um enredo fácil e interessante de ser acompanhado, a produção está disponível no catálogo da Netflix, na Paramount+ e no Prime Video.
