Criaturas mitológicas sempre estiveram no centro do imaginário popular e ajudaram a dar origem a diversas histórias bastante conhecidas ao redor do mundo – desde os contos greco-romanos, passando pelos penny dreadful da Inglaterra vitoriana e culminando em lendas urbanas contemporâneas, todas influenciando gerações e mais gerações de artistas. E, dentro desse escopo, é inegável dizer que o mistério envolvendo os amedrontadores vampiros tem um apreço significativo pelos realizadores.
Afinal, ao longo da história, inúmeras narrativas focadas nessas criaturas da noite nos conquistaram, desde ‘Drácula’, de Bram Stoker, até revitalizações do gênero com ‘Entrevista com o Vampiro’, ‘Nosferatu’ (tanto a versão de F.W. Murnau quanto a de Robert Eggers), ‘Deixe Ela Entrar’ e tantos outros. E, recentemente, coube a Euros Lyn nos trazer uma comedida e funcional história com o terror cômico ‘Os Radley’ – que provavelmente passou longe de seu radar, mas chegou nos últimos dias ao catálogo do Prime Video em uma bem-vinda adição que entrega o que promete.

A princípio, os Radley parecem como qualquer outra família suburbana: o patriarca Peter (Damian Lewis) sai todos os dias para trabalhar e para trazer o sustento à casa; a matriarca, Helen (Kelly Macdonald), passa os dias garantindo que tudo esteja perfeito, preparando refeições e garantindo que seus filhos cumpram com as obrigações; e os filhos Rowan (Harry Baxendale) e Clara (Bo Bragason) navegam pelas atribulações e pela rebeldia da adolescência à sua própria maneira – ainda que sejam olhados com relances tortos por seus colegas, seja pela natureza introspectiva dos irmãos, seja por suas fortes características pálidas. Porém, essa normalidade vai por água abaixo quando, após uma festa, Clara é perseguida por um menino que estuda em sua escola e que tenta coagi-la a ter relações sexuais com ele – o que desperta nela uma raiva inexplicável, transformando-a em uma assassina de presas muito afiadas.
Após o incidente, Peter e Helen não têm alternativa a não ser revelar a verdadeira natureza de sua família: todos são vampiros, mas os pais resolveram manter isso em segredo para tentar proteger os filhos. Funcionando como uma doença hereditária, o casal optou pela abstinência e pelo difícil processo da sobriedade, que se torna mais e mais difícil à medida que os problemas aumentam e as tensões escalam a níveis inexplicáveis. Para esconder o corpo e manter sua identidade em segredo, Peter e Helen recorrem à ajuda do inescrupuloso Will (também vivido por Lewis), irmão gêmeo de Peter que resolveu abraçar seus sangrentos impulsos e vive como bem quer, desfrutando das habilidades que vêm com sua “dieta” (como força sobre-humana e a capacidade de controlar mentes).

Lyn, conhecido por seu trabalho em inúmeras produções de grande popularidade, incluindo ‘Black Mirror’, ‘Doctor Who’, ‘Demolidor’ e, mais recentemente, ‘Heartstopper’, tem plena noção do projeto que desenvolve. Em outras palavras, o diretor sabe que o gênero em questão já foi explorado ad nauseam na sétima arte e em outros meios artísticos, preferindo optar por uma narrativa mais confortável e convencional que se vale da atmosfera intimista e de um ótimo elenco para nos guiar por essa mística jornada. Baseando-se no romance de Matt Haig, Lyn se alia ao roteiro de Talitha Stevenson para trazer tropos conhecidos do cânone vampiresco, pincelando certas máximas com uma remodelação interessante, ainda que não explore seu pleno potencial.
O projeto é convencional em quase todos os seus aspectos – mas não digo isso de maneira pejorativa. Afinal, é notável como a história não se leva a sério e tem ciência de seus próprios limites; por esse motivo, os nomes escalados para dar vida ao longa se mantêm fiéis ao que lhes é dado. Temos, por exemplo, uma melancólica e sombria fotografia assinada por Nanu Segal que se reflete na transição entre a falsa sensação de equilíbrio que permeia os Radley e o subsequente vórtice de ímpetos vorazes e uma dependência quase química que os arremessa a uma vida da qual tentaram fugir. Por sua vez, a trilha sonora de Keefus Ciancia, cujos créditos incluem ‘True Detective’ e ‘Killing Eve’, reafirma a angustiante ambientação arquitetada por Lyn, apostando em acordes orquestrais dissonantes e quase minimalistas.

O elenco protagonista faz um ótimo trabalho, singrando entre segredos que vêm à tona em uma explosão imensurável e abrindo portas para personagens que acabaram de descobrir um lado que nem sequer sabiam que tinham – usando isso a seu favor. E, é claro, temos a presença de performers coadjuvantes que têm seu próprio arco, ainda que não tão bem explorados como deveriam, e que dão impulso para a trama principal, incluindo Jay Licurgo como Evan Copleigh, amigo de Clara e interesse romântico de Rowan, e Shaun Parkes, pai de Evan e um ex-policial marcado por um profundo trauma (que o leva a acreditar que os Radley não são quem dizem ser).
‘Os Radley’ tem seus defeitos óbvios, mas funciona dentro do espectro que esperávamos: para além de prestar homenagens a títulos semelhantes, o filme fomenta seu próprio cosmos sem dar um passo maior que a perna e sem deixar que a ambição desmedida tome conta de sua estrutura – transformando-se em uma jornada aprazível e satisfatória.

