Os ecos do movimento #MeToo ainda eram vorazes quando ‘The Morning Show’ inaugurava o catálogo de entretenimento da Apple TV+ em 1º de novembro de 2019. As redes sociais, tomadas por relatos verdadeiros e falsos de experiências assombrosas, refletiam – embora com menor impacto – o que teria sido uma das maiores revoluções sociais do universo digital.
Nas telas, Jennifer Aniston e Reese Witherspoon replicavam esse peculiar cotidiano de denúncias e desabafos majoritariamente femininos. E assim, vida e ficção se cruzavam uma vez mais em Hollywood, em uma das séries jornalísticas mais intrigantes da época. Abordando o submundo de um conglomerado de comunicação tomado por vícios comportamentais e relacionamentos abusivos, o drama se apresenta como o reflexo de um passado recente, à medida em que traça um futuro ficcional que muito se assemelharia às divisões político sociais do presente.

E ‘The Morning Show’ introduziu ao mundo a Apple TV+ como o panteão das séries mais bem elaboradas e fascinantes dos anos recentes. Casa de produções como ‘Ruptura’ e ‘Ted Lasso‘, o streaming cujos átrios estão enraizados na tecnologia de ponta provou-se indispensável em Hollywood e muito disso se deve exatamente àquela que deu início a tudo. E agora em 2025 e três temporadas depois, a série estrelada e co-produzida por Aniston e Witherspoon promete uma abordagem ainda mais ousada, explorando os limites éticos e morais diante de escolhas tão complexas.
Trazendo Alex (Aniston) e Bradley (Witherspoon) encarando seus próprios dilemas emocionais perante um cenário social de ruptura, conflito e disputa por poder, a 4ª temporada se compromete a levar a audiência para níveis ainda mais profundos, sempre mantendo viva as questões reais mais latentes em seus roteiros, como fora feito logo na 1ª temporada, conforme ponderou Jennifer.
“Bem, provavelmente essa é a única série que participei que é tão atual. Nós somos realmente atuais e nem planejávamos ser desse jeito. Assim que o movimento #MeToo aconteceu e tivemos metade dos nossos roteiros escritos, não conseguimos evitar incorporar a questão no texto. E então, conforme a temporada se seguia e nossos roteiristas continuavam escrevendo, isso se tornou algo que realmente estava acontecendo no mundo real, com a arte imitando a vida e vice-versa. É muito empolgante, porque você meio que espera pra ver. Será que nossos roteiristas viram mais uma vez em suas bolas de cristal e será que isso vai realmente acontecer na vida real? E claro, algumas coisas simplesmente aconteceram”.

E para Reese, essa atenção cuidadosa aos cenários sociopoliticos globais é um dos aspectos que mais garante que ‘The Morning Show’ esteja sempre um passo à frente em sua abordagem narrativa.
“Estamos conversando sobre IA, sobre o ambiente de trabalho, deep fake…Dinâmicas profissionais, indivíduos ricos que adquirem emissoras de TV, que compram foguetes. Nós não imaginávamos que essas coisas aconteceriam, mas dois anos depois rolaram. Então ‘The Morning Show’ está sempre pensando adiante. E é divertido fazer parte de uma série onde estamos abordando coisas que as pessoas estão discutindo na mesa de jantar”.
E em meio a uma realidade diligentemente mutável, a série criada por Jay Carson tenta manter-se insaciável ao monitorar de perto os movimentos culturais e a política local. Alterando seus núcleos narrativos a cada nova temporada, ‘The Morning Show’ acompanha o universo jornalístico por uma ótica analítica, construindo sua trama em ciclos. Enquanto a 1ª temporada destinava-se ao assédio/abuso sexual no ambiente de trabalho, as demais seguintes transacionaram para temas mais políticos, como o atentado ao Capitólio e a revolução na produção e consumo de informação.

Essa mudança de ares é o que permite que a original da Apple TV+ não perca seu fôlego, de acordo com Witherspoon.
“Eu acho que o mundo do jornalismo está mudando a cada minuto. Em que confiar? A quem os consumidores procuram quando querem a verdade? Qual é a verdade? Então temos muita sorte de já termos estabelecido esse formato. E aí podermos expandi-lo em todas essas diferentes narrativas, do tipo: Porque os podcasters são tão importantes agora? Deveríamos acreditar neles ou na rádio NPR, que está perdendo recursos? E temos rastreado tudo isso ao longo desses seis anos fazendo essa série. Então eu creio que estamos vendo a evolução da transmissão moderna e do jornalismo através desse formato ultra dramático. E podemos aprender também como funcionam os bastidores”.
E no que diz respeito à 4ª temporada, Alex e Bradley serão uma vez mais colocadas em lados opostos, à medida que lidam com questões semelhantes ligadas ao seio familiar. Enquanto a primeira testemunha uma ascensão ainda maior em sua carreira, em meio a conflitos relacionais com seu pai, a segunda é obrigada a encarar a imoral escolha profissional tomada para proteger seu irmão. Nessa dinâmica, o veterano Jeremy Irons se junta ao elenco oficial da série, trazendo à tona as profundas raízes psicoemocionais de Alex.
“Sim, o todo poderoso Jeremy Irons. […] Ele é simplesmente divino e eu estou tão empolgada que temos o pai de Alex nessa temporada, pra que possamos tirar suas camadas e entender o que fez a Alex ser quem ela é. Porque seus relacionamentos não estão funcionando? Porque ela é tão workaholic? Porque ela é tão solitária? Foi legal me aprofundar nisso”, revelou Aniston.

Já Bradley seguirá por caminhos mais sombrios, que culminarão em um clímax que promete ser surpreendente.
“Ela está lidando com as consequências de ter protegido seu irmão, que participou do 06 de Janeiro. Minha personagem irá para um lugar muito bizarro nesta temporada, não posso dizer qual. Mas é completamente inesperado, é do nada e eu acho que as pessoas ficarão chocadas”, comentou Witherspoon.
Jennifer concordou e instigou ainda mais a curiosidade dos fãs para o final da temporada, mantendo o ar de mistério em relação ao fechamento de mais um ciclo que acaba de se iniciar.
“Eu fiquei arrepiada agora, sem brincadeira!”, concluiu com uma risada.
E assim, projetando a realidade mundial com um incômodo espelho focal, ‘The Morning Show’ continua a fazer de seu drama uma oportunidade certeira que une o entretenimento a debates sociais cruciais. Do niilismo ao idealismo, a produção continua a nos lembrar do motivo de ser uma das grandes joias da coroa da Apple TV+.
Na nova temporada, Alex (Aniston) quer garantir voz ativa sobre o futuro do canal, enquanto Bradley (Witherspoon) tenta manter o foco no que acredita ser o melhor para a empresa. Mas como já ficou claro em temporadas anteriores, boas intenções raramente garantem estabilidade na UBA — e o embate entre lealdades pessoais e interesses profissionais será inevitável.
O elenco original, que inclui Billy Crudup, Jon Hamm, Karen Pittman e Greta Lee, ganha reforços de peso nesta nova fase: Marion Cotillard e Boyd Holbrook se juntam à trama como novos personagens centrais, ao lado de Jeremy Irons, Aaron Pierre e William Jackson Harper. A presença de Cotillard, inclusive, já chama atenção pelo mistério e sofisticação que sua personagem promete trazer à dinâmica da redação.
A produção é da Media Res em parceria com a Hello Sunshine e a Echo Films. A showrunner Charlotte Stoudt assume novamente o comando, com direção de Mimi Leder. A série segue com produção executiva de Michael Ellenberg, Jennifer Aniston, Kristin Hahn, Reese Witherspoon e Lauren Neustadter.
Mantendo o tom afiado, dramático e extremamente atual que a consagrou, ‘The Morning Show‘ segue explorando os bastidores do jornalismo, o impacto da cultura corporativa e o preço das escolhas em uma era de transformação constante nos meios de comunicação.
Vale lembrar que a série já foi renovada para a 5ª temporada.
