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Entre Facas e Segredos | Como a franquia de Rian Johnson apresentou um novo lado dos filmes de mistério


É incrível como a sétima arte como um todo tem um apreço significativo por histórias de mistério – e, quando benfeitas, a reação causada nos espectadores é simplesmente maravilhosa. Não é à toa que adaptações dos escritos de Sir Arthur Conan Doyle e Agatha Christie tenham um espaço especial no coração dos cinéfilos, além de produções que misturam tais narrativas com espionagem, comédia e ação. E, na atualidade, há um poderoso nome que se apropriou do gênero e mostrou que a originalidade cinemática ainda não está morta: Rian Johnson.

Após ganhar destaque inegável com ‘Star Wars: Os Últimos Jedi’, que se tornou um sucesso de crítica e de bilheteria, Johnson foi contratado pela Netflix para encabeçar um ambicioso projeto inspirado nas clássicas incursões whodunnit, cujo termo se popularizou a partir dos anos 1940 com incursões fílmicas cujo ponto principal é descobrir o assassino. Aqui, Johnson fica responsável também pelo roteiro e traz os melhores elementos de enredos do tipo: um detetive mundialmente famoso, um crime estrondoso e estranho, um grupo de suspeitos (cada qual com um idiossincrático motivo para ter matado a vítima) e uma jocosidade ácida que fornece ritmo e nos envolve do começo ao fim.



Tal projeto ficou conhecido como Entre Facas e Segredos, trazendo ninguém menos que o icônico Daniel Craig como Benoit Blanc, um famoso detetive que estampou capas de revista e manchetes ao redor do planeta por suas habilidades únicas de resolver crimes insolucionáveis – uma clara homenagem a nomes como Miss Marple, Sherlock Holmes e Hercule Poirot. Recebendo aclame por sua performance, Craig protagonizou não apenas um irretocável capítulo inicial de uma inesperada franquia, como reprisou com ainda mais fervor o papel com a sequência ‘Glass Onion’, que foi lançada igualmente pela plataforma de streaming. E, segurando as rédeas de uma magnífica narrativa, ambos os longas-metragens foram eternizados como dois dos melhores dentro do gênero em questão do século.

A primeira história traz Benoit como um inesperado convidado para examinar a morte de Harlan Thrombey (Christopher Plummer), um autor best-seller de livros de mistério que, em seu aniversário de 85 anos, cortou a própria garganta em seus aposentos privados. Dono de um império multimilionário e cobiçado pelos filhos e enteados, o escritor também era acompanhado de uma enfermeira de tempo integral chamada Marta Cabrera (Ana de Armas), que se tornou uma amiga próxima e conhecedora de todos os seus segredos – e os segredos envolvendo outros membros da família. Por essa razão, Marta chama a atenção de Benoit, que a torna assistente oficial. O problema é que a jovem foi responsável por inadvertidamente envenenar Harlan ao trocar os frascos de seu remédio, levando-o a se matar para impedir que ela fosse presa e sofresse com um erro honesto.

Desesperada com a situação e tentando se esquivar da investigação do detetive – ou ao menos atrapalhá-la -, Marta se vê em uma situação ainda mais complicada quando, durante a leitura do testamento, toda a fortuna de Harlan é deixada para a enfermeira, atraindo comentários de indignação, raiva e consternação da família Thrombey. Sem saber o que fazer e esbarrando em um beco sem saída atrás do outro (além do fato de sofrer de um problema de regurgitação toda vez que pensa em mentir, tornando-a peça-chave na jornada de Benoit). E é a partir daí que, minuto a minuto, os eventos escalam a ponto de se transformarem em uma bola de neve – cuja reviravolta inesperada é apenas a cereja de um delicioso bolo.

Entre Facas e Segredos carrega consigo óbvias referências de clássicos do gênero, mas não funciona como um filme de mistério convencional, como podemos ver: afinal, a realidade por trás do que aconteceu nos é apresentado logo de cara, e somos arremessados a uma espécie de “paródia” feita com um vibrante capricho e que acrescenta incursões despojadas, apostando em construções de tipos sociais que fazem total sentido dentro dessa atmosfera. Jamie Lee Curtis interpreta Linda, filha de Harlan, que nutre de uma paixão inegável pelo pai e pelos filhos, mas mostra-se inescrupulosa em meio a uma independência conquistada com muito trabalho – voltando-se até mesmo contra Marta quando a ela é dada a fortuna do pai; Michael Shannon vive o filho mais novo de Harlan, perdido ao não entender o legado deixado pelo pai e tratado como um “zé-ninguém”; Toni Collette rende-se a uma interpretação magnífica como Joni Thrombey, nora de Harlan e viúva de Neil, que esconde suas verdadeiras intenções em meio a uma máscara “descolada”; e Chris Evans como o neto rebelde do escritor, Ransom, cuja vida desleixada e falta de prospecto o tiram do testamento e o levam a um caminho de pura descrença e letargia.

Cada membro do elenco é de extrema importância e fornece um twist interessante aos costumeiros arquétipos que encontramos em obras de mistério – e o mesmo acontece em ‘Glass Onion’: com um time de atores reduzido que inclui Janelle Monáe, Kate Hudson, Dave Bautista, Kathryn Hahn, Leslie Odom Jr. e Edward Norton, Benoit se vê no centro de uma ardilosa artimanha que o leva para a ilha particular de um gênio da tecnologia chamado Miles Bron, que convida amigos próximos para um fim de semana em que eles deverão descobrir quem foi responsável por sua morte – isso é, até um corpo aparecer logo após o jantar.

O segundo capítulo da franquia se afasta do cenário urbano-campestre que une discussões sobre imigração e classismo e nos leva para uma idílica paisagem mediterrânea que abre espaço para delineações sobre corrupção, capitalismo predatório e o controverso conceito sobre o limite entre liberdade de expressão e crimes de ódio (algo que estava em voga no auge da pandemia de COVID-19 e que ganhou palanque inexplicável nas redes sociais). De maneira similar ao primeiro filme, somos apresentados a uma história que, a priori, nos leva a tentar descobrir quem matou Duke (Bautista), que parece ter sido envenenado no lugar de Miles – e que atrai atenção para Andi (Monáe), que foi enganada por seus colegas e perdeu sua parte de uma companhia high-tech após um julgamento comprado (impulsionando Miles a investir em um combustível extremamente volátil e perigoso que precisa de apoio incondicional, mesmo sem os testes terem sido feitos).

Retornando para a cadeira de direção e ficando responsável pelo roteiro, Johnson mantém-se fiel à identidade explorada em Entre Facas e Segredos e mostra que consegue se superar – além de ter uma intuição sobrenatural para escalar as pessoas certas aos papéis que constrói, como se fossem escritos diretamente para determinado ator. É por essa razão que o trabalho de Armas, Monáe, Hahn, Curtis, Plummer e, obviamente, Craig, explode nas telas do começo ao fim e nos deixa ansiosos para o que virá a seguir.

Vale lembrar que o terceiro filme da franquia, ‘Wake Up Dead Man’, chega à Netflix no dia 12 de dezembro de 2025.

Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.
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