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[Entrevista] ‘Casa de Dinamite’: Kathryn Bigelow deseja transformar o medo nuclear em um chamado à ação


Kathryn Bigelow volta a confrontar o medo e a moralidade da guerra em Casa de Dinamite (House of Dynamite), um filme que transforma a ameaça nuclear em um exercício de tensão e reflexão. Exibido pela primeira vez no Festival de Veneza e lançado globalmente pela Netflix em 24 de outubro, o longa rapidamente alcançou o topo das listas de mais assistidos em países como Brasil e Estados Unidos. Fiel à intensidade que marca sua filmografia — de Guerra ao Terror (2008) a A Hora Mais Escura (2013) —, Bigelow retoma o terreno da decisão sob pressão e do custo humano da segurança. “Espero que o filme nos leve a uma chamada à ação”, declarou a vencedora do Oscar após a exibição.

Pude assistir ao filme na telonas no início do mês, em Paris, durante uma sessão especial para os membros da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, seguida de uma conversa com a diretora no palco. Após o debate, trocamos algumas palavras sobre as ideias discutidas — um diálogo breve, mas revelador, que ampliou o sentido do que ela havia dito diante do público. Bigelow falou com convicção sobre o que a moveu a fazer Casa de Dinamite: a percepção de que “vivemos em um mundo cada vez mais instável”, algo que ela descreveu como “literalmente uma casa de dinamite, pronta para explodir a qualquer momento”.

Uma história em 18 minutos

Exibição especial em Paris do filme “Casa de Dinamite”, da Netflix, em 1 de outubro de 2025. (Foto de Letícia Alassë)

Durante o encontro em Paris, Bigelow explicou que a ideia nasceu da urgência de tratar essa sensação de instabilidade. O roteiro ideal surgiu das mãos de Noah Oppenheim — responsável por Jackie (2016), de Pablo Larraín, e um dos criadores da minissérie Dia Zero (2025), indicada a três Emmys. Juntos, a diretora e o roteirista encontraram a forma de traduzir o tema: “Identificamos imediatamente o ritmo extremamente rápido, ou seja, 18 minutos”, disse Bigelow.



Essa janela de 18 minutos é revisitada diversas vezes sob diferentes pontos de vista: o da defesa nacional; da equipe da Casa Branca; do comando estratégico; do secretário de Defesa e; por fim, do presidente. “Queríamos traduzir a dificuldade da tomada de decisão. O cérebro é bombardeado por informações extremas, e vivemos em tempo real o que significa estar nessa janela de disparo”, explicou.

Autenticidade em meio a Assuntos Secretos

Exibição especial em Los Angeles do filme “Casa de Dinamite”, da Netflix, no The Egyptian Theatre Hollywood, em 9 de outubro de 2025. (Foto de Charley Gallay/Getty Images para a Netflix)

Parte essencial da força de Casa de Dinamite está no realismo com que Bigelow retrata os bastidores do poder. O filme se passa em locais de acesso restrito, como a Situation Room da Casa Branca e o Comando Estratégico norte-americano. Para atingir esse grau de autenticidade, a produção contou com o apoio de especialistas:

“Tivemos acesso a conselhos de um consultor que trabalhou na Sala de Segurança da Casa Branca, de uma pessoa que liderava o comando estratégico e, finalmente, de um general de terceira patente”, contou a diretora. Ela fez questão de ressaltar o respeito com que tratou o tema: “São pessoas que dedicam suas vidas à nossa segurança, e quis mostrar esse mundo com a maior veracidade possível.

A House of Dynamite. Rebecca Ferguson como Capitã Olivia Walker em ‘Casa de Dinamite’.

Por essa razão e ainda outras, Casa de Dinamite não aponta culpados, nem cria vilões ou vítimas. Um dos pontos mais debatidos do filme é justamente a ausência de um inimigo declarado. “Optamos por nunca dizer de onde vem o míssil”, expõe Bigelow. “A responsabilidade está do nosso lado, é coletiva. O filme nos pergunta: é realmente este o mundo que queremos, um mundo tão frágil, tão instável?”

A diretora lembrou ainda que, dos nove países que possuem armas nucleares, apenas três são membros da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte), um dado que, segundo ela, “já deveria nos paralisar e nos fazer refletir sobre políticas de contenção”.

Três sets, uma só tensão

Exibição especial em Paris do filme “Casa de Dinamite”, da Netflix, em 1 de outubro de 2025. (Foto de Letícia Alassë)

O processo de filmagem foi igualmente complexo. Bigelow revelou que adotou a estratégia de  gravação simultânea de cenas em três locações diferentes para preservar a autenticidade da reação. “Os atores reagiam em tempo real ao que estava acontecendo em outros sets. Quis evitar sobreposições de rostos ou o uso de efeitos, é quase como teatro.

O resultado, de acordo com a cineasta, foi um ritmo intenso que contribui para a sensação de urgência que permeia o longa.  Embora Casa de Dinamite reúna um elenco estelar — como Idris Elba, Rebecca Ferguson, Jared Harris e Greta Lee, apenas para citar alguns —, todos têm pouco tempo de tela, refletindo a dinâmica frenética da narrativa. Essa linguagem visual foi construída em parceria com o diretor de fotografia Barry Ackroyd, conhecido por seu trabalho em Guerra ao Terror. “Ele vem do documentário, e foi por isso que o escolhi — queria que o público se sentisse uma ‘mosca na parede’.

Em busca da autenticidade e imediatismo, por exemplo, Kathryn conta que o diretor de fotografia iluminou todo o set em 360 graus e os atores tinham liberdade total para se mover. “Não havia marcações no chão nem valores de plano definidos. Eles apenas trabalhavam, e me disseram que isso era libertador”, compartilha.

A Humanidade acima de Tudo

Idris Elba como Presidente dos Estados Unidos.

Mesmo em um cenário dominado por tecnologia e decisões militares, Bigelow insistiu em preservar o aspecto humano. “Foi algo muito importante tanto para mim quanto para Noah: manter um senso de humanidade. Porque, no fim das contas, é isso que está em jogo se essas armas forem utilizadas.”

Por isso, o roteiro destaca aspectos pessoais dos personagens: “Eles trabalham em ambientes extraordinários, têm responsabilidades imensas, mas são apenas seres humanos. Têm filhos, esposas irritadas ou mães para quem querem telefonar quando sentem medo e angústia”, justifica.

Em Casa de Dinamite, Kathryn Bigelow cria uma experiência cinematográfica que mistura urgência e reflexão. Exausta, mas convicta, a diretora descreve o filme como “um apelo à ação”, um alerta sobre a banalização do risco e a fragilidade das estruturas que sustentam o mundo contemporâneo. Em tempos de tensão global e informação instantânea, seu cinema continua a questionar — e agora impõe uma pergunta que exige resposta de todos nós, sobretudo daqueles com a caneta na mão: se vivemos em uma casa de dinamite, quanto tempo ainda temos antes que ela exploda?

Letícia Alassë
Crítica de Cinema desde 2012, jornalista e pesquisadora sobre comunicação, cultura e psicanálise. Mestre em Cultura e Comunicação pela Universidade Paris VIII, na França e membro da Abraccine, Fipresci e votante internacional do Globo de Ouro. Nascida no Rio de Janeiro, mas desde 2019, residente em Paris, é apaixonada por explorar o mundo tanto geograficamente quanto diante da tela.
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