“Michael Jordan joga basquete. Charles Manson mata pessoas. Eu falo”.
A sátira é uma construção criativa que é usada há milênios pelo ser humano – seja na literatura, na música ou no cinema. Ao longo da história, essas narrativas, que utilizam o humor e a hipérbole para ridicularizar comportamentos condenáveis e repreensíveis de pessoas ou instituições, permeou diversos clássicos da sétima arte, desde ‘O Grande Ditador’, de Charles Chaplin, passando por ‘O Candidato’, estrelado pelo saudoso Robert Redford, e culminando no divertido e despojado ‘Não Olhe para Cima’, que trouxe nomes como Leonardo DiCaprio, Jennifer Lawrence e Meryl Streep às telas.
Em 2005, Jason Reitman, que ganhou notoriedade por seu trabalho em obras como ‘Amor Sem Escalas’ e ‘Juno’, fazia sua estreia diretorial com uma das melhores sátiras políticas do início do século: ‘Obrigado por Fumar’. Arquitetando uma hilária exploração sobre o cerne do capitalismo estadunidense através de personagens ao mesmo tempo envolventes e odiosos, o realizador orquestrou uma exploração sobre o vazio inato da retórica e da oratória em contraposição à dialética (cujo mote busca a verdade, enquanto aquelas se valem de circinais e imponentes discursos que dizem nada a fim de atingir um objetivo muito claro de persuadir o interlocutor). Não é surpresa que o filme tenha conquistado vários elogios por parte da crítica, além de fazer um sucesso considerável de bilheteria à época do lançamento.

Baseada no romance homônimo de Christopher Buckley, a trama acompanha o lobista Nick Naylor (Aaron Eckhart), que emerge como porta-voz da controversa indústria tabagista dos EUA ao representar seu cliente em meio a constantes protestos e represálias por parte dos especialistas médicos – sendo responsável por afirmar que não há qualquer evidência científica que associe o câncer pulmonar ao consumo de cigarros. Compondo o “Esquadrão da Morte” ao lado de seus amigos Bobby Jay Bliss (David Koechner), lobista das armas de fogo, e Polly Bailey (Maria Bello), lobista do álcool, o trio se torna o mais odiado do país e, ao mesmo tempo, representa uma parte crucial da grande e opressora maquinaria que rege o mundo capitalista – e seu maior e mais predatório representante, os Estados Unidos.
Porém, Nick enfrenta problemas pessoais: além de ter se divorciado da esposa, que agora mora com um especialista da saúde, ele tenta ao máximo ser um exemplo para o filho, Joey (Cameron Bright), que, apesar do trabalho duvidoso, é um emblema de inspiração para o jovem – principalmente pela forma como Nick trabalha seus discursos sedutores e convincentes que, permeados por palavras peculiares e por uma sonoridade convidativa, apenas irrompem como cortina de fumaça para um problema que todos sabemos que existe (e que se torna pior ano após ano). E as coisas ficam ainda mais complicadas quando Nick é selecionado pelo chefe, B.R. (J.K. Simmons), para convencer uma produtora cinematográfica de reintegrar cigarros em seus filmes a fim de mostrar o lado “legal” do fumo – enquanto o incisivo senador Ortolan Finistirre (William H. Macy) faz de tudo para acabar com a mortal hegemonia exercida pela indústria tabagista.

Reitman constrói uma multiplicidade de núcleos que convergem para um único ponto: Nick. O protagonista em momento algum é pintado como herói ou até mesmo anti-herói, mas alguém que sobrevive do trabalho para “pagar a hipoteca”, como nos é repetido continuamente através de pouco mais de uma hora e meia. Tampouco vítima do sistema, Nick se vê como um exemplo empresarial do significa “fazer negócios”, trabalhando em uma incansável necessidade de se provar melhor que o outro por destruir os argumentos que lhe são dados com os princípios básicos do silogismo e da racionalidade – algo que, em um âmbito mais denso, não tem qualquer significado. Todavia, dentro do ácido espectro eternizado pelo diretor, essa é a ideia: transformar o vazio e a ocasionalidade em munição para que a dominância de seletos grupos permaneça inabalada.
Nada disso seria possível sem a magnética presença de Eckhart como o personagem principal. Rendendo-se a uma das melhores performances de sua carreira, o ator navega pela complexidade de um homem que sabe que não é o mocinho da história e tem orgulho disso – mas que, mesmo nos levando a caminhos ambíguos, jamais deixa seu senso de direção ser obstruído por quem quer que seja. Tropeçando na hipocrisia das próprias falácias, ele se reergue mais forte do que nunca, vingando-se de Finistirre, B.R. e a implacável jornalista Heather Holloway (Katie Holmes) para encontrar um novo capítulo de sua vida.

O ponto de maior sucesso do projeto é a maneira como a retórica e a oratória, como já mencionado, ganham espaço significativo para se transmutarem em personagens constantes, sendo selecionados como combustível para os arcos de cada um. Acompanhados de uma irretocável sátira, tais elementos explodem como uma espécie de aviso e denúncia às demagogias de que magnatas, industriais, oligarcas e tantos outros se valem para nos convencer de que o problema são os outros, desfazendo-se de quaisquer responsabilidades legais ou morais à medida que encontram um bode expiatório prático e evasivo – como Nick faz com Finistirre no clímax do filme. Entretanto, esse recurso se torna propositalmente autoconsciente pelo diretor conforme Nick é infundido em um “arco de redenção” que o prepara para o final.
Pincelado com sacadas hilárias e um ritmo frenético que não nos deixa entediados em momento algum, ‘Obrigado por Fumar’ é uma das melhores sátiras políticas dos anos 2000 e uma das melhores entradas da carreira de Reitman, recusando-se a levar a sério para imortalizar um enredo tão absurdamente à par de uma incrédula realidade, que chega a ser assustador.
Lembrando que o filme está disponível no Disney+.


