Entrevista | ‘Marte Um abriu as portas’: Gabriel Martins e Rejane Faria falam sobre ‘Vicentina Pede Desculpas’, dos festivais à Netflix (Exclusivo — Oscar 2027)

Diretor e atriz conversam com exclusividade com o CinePOP diretamente de Toronto, onde se preparam para a estreia mundial do novo filme no TIFF; produção também passará por San Sebastián e Festival do Rio antes de chegar a 190 países pela Netflix

Marte Um mudou a percepção sobre a produtora, a percepção sobre quem eu sou. Foi um filme que realmente colocou a gente no mundo”, declara Gabriel Martins ao lado de Rejane Faria, em entrevista exclusiva ao CinePOP, em Toronto, diante do cartaz do filme, que aparece em inglês com o título internacional On Behalf of My Son. Vicentina Pede Desculpas teve sua estreia mundial no último sábado, 12 de setembro, no Toronto International Film Festival (TIFF). 

Quatro anos. Foi esse o tempo que passou desde a minha última conversa com Gabriel Martins. Naquela ocasião, Marte Um ainda disputava uma vaga para representar o Brasil no Oscar. O filme venceu a concorrência, conquistou o mundo e transformou definitivamente a trajetória de seus realizadores. Agora, estou novamente diante do diretor — e de Rejane Faria —, às vésperas da decisão, marcada para a próxima quarta-feira, 16 de setembro, que pode levar Gabriel Martins, pela segunda vez, a representar o Brasil na disputa pelo Oscar. E, se Marte Um foi responsável por abrir as portas, Vicentina Pede Desculpas chega com a intenção de atravessá-las.

Depois de Toronto, o filme segue para a mostra competitiva do Festival de San Sebastián, entre 18 e 26 de setembro, e passa pelo Festival do Rio, de 1º a 11 de outubro.  O lançamento nacional acontece em 5 de novembro, antes da estreia mundial pela Netflix, em 20 de novembro, com lançamento previsto em 190 países.

É um salto gigantesco para a Filmes de Plástico, uma produtora independente de Contagem, em Minas Gerais, que conquistou espaço internacional sem precisar abrir mão de sua identidade para chegar ao mundo, como ressalta Gabriel durante nosso bate-papo. 

O Legado de Marte Um 

Gabriel olha para os últimos quatro anos como um período de transformação profunda, não apenas para sua carreira, mas para toda a estrutura construída pela Filmes de Plástico.

“Todos nós que fizemos Marte Um fomos profundamente impactados pelas repercussões desse filme, que duram até hoje.”  O impacto continua sendo sentido, segundo o diretor: “Até hoje, pessoas vêm falar comigo da importância de Marte Um para elas. Querendo ou não, deu muito mais energia para a gente fazer cinema… , pois cinema é uma constante renovação de energias e não é sempre fácil, não é sempre fácil estar produzindo.”

marte um
Cena de Marte Um (foto: divulgação)

Nesse intervalo, a Filme de Plástico cresceu, produziu novos projetos e chegou também à televisão com a série O Natal dos Silva (2025), além de ter participado da seção Panorama no Festival de Berlim 2026, com o longa Se Eu Fosse Vivo, Viva, de André Novais Oliveira. Para Gabriel, a experiência acumulada foi fundamental para chegar ao filme que considera o maior de sua carreira.

“Você pode estudar o que for, é fazendo filmes que vai criando essa prática. Muitas coisas aconteceram nesse meio tempo e foram nos preparando para chegar a um filme desse tamanho; é o maior filme que eu já fiz em termos de volume, orçamento, dificuldade; e poder passar por esse processo mantendo a criatividade, mantendo a força do projeto.”, ressalta Gabriel, que também se tornou pai durante esse período e confessa ter sido impactado por essa transição.

Vicentina Pede Desculpas é baseado em uma história real?

Uma das maiores curiosidades em torno do filme está justamente na premissa. A história parece tão próxima de uma tragédia real que é quase inevitável imaginar que Gabriel tenha partido de um acontecimento específico ocorrido em Minas Gerais. Mas não.

VICENTINA PEDE DESCULPAS. Rejane Farias as Vicentina, Renato Novaes as Bruno in Vicentina Pede Desculpas. Cr. Denize dos Santos/Netflix © 2026

 

Vicentina especificamente não foi baseada em um acidente que aconteceu em Minas.”, esclarece Gabriel e conta que as especulações começaram ainda durante as filmagens. O curioso é que realmente existiu um acidente em Belo Horizonte que fez muita gente associar o filme a um acontecimento real.

“De fato, teve um acidente semelhante em Belo Horizonte. Mas não foi por isso que eu escrevi o filme. A origem mesmo teve a ver com um acidente de avião que aconteceu com a companhia Germanwings. Na Caixa-Preta, entendeu-se que o piloto jogou o avião contra a montanha. Logo depois, eu lembro de ver o documentário Ônibus 174, do José Padilha, e ver a imagem da mãe do Sandro no velório, sozinha, um velório vazio.”

VICENTINA PEDE DESCULPAS. Rejane Farias as Vicentina in Vicentina Pede Desculpas. Cr. Denize dos Santos/Netflix © 2026

Foi desse cruzamento de imagens e ideias que nasceu Vicentina. “Então, juntei essas ideias dessa mãe tendo que viver um luto que é coletivo, mas também, obviamente, pessoal com essa ideia de um acidente num transporte que junta várias vidas, ou seja, quantas pessoas são impactadas por um acidente.”

Rejane Faria assume o protagonismo

Se Marte Um apresentou Rejane Faria ao mundo de uma maneira muito particular, Vicentina Pede Desculpas coloca a atriz no centro da história. A atriz acredita que a experiência de Marte Um inevitavelmente atravessa o seu trabalho.

“Ele foi pai, eu fui avó. Então, assim, a gente se empresta muito para essas criações. A nossa vivência, nossa experiência, nossas relações com as pessoas, elas vão construindo essas possibilidades de ter material para criar uma personagem.” Mas interpretar Vicentina também significou aceitar um desafio completamente novo. “Quando veio o convite [para Vicentina Pede Desculpas], eu pensei: ‘não sei se eu dou conta, mas eu quero tentar, eu quero ir lá fazer, construir essa mulher’.”

VICENTINA PEDE DESCULPAS. Rejane Farias as Vicentina in Vicentina Pede Desculpas. Cr. Denize dos Santos/Netflix © 2026

Passo a passo, a personagem ganhou vida, inclusive fisicamente,“A partir das indicações do Gabriel e da equipe que estava trabalhando na construção dessa estrutura física da Vicentina, as coisas foram chegando. E fiquei muito livre também de não propor muita coisa antes, de esperar ele me solicitar.” Até chegar ao momento em que a personagem finalmente ganhou vida própria.

Distribuição Internacional Garantida

Talvez a maior mudança entre Marte Um e Vicentina Pede Desculpas esteja na escala da distribuição. Enquanto o primeiro precisou conquistar espaço gradualmente no circuito nacional e internacional, o novo filme já nasce com uma estratégia global. Gabriel evidencia o papel fundamental da gigante do streaming Netflix nessa nova etapa.

“Foi um processo muito colaborativo e puxado pelo Marte Um. A Netflix veio ao nosso encontro com muita confiança também de que o caminho, o nosso jeito de contar histórias, é o que era buscado. ” O diretor destaca, principalmente, a liberdade criativa preservada durante o processo. Agora, entretanto, a dimensão é outra.

VICENTINA PEDE DESCULPAS. Maíra Azevedo as Joana, Rejane Farias as Vicentina in Vicentina Pede Desculpas. Cr. Denize dos Santos/Netflix © 2026

O que mais empolga Gabriel, entretanto, não é simplesmente o tamanho da plataforma. É saber que uma história tão brasileira poderá chegar a uma audiência mundial sem perder aquilo que a tornou especial. “E a coisa que me deixa mais feliz é ser essa história, que é uma história desafiadora.”

Vicentina Pede Desculpas não tenta facilitar a experiência do espectador, segundo o cineasta de 38 anos. “O film desafia as pessoas a saírem da mesmice pelo tom. É um filme que chama o espectador para vivenciar aquela história mesmo de uma maneira atenta, de uma maneira curiosa. (…) Acho que tem um gesto de coragem em apostar nessa obra”, finaliza.

Caso seja o escolhido para representar o Brasil no Oscar 2027, o filme também poderá contar com a força da Netflix em sua campanha. A plataforma já está envolvida com outros representantes internacionais da disputa, como os filmes da Espanha, La Bola Negra, e da Coreia do Sul, Possible Love.

Miguelzinho do Cavaco na Telona?

Como todo filme de Gabriel Martins, sempre existe uma surpresa musical. No caso de Vicentina Pede Desculpas, ela atende pelo nome de Miguelzinho do Cavaco, ou Miguel Vicente, um artista de 12 anos com mais de 1,4 milhão de seguidores no Instagram. A participação do artista ainda é mantida em segredo, mas Gabriel garante: “Só vou falar que podemos esperar uma cena linda, forte e é só isso que eu vou dizer.”

Miguelzinho do Cavaco (foto: reprodução/UOL)

Gabriel, porém, revela que a presença de Miguelzinho faz parte de uma tradição da Filme de Plástico de levar para o cinema pessoas conhecidas por outros universos. “Ele é uma figura que eu sempre considerei maravilhosa. Não é de hoje a ideia de trazer pessoas, figuras pop, mas que nunca fizeram um filme para estar dentro de uma tela de cinema.” Ele lembra de experiências anteriores: “fizemos isso lá atrás com o MC Karol, que acabou virando uma grande atriz; com o Toquinho no Marte Um. Agora, é a vez do Miguelzinho”

De Contagem para Toronto

A trajetória da Filme de Plástico também se reflete nos artistas que passaram por sua história e seguiram construindo seus próprios caminhos. É o caso de Grace Passô, que consolidou uma carreira de destaque no cinema brasileiro, tanto como atriz quanto como diretora. Sua obra Nosso Segredo estreou no Festival de Berlim. Ao lado da produtora, ela integrou No Coração do Mundo, de Gabriel Martins e Maurilio Martins, e também atuou em Temporada (2018) e O Dia Que Te Conheci (2023), de André Novais Oliveira.

Depois de Ainda Estou Aqui, com sua forte conexão com o cinema carioca, e O Agente Secreto, marcado pela tradição cinematográfica pernambucana, Vicentina Pede Desculpas coloca Minas Gerais em evidência no cenário internacional. Mais do que alcançar novos territórios, o filme leva consigo o sotaque, a identidade e o olhar de um cineasta mineiro.

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Letícia Alassë
Letícia Alassë
Crítica de Cinema desde 2012, jornalista e pesquisadora sobre comunicação, cultura e psicanálise. Mestre em Cultura e Comunicação pela Universidade Paris VIII, na França e membro da Abraccine, Fipresci e votante internacional do Globo de Ouro. Nascida no Rio de Janeiro, mas desde 2019, residente em Paris, é apaixonada por explorar o mundo tanto geograficamente quanto diante da tela.