O som estarrecedor de uma batida de carro é o contato inicial que marca nossa peculiar jornada de descobertas com Twinless. Diante de uma vitrine vazia, apenas absorvemos o caos daquele instante à distância, em meio a ecos, incapazes de entender qual história está sendo apresentada. Até então, nada daquele momento realmente nos afeta. Vazio de significado e de profundidade, ele aparenta ser apenas um enxerto em uma trama sobre luto.

Mas o que James Sweeney é capaz de fazer com seu roteiro é o que torna Twinless uma experiência tão arrebatadora e voraz. Se você espera uma comédia bromance prestes a se desabrochar a partir das mazelas do peso da morte, se engana. Mas se está disposto a mergulhar em um universo de peculiaridades emocionais que nos arrebatam, esse é o lugar certo. Escrito a partir da “obsessão” do jovem diretor por gêmeos, o longa independente que brilhou no Festival de Sundance 2025 é uma oportunidade rara de verdadeiramente se surpreender com o comum, a partir da complexa e – por vezes – irreparável mente humana.
Fruto de uma longa gestação cuja data inicial remonta a 2015, Twinless nasce a partir da fascinação de Sweeney por essa intrínseca relação entre gêmeos e a inerente e diferente ligação emocional que os tornam partes quase iguais em vidas distintas. “Tudo começou quando eu fiquei sabendo da existência de um grupo de apoio para gêmeos. Eu também cheguei a namorar um gêmeo e quando eu era criança, queria muito ter um irmão gêmeo, então eles sempre fizeram parte da minha fascinação”, explica.

Se moldando ao longo dos anos, sem referências rígidas – mas absorvendo ecos de personagens moralmente falhos e emocionalmente instáveis -, o roteiro de Twinless é também uma amálgama de experiências vividas pelo cineasta ao longo dos últimos anos. Além disso, o curto filme traz sua própria perspectiva impressa naquilo que observava no comportamento alheio.
“Eu via pedaços do filme em todo lugar. Sempre que aparecia um personagem tomando decisões questionáveis, eu me perguntava o que aquela figura tinha que o fazia se conectar tanto comigo. Então sim, era isso. Mas também observei uma gama de produções, de Brian De Palma a Ingrid Vai Para o Oeste, passando por Garotos de Programa, de Gus Van Sant”, refletiu.

E no centro de Twinless está a excepcional performance de Dylan O’Brien, que interpreta irmãos gêmeos que destoam não apenas em suas caracterizações físicas, mas principalmente em sua linguagem corporal. Uma vez mais surpreendendo o público com sua versatilidade e habilidades camaleônicas de se revelar diante das telas, o astro foi premiado em Sundance 2025 por sua atuação. Aqui ele reitera o quão confortável se sente na cena independente, transformando papéis que teoricamente poderiam ser amorfos em espetáculos visuais que enchem os olhos e capturam nossa atenção sem cerimônia.
Para o ator, a construção dos personagens foi menos sobre truques técnicos e mais sobre clareza emocional. “A técnica é atuar”, resume. “O roteiro já deixava esses personagens muito claros e distintos. Eu tive anos para deixá-los viverem na minha cabeça, para entender quem eles eram”. Para o astro, que ascendeu ao estrelato pelo sucesso de Maze Runner, há diversas características de seus protagonistas em sua própria personalidade. “Eles representam diferentes aspectos da minha humanidade, diferentes caminhos que eu já percorri. Foi sobre identificar isso e trazer à tona”.
Essa diferenciação sutil também se construiu em colaboração com a equipe. Figurino, maquiagem e pequenas escolhas visuais ajudaram a marcar contrastes sem nunca quebrar a verossimilhança. “A gente brincava com ideias, como a possibilidade de um deles ter bigode, mas sempre tomando cuidado para não virar algo que distraísse. O meu maior medo não era parecer dois homens diferentes, e sim que eles não parecessem ser irmãos”, compartilhou o ator.

E entre os momentos mais difíceis da produção, a cena mais trabalhosa foi, naturalmente, aquela que une todos os pontos da narrativa. Se apresentando como uma reviravolta não apenas impactante para os personagens, mas também para a audiência. O take em questão é um divisor de águas na relação entre os amigos Roman (O’Brien) e Dennis (Sweeney).
Para James, além da carga dramática, foi também o ponto em que suas funções de diretor e ator mais se chocaram:
“Acho que foi nessa cena que senti que minhas responsabilidades como diretor e ator foram mais sobrecarregadas, porque foi a cena mais exigente, emocionalmente, que tive que fazer. E foi um dia muito longo. De modo geral, também havia uma cena de risco. Sabe, eu estava refletindo sobre uma cena em que eu literalmente recebia…Spoiler alert, um pouco de maquiagem de efeitos especiais. E houve uma tomada que eu tive que dirigir de dentro do trailer por walkie-talkie, porque eu fisicamente não conseguia estar em dois lugares ao mesmo tempo. Foi um dia desafiador de multitarefas”.

Essa carga emocional não se restringe apenas ao clímax da comédia dramática. Marcada por momentos de alívio que funcionam como um frescor revigorante para a audiência, a produção nos toma pelas diversas camadas que seus personagens são capazes de apresentar em menos de duas horas de trama. Subvertendo nossa percepção sobre a narrativa e sobre as motivações de seus protagonistas, Twinless é o cinema indie em sua forma mais completa.
Da memória afetiva criada por um hit clássico dos anos 2000 que embala algumas das cenas mais críticas, ao choque perante uma cruel e inexorável verdade capaz de romper laços profundos, o longa de James Sweeney é inesperado em seus três atos. Ele desafia nossa confiança e compreensão sobre o outro e é capaz de nos deixar à deriva, diante da imensidão de sentimentos que nos proporciona. É atemporal, é visceral, é inesgotável em seus sentidos.
Em Twinless, Roman, abalado pela morte do irmão gêmeo, encontra no luto uma solidão que parece invencível. Ao se unir a um grupo de apoio para pessoas que perderam seus gêmeos, ele conhece Dennis e nasce entre os dois uma amizade intensa, inesperada e complexa.
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O longa estreará nos cinemas nacionais no dia 4 de dezembro.
Sweeney escreveu, dirigiu e produziu o longa-metragem.
Aisling Franciosi, Lauren Graham, Tasha Smith, Chris Perfetti, François Arnaud, Susan Park e Cree Cicchino completam o elenco.
O’Brien e Miky Lee entram como produtores executivos ao lado de Ali Jazayeri, David Gendron e Liz Destro.


