Em 2026, chega a tão aguardada sequência de ‘Mortal Kombat’ (2021) nos cinemas – cuja estreia aconteceria em outubro e foi adiada para maio de 2026. A franquia possui seu público fiel, formado principalmente pelos fãs dos games. Embora o primeiro filme não tenha sido um sucesso estrondoso, nem de crítica e tampouco de bilheteria, existe certa expectativa para a sequência – em especial pela presença de Karl Urban como o favorito dos fãs Johnny Cage.
Mas é claro que o fã de cinema um pouquinho mais antigo, ou o mais empenhado, sabe que ‘Mortal Kombat’ já havia sido levado aos cinemas em live-action de forma bastante gloriosa em meados da década de 1990 – época perfeita, já que era bem próxima do sucesso do game. É justamente sobre essa primeira versão que iremos falar nessa nova matéria, já preparando os motores para o novo filme. O original está completando três décadas de sua estreia, tendo feito a alegria de toda uma geração.

Antes da chegada de ‘Mortal Kombat‘ aos cinemas em 1995, as adaptações de videogames ainda buscavam conquistar credibilidade junto ao grande público e à crítica. O gênero era visto com desconfiança após tentativas frustradas como ‘Super Mario Bros.‘ (1993), que, apesar do apelo da franquia da Nintendo, foi um fracasso de crítica e bilheteria, e ‘Double Dragon‘ (1994), que também não conseguiu agradar.
Até mesmo ‘Street Fighter – A Última Batalha‘ (1994), baseado em um dos jogos de luta mais populares do mundo e estrelado por Jean-Claude Van Damme, foi recebido com certa frieza – depois que a empolgação passou e a poeira baixou. Esses filmes sofriam com roteiros inconsistentes, direções problemáticas e uma notável dificuldade em transpor o espírito dos jogos para o cinema.

Originalmente, Mortal Kombat seria um jogo estrelado de fato por Jean-Claude Van Damme, numa parceria entre a Midway e o ator. A ideia era criar um jogo com gráficos digitalizados que colocasse Van Damme como protagonista, no auge de sua popularidade por filmes como ‘O Grande Dragão Branco‘ (1988). No entanto, o acordo não se concretizou. Com isso, os criadores Ed Boon e John Tobias decidiram criar um personagem inspirado no astro: Johnny Cage — um ator de filmes de ação, vaidoso, vestido com calça preta, faixa vermelha e óculos escuros, que aplica um golpe clássico… exatamente igual ao “split punch” de Van Damme em ‘O Grande Dragão Branco’.
Uma das influências mais marcantes na criação de Mortal Kombat foi o cultuado filme ‘Os Aventureiros do Bairro Proibido‘ (1986), dirigido por John Carpenter. A mistura estilizada de artes marciais, magia oriental, humor e personagens caricatos do longa serviu como uma referência visual e temática para os criadores Ed Boon e John Tobias. O vilão Lo Pan, interpretado por James Hong, foi uma clara inspiração para o feiticeiro Shang Tsung, enquanto os três guerreiros elementais que servem a Lo Pan lembram diretamente personagens como Raiden, com seus raios e visual baseado em deuses orientais. O próprio conceito de um torneio sobrenatural em um reino místico, onde heróis ocidentais enfrentam forças antigas e misteriosas, ecoa a narrativa do filme de Carpenter. Essa fusão entre culturas, ação exagerada e mitologia mística foi essencial para moldar a identidade única de Mortal Kombat desde seus primeiros pixels.

A ideia de adaptar ‘Mortal Kombat‘ para o cinema surgiu pouco tempo depois do estrondoso sucesso dos primeiros jogos da franquia, lançados entre 1992 e 1993. Criado por Ed Boon e John Tobias, Mortal Kombat se destacou nos fliperamas por seu visual realista com atores digitalizados, violência gráfica explícita e os infames fatalities, o que lhe rendeu tanto popularidade quanto controvérsia. O impacto cultural foi imediato, com filas em arcades, protestos de grupos conservadores e até mesmo discussões no Congresso dos Estados Unidos sobre a violência nos videogames.
Diante desse fenômeno, a produtora Threshold Entertainment, liderada por Larry Kasanoff — que havia trabalhado em ‘O Exterminador do Futuro 2‘ — viu ali uma oportunidade de transformar a franquia em um produto multimídia. Kasanoff adquiriu os direitos junto à Midway Games e convenceu os estúdios de que Mortal Kombat tinha potencial para ir além dos fliperamas, alcançando também o cinema, a televisão e o mercado de brinquedos.

Para dirigir a adaptação cinematográfica de ‘Mortal Kombat‘, a produção apostou em um nome ainda pouco conhecido: o britânico Paul W. S. Anderson, que havia chamado atenção com o thriller independente ‘Shopping: O Alvo do Crime‘ (1994). Apesar de inexperiente em grandes produções, Anderson demonstrava uma afinidade com temas sombrios e visuais estilizados, o que se alinhava com o universo do jogo. Com a pressão de manter a essência brutal de Mortal Kombat sem ultrapassar a censura PG-13 — visando atingir um público mais amplo —, o diretor optou por um tom mais aventuresco e místico, inspirado em filmes como ‘Operação Dragão‘ (1973) e ‘Indiana Jones‘.
Anderson evitou o uso excessivo de sangue e gore, mas preservou o espírito dos combates e a estética marcante dos personagens, equilibrando ação, fantasia e artes marciais. Essa abordagem permitiu que o filme agradasse tanto aos fãs quanto a um público mais geral, sem perder completamente a identidade da franquia. O diretor, é claro, voltaria anos depois ao universo das adaptações de games famosos cuidando da franquia ‘Resident Evil‘ nos cinemas.

O elenco de ‘Mortal Kombat‘ foi composto por rostos relativamente conhecidos da televisão e do cinema de ação da época, mas sem grandes estrelas de Hollywood — uma escolha que ajudou a manter o foco nos personagens e na fidelidade ao jogo. Robin Shou assumiu o papel de Liu Kang, o herói central da trama, trazendo carisma e autenticidade às cenas de luta graças à sua experiência em filmes de artes marciais em Hong Kong. Linden Ashby interpretou Johnny Cage com uma mistura de arrogância e humor, evocando a persona vaidosa do personagem nos jogos.
Já Bridgette Wilson, recém-saída do sucesso de ‘Billy Madison: Um Herdeiro Bobalhão‘ – filme que lançou a carreira de Adam Sandler nos cinemas, viveu a destemida Sonya Blade, assumindo o papel de última hora após a desistência de Cameron Diaz por conta de uma lesão (você sabia dessa?). O destaque do elenco ficou por conta de Cary-Hiroyuki Tagawa como o vilão Shang Tsung, cuja performance intensa e teatral ajudou a consolidar o personagem como um dos mais memoráveis do filme. Completando o núcleo central estavam Christopher Lambert, já consagrado por ‘Highlander: O Guerreiro Imortal‘, no papel do enigmático deus do trovão Raiden, e talentos como Talisa Soto (Kitana) e Trevor Goddard (Kano).

As filmagens de ‘Mortal Kombat‘ ocorreram em diversas locações, incluindo estúdios em Los Angeles e paisagens exóticas na Tailândia, que serviram como cenário para a ilha mística onde se desenrola o torneio. Apesar do orçamento relativamente modesto para um filme de ação com elementos fantásticos — cerca de US$18 milhões —, a produção soube tirar proveito dos recursos disponíveis. As coreografias de luta foram tratadas com seriedade e ensaiadas com dedicação, resultando em sequências fluidas e impactantes.
Os efeitos especiais, embora datados pelos padrões atuais, foram inovadores para a época, especialmente nas aparições das criaturas Goro — um animatrônico de quatro braços operado por vários técnicos — e Reptile, criado com tecnologia digital. Outro elemento decisivo para o sucesso do filme foi sua trilha sonora pulsante, que mesclava música eletrônica, techno e rock industrial. O tema principal, “Techno Syndrome”, da banda The Immortals, tornou-se instantaneamente associado à franquia, ajudando a criar uma atmosfera energética e marcante que se manteve viva por décadas.

A trama de Mortal Kombat gira em torno de um torneio ancestral e místico que decide o destino da Terra. De tempos em tempos, guerreiros escolhidos são convocados para lutar na Ilha de Shang Tsung, um feiticeiro poderoso que representa o sombrio reino de Outworld. Se Outworld vencer o torneio dez vezes seguidas, poderá invadir e dominar o planeta. Com nove vitórias acumuladas, a próxima disputa será decisiva para o futuro da humanidade. Para impedir que isso aconteça, três combatentes terráqueos embarcam na jornada: Liu Kang, um monge shaolin em busca de vingança pela morte de seu irmão; Sonya Blade, uma oficial das Forças Especiais que persegue o criminoso Kano; e Johnny Cage, um astro de filmes de ação desacreditado que quer provar seu valor como lutador de verdade.
Guiados pelo enigmático deus do trovão Raiden, os três heróis enfrentam desafios físicos e espirituais enquanto combatem os guerreiros de Outworld — entre eles, o ninja Sub-Zero, o assassino Scorpion, a princesa Kitana e o próprio Shang Tsung. À medida que o torneio avança, os protagonistas descobrem que suas motivações pessoais são pequenas diante da ameaça que paira sobre toda a humanidade. Com batalhas intensas, traições e lições de autoconhecimento, ‘Mortal Kombat‘ combina ação, fantasia e artes marciais em uma narrativa simples, porém eficiente, que honra as bases do jogo original enquanto adapta sua mitologia para o cinema de forma acessível ao grande público.

A recepção da crítica a ‘Mortal Kombat‘ foi mista, refletindo o desafio de equilibrar as expectativas dos fãs do jogo com o apelo ao público geral. Muitos críticos elogiaram as sequências de ação e as coreografias de luta, destacando a atmosfera estilizada e o ritmo ágil do filme. Cary-Hiroyuki Tagawa, como Shang Tsung, foi amplamente reconhecido por sua atuação marcante, que conferiu ao vilão uma presença memorável. No entanto, o roteiro foi frequentemente apontado como simplista e os diálogos, por vezes, caricatos, o que limitava a profundidade dramática da trama. Além disso, alguns críticos sentiram falta de uma maior fidelidade ao tom mais sombrio e violento dos jogos. Ainda assim, o filme conseguiu conquistar um público fiel e se tornou uma referência cult dentro das adaptações de videogames, especialmente por capturar a essência visual e a energia que tornaram Mortal Kombat um fenômeno nos arcades.

Embora a crítica tenha sido dividida, a recepção dos fãs de ‘Mortal Kombat‘ foi, em sua maioria, positiva. Muitos apreciaram o esforço do filme em trazer para as telas a atmosfera e os personagens icônicos do jogo, especialmente em uma época em que adaptações de videogames raramente agradavam aos jogadores. A fidelidade visual, as cenas de luta coreografadas e o carisma do elenco conquistaram o público fiel da franquia, transformando o longa em um sucesso cult.
Comercialmente, ‘Mortal Kombat‘ superou as expectativas. Em seu fim de semana de estreia no dia 18 de agosto de 1995, o longa ficou com o topo do ranking das maiores bilheterias, em primeiro lugar com US$23 milhões. E assim permaneceu por mais dois fins de semana, não dando chance para filmes como ‘A Balada do Pistoleiro‘, com Antonio Banderas, e o terror baseado em Clive Barker ‘O Mestre das Ilusões‘. O filme arrecadou cerca de US$122 milhões mundialmente — um desempenho expressivo para um filme com orçamento modesto de aproximadamente US$18 milhões. O sucesso nas bilheterias garantiu a produção de uma sequência em 1997, além de solidificar a marca como um importante fenômeno pop dos anos 90, influenciando outras produções e mantendo vivo o interesse pela franquia em múltiplas mídias.
