EXCLUSIVO! Wagner de Assis revela bastidores de ‘The Fox Sisters’ e fala sobre FENÔMENO curioso nas filmagens: “Uma ajudinha dos espíritos, por que não?”

Conhecido por levar a espiritualidade para as telas em produções como ‘Nosso Lar’, ‘Kardec’ e ‘Ninguém é de Ninguém’, o cineasta brasileiro Wagner de Assis agora atravessa fronteiras com ‘The Fox Sisters’, produção falada em inglês que mergulha na impressionante — e controversa — história das irmãs que se tornaram figuras fundamentais para o surgimento do espiritualismo moderno nos Estados Unidos.

Em entrevista exclusiva ao CinePOP, o diretor revelou que sua vontade de contar essa história nasceu justamente quando começou a investigar além da versão mais popular sobre as irmãs Fox. Segundo ele, boa parte do material disponível reduzia as mulheres a supostas farsantes, ignorando a complexidade do período em que viveram e da própria trajetória da família.

“Quando tive contato pela primeira vez com um material mais aprofundado sobre as irmãs Fox, que não fosse simplesmente um verbete de enciclopédia ou uma informação encontrada em uma pesquisa nas redes sociais, imediatamente percebi que havia uma enorme distância da realidade”, contou.

‘The Fox Sisters’: Filme ESPÍRITA do diretor de ‘Nosso Lar’ sobre irmãs mediúnicas ganha trailer e sinopse

Para Wagner, a forma como a história das irmãs foi transmitida ao longo das décadas acabou criando uma visão parcial sobre elas. “A pouca informação que existia era muito equivocada, parcial e trazia um olhar quase desonesto sobre elas, acusando-as de fraude como se aquilo fosse um fato, dizendo que eram mentirosas, que tinham sido acusadas e pronto.”

Foi justamente esse incômodo que levou o cineasta a iniciar uma investigação própria sobre o que realmente aconteceu. Wagner explica que procurou deixar de lado a vantagem confortável de alguém do século XXI julgando acontecimentos ocorridos em outra sociedade, sob regras completamente diferentes.

“Eu limpei o meu olhar, como alguém que observa o passado a partir do presente, protegido pelo presente, e fui pesquisar o que realmente aconteceu com elas naquela época.”

O que encontrou foi muito maior do que imaginava. Para o diretor, ‘The Fox Sisters’ não é simplesmente uma história sobre fenômenos sobrenaturais. É também o retrato da ascensão e queda de uma família e, principalmente, de mulheres muito jovens tentando sobreviver em uma sociedade profundamente desigual.

“Encontrei uma história muito poderosa, muito relevante. Uma história sobre a ascensão e a queda de uma família, sobre jovens mulheres enfrentando uma sociedade machista e patriarcal enquanto viviam uma situação absolutamente atípica, que era sobrenatural.”

Quanto mais mergulhava na trajetória das irmãs, mais Wagner percebia que havia ali todos os ingredientes necessários para uma grande história cinematográfica.

“Encontrei coragem, encontrei medo, encontrei paixão, sonhos destruídos, imperfeições e valores humanos como generosidade. Quando você encontra essas coisas como cineasta e percebe que aquele pioneirismo também estava ligado ao espiritualismo, pensa: ‘Essa história precisa ser contada novamente’.”

Para ele, existe inclusive uma espécie de reparação histórica por trás do projeto. Wagner acredita que as irmãs Fox acabaram condenadas pela maneira como determinadas versões de sua história foram perpetuadas.

“Acho que esse filme nasceu pela necessidade de reconhecimento histórico, pela necessidade de colocar as coisas em seus devidos lugares. E nasceu com muita força. O que vocês veem na tela é resultado desse impulso de mostrar a covardia que o presente comete contra essas mulheres.”

O diretor faz ainda uma distinção interessante entre julgar personagens históricos e simplesmente condená-los. “Julgar faz parte da natureza humana, mas condenar é um ato muito mais doloroso. Talvez um novo julgamento sobre elas possa eliminar essa condenação e, ao contrário, colocá-las na posição que merecem, no lugar que realmente merecem.”

Wagner de Assis fala sobre o desafio de filmar em inglês

‘The Fox Sisters’ também representa uma mudança importante na carreira do diretor. Depois de comandar grandes produções brasileiras, Wagner realizou uma história essencialmente norte-americana e falada em inglês.

Apesar de dominar o idioma e já ter estudado nos Estados Unidos, ele admite que trabalhar artisticamente em outra língua exige muito mais do que simplesmente saber falar inglês.

“Eu não nasci nos Estados Unidos. Falo inglês muito bem, estudei lá e tenho plena consciência da língua. Mas uma coisa é conhecer o idioma; outra é ter aquela língua viva dentro de você, baseada na sua cultura e na sua história.”

A solução foi assumir plenamente sua posição como contador daquela história e, ao mesmo tempo, cercar-se de profissionais capazes de trazer autenticidade à produção.

“Eu me coloquei na posição de contador de histórias, mas entendendo que precisava contar essa história junto com um elenco e uma equipe. Daí também veio a decisão de fazê-la em inglês, porque essa é uma história profundamente americana.”

Curiosamente, Wagner considera a trajetória das irmãs Fox ainda mais essencialmente norte-americana do que ‘Kardec’ era francesa.

“É uma história mais americana do que a história francesa de ‘Kardec’, se você entende o que quero dizer em termos de decisões de produção. Gostei muito da experiência e quero voltar a filmar em inglês sempre que for possível.”

Para o diretor, havia ainda uma razão fundamental para não transportar a história para outro idioma: permitir que ela retornasse justamente ao país onde nasceu.

“Essa é uma história que deveria ser contada em inglês para poder repercutir nos Estados Unidos e em outros países, assim como aqui no Brasil, onde ela repercute de uma maneira diferente.”

E Wagner aponta uma curiosidade surpreendente: em sua percepção, muitos brasileiros conhecem a história das irmãs Fox melhor do que o próprio público norte-americano.

“Os brasileiros sabem mais sobre as irmãs Fox do que os próprios americanos. Então estou vivendo esse momento de grande curiosidade para entender como essa história vai chegar ao público.”

Algo sobrenatural aconteceu durante as filmagens?

É praticamente impossível conversar com o diretor de ‘Nosso Lar’ sobre um filme envolvendo espiritualidade sem perguntar se alguma coisa inexplicável aconteceu nos bastidores. Wagner recebeu a pergunta com bom humor.

“Eu sempre brinco dizendo que a coisa mais mágica e espiritual que acontece em um set de cinema é quando a câmera liga.”

E a explicação é bonita.

“Quando a câmera liga, você começa a materializar coisas incríveis diante dos seus olhos através do talento das atrizes, dos figurinos, da direção de arte. Fazer um filme de época é mágico porque você vê aquela época surgir diante de você e consegue respirar aquilo.”

Mas houve, sim, uma coincidência particularmente curiosa durante ‘The Fox Sisters’.

A produção precisava de neve para algumas sequências externas, mas as condições estavam longe de serem favoráveis. Segundo Wagner, não nevava naquela região do nordeste dos Estados Unidos havia anos nas condições necessárias para a produção. A equipe, então, começou a brincar sobre pedir uma pequena intervenção sobrenatural.

“A gente brincava: ‘Vamos pedir aos espíritos para nevar no dia em que estivermos filmando lá’.”

A resposta dos moradores e da própria equipe técnica era pouco animadora.

“‘Não vai nevar de jeito nenhum. Estamos sob influência do El Niño, tem aquecimento global…’.”

Até que aconteceu.

“Quando chegamos lá, a previsão mudou de repente e caíram cerca de 20 centímetros de neve durante a noite. Conseguimos filmar algumas das cenas externas com neve.”

Wagner faz questão de não transformar o episódio em uma afirmação sobrenatural e reconhece a explicação óbvia para o acontecimento.

“É claro que entendemos que aquilo foi um evento meteorológico passageiro.”

Mas também não vê problema algum em deixar aberta uma interpretação um pouco mais divertida.

“Se a gente também quiser enxergar aquilo como uma ajudinha dos espíritos, por que não?”

‘A espiritualidade faz parte da nossa vida muito mais do que percebemos’

Ao longo de sua carreira, Wagner de Assis construiu uma filmografia fortemente associada à espiritualidade, mas ressalta que suas histórias não são feitas exclusivamente para um público religioso. Para ele, existe uma dimensão espiritual que pode ser encontrada nos mais diferentes gêneros e conflitos humanos.

“Gosto de dizer que tenho óculos espirituais para enxergar histórias.”

O diretor cita ‘Ninguém é de Ninguém’, baseado na obra de Zíbia Gasparetto, como exemplo.

“Quando fazemos um filme como ‘Ninguém é de Ninguém’, que fala sobre obsessão, possessividade e ciúme, existe um olhar espiritual sobre tudo aquilo. Quando fazemos um filme sobre ‘O Advogado de Deus’, é a mesma coisa. Todos esses temas conseguem conversar e dialogar com a espiritualidade.”

E talvez seja justamente essa a principal mensagem que Wagner deseja deixar através de seus filmes.

“Meu desejo é dizer que a espiritualidade faz parte da nossa vida muito mais do que percebemos, independentemente de religião, crença ou fé.”

O cineasta acredita que essa busca pode assumir formas completamente diferentes para cada pessoa e não precisa necessariamente estar vinculada a uma religião específica.

“Acho que a grande busca é espiritual. Não importa por onde uma pessoa caminhe: se aquilo a alimenta, a transforma e faz com que ela seja capaz de transformar o mundo começando por si mesma, acho que estamos em um bom lugar.”

Para Wagner, o maior perigo talvez esteja justamente em abandonar essa procura.

“O que talvez não valha a pena é não buscar, especialmente nos dias de hoje. Porque, se você ficar parado atualmente, corre o risco de evaporar — falando de uma maneira bastante simbólica.”

E ele resume sua filosofia com uma imagem simples:

“Para mim, o mais legal é continuar nadando. Continuar buscando espiritualmente aquilo que completa você, aquilo que faz de você alguém melhor. Porque as histórias que escolhemos contar são baseadas nisso.”

No encerramento da conversa com o CinePOP, Wagner ainda ouviu nossa expectativa por ‘Nosso Lar 3’ e recebeu elogios por trazer às telas uma história pouco conhecida fora dos círculos ligados ao espiritualismo. Sua resposta foi curta, mas carregada da satisfação de quem acredita ter cumprido justamente a missão que deu origem a ‘The Fox Sisters’:

“Isso é muito bom, Renato. Muito obrigado. Isso é realmente muito bom.”

Assista a entrevista:

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Com o auxílio da irmã mais velha, Leah, as jovens iniciaram sessões mediúnicas para descortinarem as realidades das outras dimensões. O movimento se expandiu rapidamente e elas começaram a viajar e suas sessões serviram de consolo e apoio às famílias que buscavam notícias de entes queridos já falecidos. Reconhecidas principalmente pelo fenômeno das mesas girantes, amplamente difundido nos Estados Unidos e que migrou para a Europa, as irmãs Fox eram consideradas entre as pessoas mais famosas na segunda metade do século XIX naquele país.

Baseado em fatos, e em livros que relatam todo o movimento histórico delas, como o recentemente lançado no Brasil “O elo perdido no espiritualismo moderno”, de Leah Fox, o filme conta com um elenco multinacional protagonizado pelas norte-americanas Jamie Hughes (Leah), Sionne Elise (Maggie) e Marie Mchugh (Kate). A produção buscou autenticidade histórica, ambientando a narrativa nos interiores de casarões antigos do Rio de Janeiro e em ruas, fazendas e casarios nos Estados Unidos, com o objetivo de recriar a região rural do século XIX e percorrer três momentos distintos da história: 1858, 1868 e 1888.

 

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