Ela (2)

Nota:

O IMPROVÁVEL AMOR ENTRE ELE E ELA

 

Ela (Her), último trabalho do diretor Spike Jonze, tem agradado crítica e público. A sensibilidade do filme tem surpreendido positivamente muitas pessoas. Essa faceta do diretor era pouco perceptível. Jonze começou sua carreira nos videoclipes, é criador e produtor da série Jackass e em seus filmes mais conhecidos, Quero Ser John Malkovich e Adaptação, sua personalidade era o ofuscado pela persona do roteirista Charles Kaufman. Foi apenas em Onde Vivem Os Monstros, que foi possível nota sensibilidade e delicadeza de Jonze.

Em um futuro próximo, Theodore Twombly (Joaquin Phoenix), homem solitário e sensível, trabalha escrevendo cartas sob encomenda de desconhecidos. Ainda preso às lembranças do casamento desfeito, ele adquire um novíssimo sistema operacional. Dele ouve-se a vibrante voz de Samantha (Scarlett Johansson). Surge uma amizade, e ela torna-se amor.

O cinema já teve muitos amores improváveis. Se os ingredientes são mal combinados, o público não compra a história. Em Ela, Jonze se sai um alquimista! Não duvidamos em nenhum instante do amor de ambos. Dois grandes trunfos são o seu elenco e o roteiro.

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Joaquin Phoenix está em plena forma, especialmente se pensarmos que ele interage, em boa parte, com uma voz. Os pequenos gestos, a postura, o olhar, toda sua força expressiva é colocada para que o público capte a mudança da personagem: de um sujeito ainda apaixonado pela ex-mulher, para, paulatinamente, renascer como um homem apaixonado. É explícito como seu gestual se ilumina.

Mas o trabalho mais difícil cabe à Scarlett Johansson. Somente com a voz, ela dá luz a uma figura humana e complexa. Samantha não é apenas um programa, é uma mulher que ama e deseja conhecer a si e ao mundo. Em primeiro plano, não causa espanto Samantha ser um pessoa tão complexa. Mas, se pensarmos mais, assusta imaginar que muitas pessoas que conhecemos são bem menos profundas do que Samantha.

Não podemos deixar de citar as belas atuações de Amy Adams, como a amiga de Theodore, e Rooney Mara, como a ex-mulher Catherine. Esta tem papel fundamental no roteiro, como a causadora da primeira DR entre Theodore e Samantha. E essa crise é fundamental para enxergarmos a relação entre os dois como algo real. Aqui o mérito é do roteiro.

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Já favoritíssimo ao Oscar de Roteiro Original (venceu o prêmio do Sindicato de Roteiristas de Hollywood), Jonze apresenta uma carpintaria impressionante em seu roteiro. Além dos espetaculares diálogos, especialmente entre Theodore e Samantha, ele vai, camada a camada, dando densidade a essa relação. As crises e reconciliações do casal são fundamentais para o sucesso do filme.

Muito do encantamento do filme vem da sua representação de um amor platônico – no sentido mais filosófico do termo, de um amor puro, que não depende de interações físicas; um verdadeiro encontro de almas. Claro, isso não é todo tempo, pois o roteiro cuida de fornecer elementos que evoquem um relacionamento real.

O uso das cores é feito de forma inteligente, permitindo que os cenários ajudem a envolver o espectador nesse ambiente ora frio, ora apaixonante. O filme como um todo é bastante colorido, mas, cada cena é construída de maneira monocromática. Do céu às paredes, as cores, como o laranja, são empalidecidas.

Todo o trabalho com as cores, somado à composição de uma cidade futurista (Xanguai + Los Angeles) gera um ambiente estranhamente convidativo.

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Toda essa carpintaria serve para levar o espectador a pensar no significado do amor entre Theodore e Samantha. A falta de conexão entre as pessoas na atualidade parece-me a leitura mais simplista do filme. Em certas imagens, é mesmo uma leitura inescapável. Contudo, ficar nisso empobrece a obra.

As mutações sofridas pelos relacionamentos com as novas tecnologias (namorar à distância ficou mais fácil); nossa capacidade de se dedicar ao outro; nossa disponibilidade de mudar pelo outro. Em um mundo frio, e falsamente hiperconectado, estamos dispostos a escutar o outro por um tempo superior ao necessário para se chegar a um orgasmo? Estamos tratando nossos amigos, virtuais ou presenciais, com a mesma humanidade que Theodore e Samantha se tratam? O que o medo de sermos insuficientes para o outro nos provoca?

Ela, o filme, também nos aponta que, mesmo em um tempo de egoísmo e de isolamentos e falsas conexões, a necessidade de uma ligação profunda e real com o outro não nos abandona.

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