Quando paramos para pensar no legado deixado pela Pixar Studios, percebemos que esse é um trabalho muito difícil – não pelo fato do impacto de suas animações ser finito, e sim pela impossibilidade de mensurar as inúmeras inovações tecnológicas e narrativas que trouxe ao cenário da sétima arte (e agora, ao televisivo). Afinal, ao longo de sua breve história, os realizadores do estúdio trouxeram aventuras incríveis que personificaram objetos inanimados e criaturas animalescas com uma humanização derradeira, como os brinquedos de ‘Toy Story’, os robôs de ‘WALL-E’ e os adoráveis ratinhos de ‘Ratatouille’.
Em determinado momento, acreditávamos que a Pixar havia se rendido à fadiga criativa – ainda mais considerando que, no início dos anos 2010, rendeu-se aos tropos dos filmes de princesa com ‘Valente’ e resolveu obliterar a história como a conhecíamos com ‘O Bom Dinossauro’. Entretanto, em 2015, Pete Docter aliou-se a Meg LeFauve e Josh Cooley para um ambicioso projeto que apresentou emoções às próprias emoções – e essa atração ficou conhecida como ‘Divertida Mente’.

Enquanto a Era de Ouro da companhia se estendeu até o final dos anos 2000, ‘Divertida Mente’ representa mais um divisor de águas ao funcionar como um emblema testamentário de tudo o que o estúdio já nos havia entregado – e talvez o primeiro desde o impacto trazido com ‘Toy Story 3’. Apoiando-se nos estudos da psicanálise e da psicologia infantil, a trama acompanha Riley, uma jovem que passa por grandes mudanças ao sair da casa onde morou a vida toda e se mudar para uma chuvosa e cinzenta São Francisco com os pais, onde terá que recomeçar suas amizades e sua maneira de encarar o mundo.
Para ajudá-la nessa jornada, somos apresentados às cinco emoções-base que regem o funcionamento da mente de Riley: Alegria (Amy Poehler), Tristeza (Phyllis Smith), Medo (Bill Hader), Raiva (Lewis Black) e Nojinho (Mindy Kaling), cada qual responsável por garantir o crescimento saudável de “sua menina”, como a apelidam desde os primeiros segundos de filme. Alegria, servindo como guia e “chefe” das outras emoções, passa dia após dia garantindo que seja a emoção predominante, tentando encontrar beleza mesmo em momentos de pura melancolia ou tédio. Porém, as coisas viram de cabeça para baixo quando, em uma pequena discussão acalorada entre Alegria e Tristeza, ambas são sugadas do Centro de Controle e são arremessadas para um inescapável labirinto de memórias do qual têm que sair para tudo voltar ao normal.

É a partir daí que vemos uma profunda mudança na personalidade de Riley: guiada apenas pela Raiva, pelo Nojinho e pelo Medo, a pré-adolescente começa a passar pelos primeiros indícios de um amadurecimento mandatório, enquanto Alegria e Tristeza tentam regressar o mais rápido possível – dando início a uma jornada de autodescoberta que ressoa com qualquer espectador que se disponha a assistir ao longa. E, em meio a um roteiro arquitetado com minúcia e cautela extremas a três pares de mãos, o resultado desse projeto é arrebatador, irretocável e configura-se, até hoje, como uma das melhores animações do século.
Há vários temas delineados pelo longa-metragem que são tratados de maneira compreensível e reflexiva, recusando-se a morrer no didatismo barato e convidando o público a fazer parte ativa dessa trajetória de autoconhecimento e de amadurecimento. Docter arquiteta um belíssimo coming-of-age à medida que explora a complexidade da mente humana, utilizando os conceitos das emoções primordiais e das memórias-base para tentar responder a uma das perguntas mais feitas pelo próprio indivíduo: por que somos do jeito que somos?

Inúmeras associações médicas e psicanalíticas rasgaram elogios para o propósito educativo e questionador da animação, e pelo fato de a história ser destinada a qualquer grupo demográfico: a utilização exagerada de cores complementares e opostas para a delineação dos personagens chama a atenção dos pequenos, enquanto a transição da fase pueril para a adolescência ressoa com jovens ao redor do mundo. Enfim, o público mais adulto se vê representado em um vórtice de nostalgia e uma retro-compreensão de como se deu uma das fases mais turbulentas da evolução humana – singrando pelos conceitos de depressão, solidão e impulsão em meio a escolhas criativas sagazes e inteligentes.
Seja no conflito entre Riley e os pais, seja no embate entre a Alegria e a Tristeza, os comentários promovidos pelo projeto reafirmam que nada é “preto no branco” e que o exagero emocional nunca é algo a ser defendido. Alegria, implacável com sua necessidade psicótica de deixar Riley feliz, promove, sem perceber, uma supressão de sentimentos e sensações que impede que a garota enxergue a realidade bem à frente dos olhos, criando uma ilusão que, por vezes boa, pode se tornar perigosa; desprovida da Alegria e da Tristeza, Riley é engolfada em uma apatia letárgica que a transforma em alguém movida pela frustração e pela decepção – e que a propulsiona, inclusive, a querer voltar para a casa de infância; e, munida pelo retorno de Tristeza, a memorabília eternizada por um saudosismo intrincado permite que Riley entenda o que está acontecendo e esteja disposta a compreender as mudanças – sejam ruins ou boas.

Arrecadando quase US$860 milhões ao redor do mundo, ‘Divertida Mente’ tornou-se um dos filmes mais elogiados e importantes do crescente panteão Pixar, conquistando o Oscar de Melhor Animação e faturando uma indicação à categoria de Melhor Roteiro Original – e merecidamente tendo encantado fãs ao redor do mundo com uma emocionante e visceral narrativa que ressoa com os apreciadores da sétima arte mesmo uma década depois de seu lançamento nos cinemas.
Lembrando que o filme está disponível no catálogo do Disney+.
