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Dívidas, traições e atentado terrorista no INTENSO novo filme da Netflix que tá dando o que falar…


Quando a última saída é a solidão. Tendo como elemento importante para uma reviravolta chave um fato real marcante ocorrido na Argentina em julho de 1994, o longa-metragem Descanse em Paz, nos apresenta um doloroso personagem principal com um enorme peso na alma que a partir de suas escolhas vê rotações constantes de seu mundo. Dirigido pelo cineasta Sebastián Borensztein, produzido por Ricardo Darín e baseado na obra Descansar en paz: ¿nunca soñaste con dejar todo y empezar de nuevo? de Martín Baintrub, esse longa-metragem argentino enumera reflexões sobre várias formas de tragédias e suas consequências.

Na trama, conhecemos Sérgio (Joaquín Furriel) um empresário de classe média, pai de dois filhos e casado com a dentista Estela (Griselda Siciliani). Em meados da década de 90, sua situação é alarmante, dívidas e mais dívidas se acumulam na sua frente, a mais complicada delas é a que fez com um agiota chamado Brenner (Gabriel Goity), esse último, um homem inescrupuloso que começa a ameaçar o protagonista. Buscando alguma luz no fim do túnel, certo dia acaba passando na hora e lugar de um atentando à associação Israelita (AMIA). Aproveitando a oportunidade em meio ao caos instaurado, resolve fugir e acaba durante anos se afastando de tudo e todos. Mas quando a vontade de reencontrar seus parentes bate à sua porta, uma série de consequências acontecem.



O destino é traiçoeiro, o acaso uma oportunidade. Com uma construção ligada ao foco no emocional destroçado de um homem e sua brusca mudança de vida somos jogados para uma trama bem amarrada, onde a narrativa se desenvolve de forma objetiva rumando gradativamente para os fortes conflitos que se seguem a cada passo do protagonista. A fotografia do filme merece destaque, a atmosfera das emoções ligadas aqui à uma solidão forçada são vistas em cada canto captado pelas imagens.

A trajetória do personagem principal acaba estando associada à muitos argentinos na questão econômica, numa década de 90 ainda preocupante com os índices altíssimos de inflação, altos riscos em rendimentos de tempo curto, além das manobras político-econômicas que se amontoavam na frente da população. Pensando nesse ponto, é possível enxergar uma crítica interessante a todo esse cenário mesmo que uma contextualização não seja efetivamente mostrada. Taxado por muitos como caloteiro, o protagonista é um reflexo de seu próprio país.

Antes de entrar na ficção e prestes a começar o segundo momento da jornada de seu personagem principal, o roteiro encosta na realidade ao retratar o atentado mais mortal em solo argentino, o ataque inesperado na Rua Pasteur à Associação Mutual Israelita Argentina (AMIA) em julho de 1994, que deixou centenas de feridos e dezenas de mortes. Uma página triste da história de nossos Hermanos.

O ‘descansar em paz’ do título é algo que ficamos pensamos sobre. O amor vira saudade, a escolha vira desilusão, o sentido de família é congelado. Existe realmente alguma paz nesse descansar? Sentimentos antagônicos vão se misturando apresentando diversos olhares para a tragédia pessoal de um homem que nunca soube lidar com seus conflitos e deixando margens para mais reflexões. Exibido pela primeira no Festival de Málaga, no início desse mês, Descanse em Paz chegou ao mais poderoso dos streamings, a Netflix.

Raphael Camachohttps://guiadocinefilo.blogspot.com.br
Raphael Camacho é um profissional com mais de 20 anos de experiência no mercado cinematográfico. Ao longo de sua trajetória, atuou como programador de salas de cinema, além de ter trabalhado nas áreas de distribuição e marketing de filmes. Paralelamente à sua atuação na indústria, Raphael sempre manteve sua paixão pela escrita, contribuindo com o site Cinepop, onde se consolidou como um dos colaboradores mais antigos e respeitados deste que é um dos portais de cinema mais queridos do Brasil.
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