Um dos grandes lançamentos do mês no Disney+, Maria e o Cangaço traz a história dos cangaceiros pela ótica de Maria Bonita (Isis Valverde). Misturando drama com aventura, a série busca retratar o cangaço por uma ótica praticamente nunca vista até então nas produções sobre o tema.
A convite da Disney, conversamos com os diretores Sérgio Machado e Thalita Rubio, que falaram mais sobre as inspirações para o projeto e como foi trabalhar em uma série tão diferente dos padrões narrativos da Disney.

Um dos pontos mais interessantes revelados pela dupla é que a ideia de fazer a série surgiu do ator Wagner Moura, que leu o livro Maria Bonita: Sexo, Violência e Mulheres no Cangaço, de Adriana Negreiros, e achou que renderia uma boa adaptação.
“Quem me trouxe o livro foi o Wagner Moura. Como a gente é amigo desde a faculdade, ele leu o livro, ficou encantado e falou comigo para a gente tentar tocar o projeto juntos. Só que ele teve outros projetos que não permitiram a ele continuar, então começamos a desenvolver juntos e eu concluí. Me encantou a ideia de contar esse universo pela perspectiva feminina, e comecei a trabalhar também com a ideia da maternidade, com a Maria tendo que optar entre levar aquela vida de aventuras que ela ama ou de sossegar e construir uma família, que ela ama. Na verdade, esses dilemas são muito contemporâneos. A ideia de feminicídio, estupro seguem acontecendo até hoje, envolvendo até jogadores de Seleção Brasileira, sabe? É muito complexo”, contou Sérgio Machado.
“Infelizmente, isso não é uma coisa distante, não é um problema que foi resolvido há 100 anos. As coisas estão muito mais próximas do que a gente pensa. E a possibilidade de jogar uma luz nessas questões é um dos motivos pelos quais fizemos essa série. Trazer um olhar feminino para a Maria, esse olhar especial para dentro do cangaço é o que tem de novo na série. E a gente vai construindo esse imaginário com a camada feminina”, completou Thalita Rubio.
Além da parte narrativa muito forte, a série desperta a curiosidade por utilizar uma fotografia pouco visto em tramas de sertão. A aposta em cenas noturnas faz de Maria e o Cangaço uma série única nesse meio. E essa possibilidade de trabalhar em cenário reais fez com que a equipe pudesse ousar mais na hora de explorar a fotografia do show, conforme revelaram os diretores.
“A gente teve o privilégio de trabalhar com dois grandes diretores de fotografia no show. O primeiro foi o Adrian Teijido, que teve de sair da série duas semanas antes para fazer o ‘Ainda Estou Aqui’. Então tivemos que abrir mão dele, mas trouxemos o Rodrigo Carvalho. E um dos pontos mais legais foi descobrir coisas do ambiente em que a gente estava. Tivemos que descobrir como iluminar as coisas. E nas cenas noturnas, nós descobrimos o poder de iluminação das fogueiras. Nós não tínhamos equipamento para iluminar grandes territórios abertos, lugares ermos sem prejudicar a imagem da noite. E aí entraram as fogueiras. Nós queríamos fugir do habitual, então discutimos muito sobre as cores com o Teijido, o figurino. Para mim, especificamente, foi uma aventura maravilhosa, porque sou apaixonado por Westerns. Meus heróis são Sergio Leone, John Ford, Kurosawa, que não é Western, mas tem um brio nos filmes de samurai. Então, eu enquadrava muito pensando nesses grandes planos desses gênios do cinema. Foi uma aventura construída com muitos profissionais incríveis”, contou Machado.
“A gente se propôs a sempre fazer uma cena no entardecer. A gente rodava sempre com duas unidades, então ao menos duas cenas com a luz do entardecer a gente fazia. Às vezes, até cenas mais longa para serem feitas em tempo curto”, prosseguiu Rubio.
“É verdade! Faltando meia hora para o entardecer, a gente ensaiava a cena e gravava meio que num plano-sequência para capturar um momento com essa iluminação natural linda”, concluiu Machado.
Eles também revelaram um detalhe muito curioso. Em um dos episódios da série, a equipe misturou filmagens reais do cangaço, realizadas por Benjamin Abrahão, com cenas feitas por eles, com o elenco artístico.
“A série tem um lado que vai agradar o público que é fã de Western, assim como eu. Tem tiroteio, combates no sertão. Tem uma reconstituição de época, de ambientes, de figurinos, que é impressionante. Tem esse elenco que me salta os olhos. Tem um roteiro que foi acalentado por anos, trabalhado por quatro roteiristas nordestinos. A gente trabalhou muito a construção dessa história […] E mesmo sendo uma produção de época, flerta com vários clássicos contemporâneos. ‘Mad Max’, por exemplo, foi uma grande referência para nós na construção estética. E acho que um dos aspectos mais interessantes é esse diálogo com o contemporâneo. São questões que aconteceram há 100 anos atrás, mas que continuam muito atuais. Outra coisa bacana é que o trabalho de reconstrução de época foi tão bem-feito que, acho que é no episódio 5, que tem o Benjamin Abrahão, a gente mescla imagens do bando real com as do elenco filmadas por nós. E eu desafio quem estiver assistindo a dizer quais cenas trazem o bando real e quais são ficção, porque até nós mesmos da equipe nos confundíamos”, revelou Sérgio.
“O universo do cangaço desperta muito a nossa curiosidade. Tem esse apelo por si só. E é uma história brasileira, é um épico. É uma história com paixões, com violências que são pesadas, tem ação, tem a maternidade. É uma série que flerta com vários gêneros”, completou Thalita.

