Depois de longos anos de bloqueio artístico, o diretor Wash Westmoreland, em parceria com Richard Glatzer, “ressurgia das cinzas” há mais de uma década com o que se tornou um dos melhores filmes recepcionados pela crítica dos últimos anos: ‘Para Sempre Alice’.
O longa-metragem conta a história de Alice Howland (Julianne Moore), uma professora e linguista muito renomada no mundo acadêmico, diagnosticada com uma vertente muito rara do Mal de Alzheimer. A partir daí, Alice vê sua vida mudar completamente: com os sintomas aumentando, seu marido, John (Alec Baldwin), tenta ajudá-la, mas acaba de afastando com a premissa de não saber o que fazer; desaponta seus filhos – ainda que eles o neguem – ao descobrir que essa vertente é hereditária; perde seu emprego e sua reputação, ainda que tente esquecer todos os seus problemas e dedicar-se ao máximo para não observar quieta e impotentemente sua carreira ser destruída.
Ao mesmo tempo – uma das técnicas muito utilizadas por Westmoreland -, a vida da doutora brinca entre a luz e a sombra: ao passo que se afasta das personagens em questão, aproxima-se de sua filha mais nova, Lydia (Kristen Stewart), cuja figura havia sido mencionada durante ao desenrolar da trama, mas esquecida ao longo do tempo. Alice a visita depois de se encontrar num beco sem saída, e descobre que ela está muito necessitada – ainda que negue. Havia tentado a carreira de atriz na cidade de Los Angeles – abandonando o conforto de sua casa -, mas não obtivera muito sucesso. Desse modo, ambas se reencontram e um laço há muito esquecido volta a se tornar forte – tanto que, ao longo do filme, as cenas mais impactantes ocorrerão dos obstáculos enfrentados pela relação mãe-filha e conservadorismo-inovação.
O que mais surpreende na construção dessa obra é a dualidade de sua trama. Uma história simples, relatando todos os obstáculos enfrentados pelos portadores de Alzheimer, mas complexa por envolver uma mente brilhante que observa, incapacitada de se rebelar frente a forças indestrutíveis, sua vida perfeita tornar-se a pior possível (trama positiva tornando-se negativa); e então, há a magnífica brecha encontrada por Westmoreland: a filha mais nova. Colocando-a de volta na filha de Alice, conseguiu praticamente virar o jogo (trama negativa voltando à positiva) e dar o maior sinal de esperança tanto para ela quanto para o público. Resultado: 85% de aprovação da crítica no Rotten Tomatoes e uma espécie de exploração da melancolia como motor para um profundo estudo de personagens
Outro fator que chama a atenção é a belíssima atuação de Moore, conhecida por incontáveis papéis tanto no cinema quanto na televisão. Recém-saída de sua participação na franquia ‘Jogos Vorazes’, a performer, que inclusive conquistou o merecido Oscar de Melhor Atriz por seu irretocável trabalho, entrega-se a uma rendição memorável e dilacerante, chocando os espectadores com uma versatilidade única e invejável. Moore arquiteta com calma o árduo percurso que a protagonista titular irá enfrentar, mergulhando-a em uma angústia desesperadora (como visto na cena em que ela tenta memorizar todas as palavras escritas em um quadro branco) e em um estado de contemplação letárgico frente à condição em que foi posta (e que encontra clímax na sequência em que precisa fazer um importante discurso para seus colegas). A dureza do roteiro é refletida no background de Alice: uma professora de linguística que se vê impotente frente à perda inestimável de tudo o que faz dela
Stewart, colhendo a inenarrável fama mundial que conquistou como protagonista de ‘A Saga Crepúculo’, volta a ser alvo de congratulações pela atuação no filme como a filha mais nova Lydia. Em entrevista ao site PureBreak, inclusive, ela afirmou que se sentiu muito orgulhosa de si mesmo por ter sido chamada para atuar nesse filme, devido à “honra de ter contracenado com [Julianne] Moore”.
Ainda que tenha perdido a popularidade desde seu lançamento, ‘Para Sempre Alice’ permanece como um dos melhores dramas da década passada e se beneficia tanto da imaculada e poderosa presença de Moore em um papel definidor para sua carreira, quanto da maneira singela em que Westmoreland e Glatzer tratam um tema difícil e complicado, nos convidando a uma tocante jornada que se afasta das construções fabulescas e aposta em um derradeiro realismo para alcançar seu objetivo.
Lembrando que o filme está disponível no catálogo do Prime Video.

