InícioDestaqueDica | ‘Palm Springs’ completa cinco anos e segue mais atual do...

Dica | ‘Palm Springs’ completa cinco anos e segue mais atual do que nunca


O que você faria se o tempo não tivesse mais influência em sua vida, fazendo com que suas ações não tivessem um impacto real no mundo e nem nas pessoas ao redor? Sim, como seria sua reação se todo dia fosse resetado quando você dormisse, fazendo com que todo dia seja sempre o mesmo dia, mas com infinitas possibilidades? Pois bem, é partindo dessa premissa que Palm Springs se desenrola, criando uma das mais eficientes dramédias dos últimos anos.

Lançado em 2020, essa produção do comediante Andy Sandberg completou cinco anos de existência nesta semana. Infelizmente, por ter saído durante a pandemia, ele não recebeu o devido reconhecimento do público, já que estavam todos presos em casa no auge da explosão dos streamings. Talvez se tivesse conseguido exercer sua passagem pelos cinemas, o longa fosse ainda mais popular. De qualquer forma, mesmo que você não tenha assistido, é bem provável que já tinha visto algum meme com a cena de dança que abre ele.



Pois bem, a trama jamais nega sua inspiração no clássico “Feitiço do Tempo” (1993), mas em momento algum tenta replicá-lo. A história é ambientada em um casamento, no qual Nyles (Sandberg) parece estar curtindo horrores. Por outro lado, Sarah (Cristin Milioti), a irmã da noiva, está muito incomodada, já que se sente uma grande frustração para a família. Seus caminhos se cruzam nessa noite, que termina de um jeito pra lá de inusitado. O rapaz é atacado e se dirige para uma caverna, onde pede que a moça não o acompanhe. Porém, ela está preocupada e acaba entrando lá, dando início a um pesadelo.

Nyles está preso nesse “Loop Temporal” de reviver esse mesmo dia todos os dias há muito tempo. Não é revelado exatamente quanto, mas dá para estimar que talvez passe de anos. Só que ele se acomodou. O que poderia parecer um pesadelo, acabou virando uma rotina de conforto, na qual nada importa ou faz sentido. Se ele for legal, ninguém se lembrará. Se ele for um tosco, ninguém se lembrará. Se ele cometer um crime, ninguém se lembrará. Então, por que não viver uma vida sem regras ou limites? Foi assim que ele passou os últimos anos. Sarah, no entanto, entrou de gaiato nesse navio, vivenciando um verdadeiro pesadelo. Só que, diferentemente de Nyles, ela quer sair disso o quanto antes.

O lado engraçado do filme é mostrar o que essas pessoas fariam nesse contexto de que nem a morte seria mais uma preocupação, já o dia reinicia no segundo em que eles dormem. Então, eles viajam, arrumam brigas, dançam em lugares públicos, conhecem pessoas e depois usam essas informações contra elas, estragam o casamento centenas de vezes e das mais variadas formas, exploram o entorno e tudo mais. É ridiculamente engraçado.

Mas o grande destaque mesmo é o drama, porque Nyles está há tanto tempo nessa vida irresponsável que esqueceu o que é viver de verdade. A sensação de estar preso em uma simulação começa a incomodá-lo conforme Sarah o faz lembrar de como era a vida “real”. Ele vai percebendo que sua “vida dos sonhos” era um pesadelo e que seu jeitão de “não ligo para nada” era, na verdade, um escudo desenvolvido para ajudá-lo a suportar o peso de uma vida sem sentido ou propósito.

É como se ele já tivesse encarado o abismo tantas vezes, mas só agora o abismo o encarasse de volta. E não existe nada melhor para colocar uma vida em perspectiva do que descobrir que você se importa com alguém e que alguém se importa com você. De repente, ele passa a desenvolver um sentimento por Sarah, que o faz perceber que aquele vazio era insuportável.

O filme é todo trabalhado no desenvolvimento dessa relação, mas de um jeito divertido. Só que a trama é incomodamente identificável no dia a dia. Sarah tem sua visão exposta, e vai cedendo aos poucos ao ideal vazio de Nyles, que arrasta a menina para o buraco literal e figurativamente. Ele que a atrai para a caverna, mesmo que sem querer, e ele vai tentando convencê-la a ficar naquele ciclo com ele para sempre. Na vida real, quantas relações dessa forma não acontecem todos os dias? Casais que claramente fazem mal um ao outro, mas que permanecem juntos naquela situação terrível só porque se amam? Enxergar isso no filme é interessantíssimo, e abordar esse tema numa dramédia é genial.

Sarah tem seus motivos, além dos óbvios, para querer sair dali o quanto antes. Mas acaba cedendo sua própria dignidade pela falta de perspectiva que essa vida sem sentido ou responsabilidade traz. E é curioso com Sandberg consegue ser vítima e vilão ao mesmo tempo, mantendo sempre seu carisma habitual. Você até consegue sentir raiva dele, mas também torce para que ele se toque e saia disso.

O elenco também conta com a participação de luxo de J.K. Simmons, abrilhantando ainda mais o filme e trazendo uma camada mais profunda para a trama. O ponto é que cinco anos depois, Palm Springs não apenas resistiu ao ‘teste do tempo’, como também se mostra um longa cada vez mais atual e brilhante. É um filme bastante subestimado.

Palm Springs está disponível no Disney+.

Pedro Sobreirohttps://cinepop.com.br/
Jornalista apaixonado por entretenimento, com passagens por sites, revistas e emissoras como repórter, crítico e produtor.
MATÉRIAS
CRÍTICAS

NOTÍCIAS