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Eu Sei o que Vocês Fizeram no Verão Passado | Relembrando o clássico slasher dos anos 1990


O terror passou por uma repopularização entre os anos de 1980 e 1990, com o lançamento de inúmeras produções que conquistaram a crítica e/ou o público através de narrativas instigantes e uma celebração de ramificações desse gênero que reiteravam seu infinito potencial. E, quando voltamos nossa atenção para a década de 90, é notável encontrar obras que continuavam a explorar diferentes perspectivas do terror – como foi o caso da icônica franquia ‘Pânico’, que apostou fichas no slasher e na metalinguagem de maneira bastante funcional e envolvente ao chegar aos cinemas em 1996.

Enquanto a saga supracitada se manteve fiel à estética conterrânea, houve outra produção que, pouco a pouco, transformou-se em um clássico cult ao fazer homenagem direta a clássicos dos anos 1980 como ‘Assassinatos na Fraternidade Secreta’ e ‘Baile de Formatura’. Intitulada Eu Sei o que Vocês Fizeram no Verão Passado, o filme comandado por Jim Gillespie mergulhou de cabeça no teen-horror ao centrar o enredo em um grupo de amigos prestes a se formar no colégio que resolveu comemorar o feriado de 4 de julho com muita bebida; porém, a festança logo se transforma em um pesadelo quando eles atropelam um transeunte na volta para casa e resolvem desovar o corpo no oceano, jurando nunca mais falar sobre isso e esquecer aquele evento fatídico.

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Todavia, o passado sempre dá um jeito de voltar – e, um ano mais tarde, Julie (Jennifer Love Hewitt), Helen (Sarah Michelle Gellar), Barry (Ryan Phillippe) e Ray (Freddie Prinze Jr.) se veem num sangrento julgamento que vem para puni-los: um assassino mascarado e segurando um gancho está atrás deles como forma de se vingar do derradeiro segredo que mantiveram todo esse tempo, lançando-os em uma perigosa jornada de sobrevivência que funciona pela simplicidade e pelo despojamento de sua história. É claro que, ao se inclinar para os tropos explorados em obras similares na década anterior e até mesmo com o advento de ‘Pânico’, a produção fica um pouco ofuscada – mas isso não muda o fato de que angariou uma legião de fãs e que conquistou um sólido legado.

A obra, inspirada no romance homônimo de Lois Duncan lançado em 1973, funciona como uma adaptação recheada de licenças poéticas que, em vez de seguir à risca o aspecto de suspense, resolve se orientar para o slasher. É notável como Gillespie traz inspirações claras de lendas urbanas que começaram a se difundir nos anos 1990 e que já estendiam seus braços para a sétima arte – e, mais do que isso, temos Kevin Williamson responsável pelo roteiro e agora com prestígio considerável após ter emprestado suas habilidades ao filme estrelado por Neve Campbell. E, ainda que certas fórmulas se repitam e inclinações para o melodrama desestabilizam o ritmo em alguns momentos, é sempre interessante revisitar esse cosmos que ajudou a revitalizar o terror nas telonas.

À época de seu lançamento, a obra dividiu os críticos, alguns tecendo elogios para o caráter mimético da produção, outros sendo mais pungentes ao comentar sobre sua inferioridade quando comparado a produções semelhantes – em que eventos rotineiros e já familiares são rearranjados sob uma ótica parecida. Entretanto, é notável como as inevitáveis comparações podem ser deixadas de lado quando Williamson mostra dois lados de uma mesma moeda: em ‘Pânico’, a linguagem metadiegética revela uma autoconsciência do filme em relação à cultura pop, promovendo um encontro entre realidade e ficção; em Eu Sei o que Vocês Fizeram no Verão Passado, há um certo hedonismo estético fruto de uma combinação entre a nostalgia oitentista e uma narrativa direta e funcional.

O elenco é, de longe, o melhor aspecto do projeto: Hewitt eterniza Julie James como uma das final girls mais icônicas dos anos 1990, motivo pelo qual retornou para uma esquecível sequência e foi confirmada como personagem-legado do vindouro reboot ao lado de Prinze Jr. como Ray (fazendo um bom trabalho dentro do arquétipo em que se insere). Phillippe utiliza seu charme para nos conquistar como o problemático e cético Barry, enquanto Gellar nos encanta como a memorável Helen Shivers – e que se estenderia poucos meses depois com sua participação em ‘Pânico 2’ como Casey Cooper. E, como a cereja do bolo, a química e o fascínio de que os astros nutrem em cena são muito bem-vindos.

Há quase trinta anos, Eu Sei o que Vocês Fizeram no Verão Passado estreava nos cinemas de todo o mundo e se tornava um sucesso inegável de público, graças aos fortes nomes envolvidos nesse projeto. E, apesar dos altos e baixos e dos óbvios convencionalismos que acompanham cada engrenagem do filme, revisitá-lo ou redescobri-lo é sempre uma pedida interessante e que cumpre com o prometido – nos preparando para um ambicioso novo capítulo.

Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.
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