Em Home Vídeo | A Escolha Perfeita 3 – O prego no caixão das Bellas

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Nota:

Desafinada Geral

Inicialmente com planos para um lançamento nos cinemas, a Universal Pictures Brasil voltou atrás e resolveu que o destino de A Escolha Perfeita 3 seria mesmo o mercado de home vídeo – onde já pode ser encontrado no Telecine On Demand. Mas ao contrário de Sombras da Vida (A Ghost Story), não podemos culpar a distribuidora por esta decisão, já que qualquer traço de realismo ou humanidade que fincavam os primeiros filmes desta franquia musical em nosso mundo se esvaiu por completo aqui – isso sem falar na graça.

A Escolha Perfeita (2012) é guardado com apreço por este que vos fala, e não apenas pela qualidade surpreendente do longa, mas por ter sido uma das primeiras exibições para a imprensa que frequentei. Na época, os programas de shows de talento musical, vide American Idol e The Voice, explodiam, e o filme escrito por Kay Cannon e dirigido por Jason Moore (Irmãs) pegava clara carona no conceito. Curiosamente o longa é baseado no livro de Mickey Rapkin. A ideia era simples, mas muito eficaz, e a trama rotineira, porém, muito bem detalhada. O filme não se tratava de um musical propriamente dito, apesar das canções a capella serem grande parte da força aqui.

Além das canções muito harmoniosas, A Escolha Perfeita surpreendia pela entrega de seu elenco, em especial o conjunto nada ortodoxo de calouras e veteranas de uma universidade, encabeçadas por Anna Kendrick, então recém-saída de uma indicação ao Oscar (Amor Sem Escalas), e a sensação humorística Rebel Wilson, que marcaria sua Fat Amy como a personagem mais chamativa e excêntrica da série. Pense em Loucademia de Polícia (1984) e transfira para o campus de uma faculdade, com protagonistas mulheres e jovens – onde rejeitados precisam se unir para triunfar. O nível da comédia é bem trabalhado, e fala de forma esperta e direta com seu público-alvo (algumas piadas inclusive mais sujas do que se podia imaginar).



Por todos esses fatores, A Escolha Perfeita se tornou hit surpresa daquele ano, gerando uma legião de jovens fãs. Era natural que o estúdio desse logo o sinal verde para uma continuação, e ela chegava em 2015. A Escolha Perfeita 2, no entanto, não estava mais tão polido, e seu brilho começava a se ofuscar. Afinal, não há tanto assim a  fazer com um grupo de cantoras a capella – de quantos torneios elas terão que participar até dizer chega? Cannon voltava no roteiro, mas a direção da atriz Elizabeth Banks, produtora dos três filmes ao lado do marido, era mais frouxa e sem a mesma precisão. Boas ideias, como alistar a menina de ouro Hailee Steinfeld para o elenco como uma caloura e a adição de um grupo europeu rival, comandado pelo monumento dinamarquês Birgitte Hjort Sorensen, salvaram do desastre.

Tirando leite de pedra, o terceiro filme repete as “batidas” do anterior, estagnando a trama e criando uma história que causaria vergonha a produções capengas da década de 1980. É de deixar qualquer um abismado, perceber que em pleno 2017 (ano de lançamento do filme), roteiros tão reciclados que realmente parecem engavetados por décadas, congelados sem qualquer sinal de modernidade, ou de estarem antenados com o presente, sejam produzidos. E vindo de uma franquia cujo primeiro exemplar chamou atenção justamente por isso, este é um baita retrocesso.

Dessa vez, as Bellas resolvem que precisam cantar mais uma vez juntas. O motivo, você pergunta? Bem, porque sim. As vidas dessas meninas parecem sempre em pause. O fiapo de roteiro é dolorido e o tema central parece ser: problemas paternos. Aubrey (a estonteante Anna Camp) reclama do pai militar ausente, mesmo ele sendo a ponte para que o grupo volte a se apresentar – em shows para as tropas americanas. É claro que existe uma competição, ou não seria A Escolha Perfeita, e assim um famoso DJ escolherá qual dentre os grupos na apresentação irá abrir para ele em um grande evento.

Amy (Rebel Wilson) tem seus próprios desafetos com o pai, papel de John Lithgow – mais perdido do que cego em tiroteio, forjando um sotaque australiano – o veterano merecia mais. É de dar pena. Esse trecho da trama é justamente o mais perturbador, já que transforma A Escolha Perfeita numa espécie de filme de suspense e ação furreca, quando o pai da rechonchuda se revela um verdadeiro vilão de James Bond. O desfecho num barco faz Baywatch - O Filme (2017) parecer Guerra Infinita, para termos ideia do desastre. Nem mesmo as presenças da carismática Ruby Rose e da artista da música na vida real Andy Allo, que se apresentava com Prince, igualmente fotogênica, como parte de um grupo country, conseguem trazer vida ou frescor a esta tragédia.

Até a seleção musical é minguada e as apresentações das moças, agora comandadas pela diretora Trish Sie, não empolgam como nos filmes anteriores. Sie não dá sequência a um único número sem uma interrupção brusca – vale lembrar que foram os trechos de apresentações musicais que fizeram esta franquia. A química entre as atrizes também é nula. Não há dúvidas que elas já tenham se tornado amigas na vida real a esta altura, porém, aqui soa mais como aquela obrigação contratual e o contracheque no bolso. Se as flagrássemos comemorando o encerramento das filmagens em um bar, talvez captássemos mais entrosamento e diversão do que em A Escolha Perfeita 3.





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