Em Home Vídeo| A Pequena Sereia – Releitura dispensável do conto clássico

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Nota:


Não é de hoje que os estúdios de cinema têm apostado em versões live action de contos de fadas que vivem no imaginário popular. Um dos mais recentes sucessos do gênero foi A Bela e a Fera (2017), de Bill Condon, e a Disney já está começando a se mover para dar vida à Ariel, Linguado, Sebastião e companhia com uma produção de A Pequena Sereia que conta com atores em carne e osso no lugar dos simpáticos desenhos. No entanto, enquanto esta versão tão esperada não chega às telonas, os diretores Blake Harris e Chris Bouchard saíram na frente com uma releitura mais dark da história saída direto do fundo do mar. Porém, ainda que a intenção tenha sido boa e que um nome de peso como Shirley MacLaine faça parte do elenco, o resultado final não foi tão satisfatório assim – e, no fim das contas, o longa mais incomodará que conquistará os fãs.

O conto clássico e já conhecido, que fala sobre uma princesa que perdeu sua alma em troca de pernas para ir atrás do príncipe pelo qual se apaixonou, é mencionado logo no começo do longa – e, não por acaso, ilustrado com imagens em desenho. Mas, quando a história de fato começa, narrada pela personagem da veterana Shirley MacLaine para suas duas netinhas, somos apresentados a uma versão mais sombria e com elementos bem diferentes do que já conhecemos do enredo. A sereia, que aqui recebe o nome de Elizabeth (Poppy Drayton), não termina com o homem dos seus sonhos após perder sua alma: ele acaba se casando com outra mulher e ela, no fim das contas, fica nas mãos de um terrível bruxo (Locke, vivido por Armando Gutiérrez), que passa a controlar sua vida e a colocá-la como atração principal do circo em que comanda. A reviravolta só começa quando o repórter Cam Harrison (William Moseley) chega na cidade de Mississipi para fazer uma reportagem sobre a tão falada “água que cura” que existe no local – e que, inclusive, poderá melhorar a saúde de sua sobrinha Elle (Loreto Peralta) – e passa a especular que as figuras “estranhas” do circo são exploradas pelo macabro dono do picadeiro.

Com essa premissa e a desconstrução do personagem de Moseley – que passa de cético a alguém que acredita em magia, como sua sobrinha -, The Little Mermaid tinha tudo para apresentar uma interessante releitura mais madura do clássico em que se inspira. Porém, conforme a história se desenvolve, o maior desafio do espectador é conseguir aguentar até o final dos breves 94 minutos sem desistir. Isso tudo porque, apesar da boa ideia, o roteiro não desenvolve bem nenhum personagem, conta com diálogos extremamente forçados (em um nível que não dá para relevar nem considerando a faixa etária do público a que o filme se destina) e efeitos especiais que tornam risíveis até mesmo uma cena carregada de tensão. Tudo bem que é necessário levar em conta o fato do longa ter sido produzido com baixo orçamento; mas, ao ver o resultado em tela, só dá para pensar que a melhor solução teria sido levar a trama para um caminho em que tudo não soasse tão fake.

Cortes abruptos na transição de cenas e estranhos segundos de silêncio durante os diálogos também incomodam os olhos mais atentos, por mais que os atores tentem trazer naturalidade durante suas falas e vivacidade para personagens que nem têm tempo de desenvolver carisma algum. Da relação do repórter Cam com a sereia Elizabeth ao elo de amizade que faz com que todos os seres bizarros (ou seriam mutantes?) do circo se reúnam para enfrentar Locke no final, tudo é construído rápido demais, a ponto de ser difícil desenvolver qualquer interesse ou simpatia com o que se desenrola diante dos nossos olhos. Para não dizer que nada funciona, o único destaque é o relacionamento entre Cam Harrison e sua sobrinha Elle, que faz até com que ele passe por cima de sua falta de crenças para tentar salvar a garota mais importante de sua vida (mas não espere cenas extremamente tocantes também, já adianto).

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No meio de tantas falhas técnicas e no roteiro, A Pequena Sereia tem o mérito de seguir a linha das releituras atuais. Não dá para deixar de dizer que um ponto positivo do filme é manter a importante mensagem de que nem sempre é preciso ter um “príncipe” ao lado para conquistar o final feliz – já que, no caso de Elizabeth, recuperar sua liberdade seria de fato a maior conquista. Depois de tantas idealizações erradas do amor, os filmes inspirados em contos de fadas parecem mesmo priorizar um happy ending mais independente e empoderado para suas princesas modernas.

Mas, ainda que tenha esta mensagem atual e tente apresentar uma interessante versão do clássico, a teoria e o desfecho não são suficientes para salvar um desenrolar em que falta carisma e sobram diálogos ruins e efeitos especiais toscos – principalmente da metade para a frente, momento em que o filme parece desistir de vez de tentar entregar uma trama mais consistente para o público. Sendo assim, enquanto a Disney não produz sua versão live action, a fantasia e a inocência do desenho de 1989 e sua sequência de 2000 ainda soam bem superiores, embora alguns detalhes não dialoguem mais com a geração atual. Saudades, Ariel e Linguado!



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