A Apple TV é lar de algumas das melhores produções do circuito seriado da atualidade e, desde seu recente surgimento, vem marcando presença constante no circuito de premiações e reunindo incontáveis talentos que agraciam as telas da plataforma. E, se voltarmos um pouco no tempo, temos a plena ciência de que o incomparável sucesso da gigante do streaming se dá por suas fortes raízes em um grupo de oito produções que incluem ‘Dickinson’, ‘Servant’ e, é claro, o aclamado drama ‘The Morning Show’.
Lançado no mesmo dia da plataforma, a série estrelada por Jennifer Aniston e Reese Witherspoon pode até ter começado com alguns obstáculos e excessos a serem transpassados, mas atingiu um nível artístico de tirar o fôlego e conquistou os assinantes através de pungentes, complexas e necessárias narrativas que analisam os bastidores do império midiático dos Estados Unidos. Contando com performances arrebatadoras e um elenco estelar que cresce a cada temporada, a atração está agora em sua quarta temporada. Porém, antes de mergulharmos nesse novo ciclo, é sempre interessante dar alguns passos para trás para analisar de que maneira o show se sagrou um dos melhores e mais impactantes da década.

A história é ambientada em sua maior parte em uma das maiores emissoras norte-americanas, a UBA, lar do The Morning Show. Apresentado por Alex Levy (Aniston) e Mitch Kessler (Steve Carell), o programa é celebrado e respeitado pelo país – mas passa por uma crise quando Mitch é acusado de assédio sexual por uma das funcionárias da empresa, culminando em sua imediata demissão e em uma reviravolta que coloca toda a estrutura da emissora em xeque, lançando luz sobre uma política de silenciamento predatório que perdura até os dias de hoje. Apoiando-se em inúmeros relatos de comportamento inadequado que abriu uma Caixa de Pandora em Hollywood e deu início ao movimento #MeToo, a produção mostra-se deliberadamente a favor de trazer a verdade sob uma perspectiva dramatizada, garantindo uma arquitetura macrocósmica que borra as linhas entre a verdade e a ficção.
Não demora muito até que os executivos da emissora se apressem para escolher a próxima âncora do jornal – que, eventualmente, é escolhida pela própria Alex na figura da impetuosa Bradley Jackson (Witherspoon), uma jovem do interior dos EUA que é arremessada na mídia mainstream como um pedaço de carne aos leões. A partir daí, as estruturas outrora inabaláveis de uma das casas midiáticas mais antigas do país vibram com mudanças explosivas, acobertamentos controversos e condenáveis decisões internas que lançam os personagens em um inóspito vórtice de solidão e de artimanhas.

A princípio, é notável como o criador Jay Carson se aproveita de diversos tropos dos dramas jornalísticos para compor a instigante e frenética atmosfera da produção – unindo-se a um competente time de roteiristas para nos guiar por essa verborrágica aventura. Percebemos a afeição de Carson por títulos como ‘Spotlight – Segredos Revelados’ e ‘Boa Noite e Boa Sorte’ para respaldar sua predileção pelo jornalismo investigativo que permeia a fachada dos âncoras e dos demais repórteres, produtores e assistentes que ficam atrás das câmeras. E, à medida que um ciclo se encerra, Carson nos bombardeia com uma espécie de “resumão” dos principais eventos do ano em compilados de episódios que prezam pela total atenção do público.
Seja ao trazer o caos causado pela COVID-19 ao sistema de saúde, criticando o mundo capitalista e o controle midiático, reimaginando o ataque ao Capitólio nas eleições presidenciais, ou nas pautas sobre disparidade racial e de gênero, cada elemento é pensado com estratégia ímpar e arranca o melhor de seus atores. Aniston e Witherspoon são nossas estrelas, reinventando suas respectivas personagens temporada a temporada conforme se sentem mais dispostas a explorar camadas quase psíquicas de Alex e Bradley. Nomes como Billy Crudup (Cory Ellison), Mark Duplass (Charlie Black), Greta Lee (Stella Bak), Karen Pittman (Mia Jordan), Julianna Margulies (Laura Peterson), Nicole Beharie (Christine Hunter) compõe esse espetacular elenco com performances aplaudíveis e que os reiteram como membros de um seleto grupo de artistas.

Como já mencionado no primeiro parágrafo deste artigo, ‘The Morning Show’ é um dos pilares da Apple TV (agora ganhando uma renomeação sem o sinal gráfico que a acompanhava) e, sem sombra de dúvidas, uma das provas que a plataforma de streaming, mesmo tendo um início um tanto quanto turbulento, soube aprender com os erros e melhorar ano após ano. E, com sua quarta temporada em andamento e trazendo ainda mais elementos a esse vibrante e disruptivo universo, não se encantar com essa poderosa e quase epopeica história é um trabalho muito difícil.
