Fernando Meirelles e estrelas de Hollywood assinam carta contra “silêncio” de Festival de Berlim sobre Gaza

O cineasta brasileiro Fernando Meirelles (‘Cidade de Deus’) e os astros internacionais Mark Ruffalo e Tilda Swinton estão entre os 92 signatários de uma carta aberta que sacudiu o Festival de Berlim (Berlinale) em fevereiro de 2026.

Conforme a Variety, o documento condena o que classificam como “silêncio” da instituição em relação ao conflito em Gaza e denuncia a suposta censura a artistas que se manifestaram sobre o tema.

A crise institucional foi deflagrada após declarações do presidente do júri, Wim Wenders, que afirmou que o cinema deveria “se manter fora da política”. Os signatários rebateram veementemente: “Não se pode separar uma coisa da outra”.

O documenta cita a recusa de mais de 5.000 profissionais do cinema, incluindo nomes importantes de Hollywood, em trabalhar com empresas e instituições cinematográficas israelenses consideradas cúmplices.

A carta destaca o contraste com edições anteriores, nas quais a Berlinale emitiu declarações claras sobre atrocidades no Irã e na Ucrânia.

“Conclamamos a Berlinale a cumprir seu dever moral e declarar claramente sua oposição ao genocídio de Israel, aos crimes contra a humanidade e aos crimes de guerra contra os palestinos, e a encerrar completamente qualquer envolvimento na proteção de Israel contra críticas e pedidos de responsabilização”, conclui a carta.

O grupo exige que o festival declare oposição ao que chamam de crimes de guerra contra os palestinos e interrompa o financiamento e a proteção institucional a entidades israelenses consideradas cúmplices.

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A diretora do festival, Tricia Tuttle, tentou conter a repercussão afirmando que artistas não devem ser cobrados por debates políticos complexos sobre os quais não têm controle.

Confira a carta e siga o CinePOP no Youtube:

“Escrevemos como trabalhadores do cinema, todos nós participantes atuais e anteriores da Berlinale, que esperamos que as instituições do nosso setor se recusem a ser cúmplices da terrível violência que continua a ser perpetrada contra os palestinos. Estamos consternados com o envolvimento da Berlinale na censura a artistas que se opõem ao genocídio contínuo de Israel contra os palestinos em Gaza e ao papel fundamental do Estado alemão em possibilitá-lo. Como declarou o Instituto de Cinema da Palestina, o festival tem estado ‘policiando cineastas ao mesmo tempo em que mantém o compromisso contínuo de colaborar com a Polícia Federal em suas investigações’.

No ano passado, cineastas que se manifestaram em defesa da vida e da liberdade do povo palestino a partir do palco da Berlinale relataram ter sido duramente repreendidos por programadores seniores do festival. Foi divulgado que um cineasta teria sido investigado pela polícia, e a liderança da Berlinale insinuou falsamente que o discurso emocionante do artista, fundamentado no direito internacional e na solidariedade, era ‘discriminatório’. Como outro cineasta relatou ao Film Workers for Palestine sobre a edição do ano passado: ‘havia uma sensação de paranoia no ar, de não estar protegido e de estar sendo perseguido, algo que eu nunca havia sentido antes em um festival de cinema’. Estamos ao lado de nossos colegas ao rejeitar essa repressão institucional e o racismo anti-palestino.

Discordamos veementemente da declaração feita pelo presidente do júri da Berlinale 2026, Wim Wenders, de que o cinema é ‘o oposto da política’. Não se pode separar uma coisa da outra. Estamos profundamente preocupados com o fato de a Berlinale, financiada pelo Estado alemão, estar ajudando a colocar em prática o que Irene Khan, Relatora Especial da ONU para a Liberdade de Expressão e Opinião, recentemente condenou como o uso indevido, por parte da Alemanha, de legislação draconiana ‘para restringir a defesa dos direitos palestinos, esfriando a participação pública e encolhendo o debate na academia e nas artes’. Isso também é o que Ai Weiwei descreveu recentemente como a Alemanha ‘fazendo o que fez nos anos 1930’ (concordando com seu entrevistador que sugeriu que ‘é o mesmo impulso fascista, apenas com um alvo diferente’). Tudo isso em um momento em que estamos tomando conhecimento de novos e horríveis detalhes sobre os 2.842 palestinos ‘evaporados’ pelas forças israelenses com o uso de armas térmicas e termobáricas fabricadas nos EUA e proibidas internacionalmente. Apesar das abundantes evidências da intenção genocida de Israel, de crimes sistemáticos de atrocidade e de limpeza étnica, a Alemanha continua a fornecer a Israel armas utilizadas para exterminar palestinos em Gaza.

A maré está mudando no mundo internacional do cinema. Muitos festivais internacionais endossaram o boicote cultural a Israel sob regime de apartheid, incluindo o Festival Internacional de Documentários de Amsterdã, o maior do mundo, bem como o BlackStar Film Festival, nos EUA, e o Film Fest Gent, o maior da Bélgica. Mais de 5.000 profissionais do cinema, incluindo figuras de destaque de Hollywood e do cenário internacional, também anunciaram sua recusa em trabalhar com empresas e instituições cinematográficas israelenses consideradas cúmplices.

Ainda assim, a Berlinale até o momento sequer atendeu às demandas de sua comunidade para emitir uma declaração que afirme o direito palestino à vida, dignidade e liberdade; condene o genocídio israelense em curso contra os palestinos; e se comprometa a defender o direito dos artistas de se manifestarem sem restrições em apoio aos direitos humanos palestinos. Esse é o mínimo que pode, e deve, fazer.

Como afirmou o Instituto de Cinema da Palestina, ‘estamos estarrecidos com o silêncio institucional da Berlinale diante do genocídio do povo palestino e com sua relutância em defender as liberdades de expressão e de fala dos cineastas’. Assim como o festival fez declarações claras no passado sobre atrocidades cometidas contra pessoas no Irã e na Ucrânia, conclamamos a Berlinale a cumprir seu dever moral e declarar claramente sua oposição ao genocídio de Israel, aos crimes contra a humanidade e aos crimes de guerra contra os palestinos, além de encerrar completamente seu envolvimento em proteger Israel de críticas e de pedidos de responsabilização”.

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