A REDE ANTI-SOCIAL

De todos os filmes loucos do diretor Terry Gilliam (O Mundo Imaginário do Doutor Parnassus), The Zero Theorem pode muito bem ser considerado o mais louco de todos. Gilliam começou a carreira como parte da trupe britânica do Monty Python, e chegou inclusive a dirigir Em Busca do Cálice Sagrado (1975) e parte de O Sentido da Vida (1983), filmes do grupo. O diretor se tornou também o talento mais proeminente dos amigos de Python, atrás das câmeras. Em seu currículo estão obras cultuadas como Brazil – O Filme, Os Doze Macacos e Medo e Delírio. Estreando no Festival de Veneza, o novo trabalho de Gilliam chega ao Festival do Rio 2013, sem passar por muitos lugares antes.

Na trama, passada no futuro, temos o protagonista vivido por Christoph Waltz (vencedor do Oscar passado por Django Livre), um sujeito recluso, que mora numa igreja abandonada. Ele trabalha para uma grande empresa, como uma espécie de analista. Sua função é conseguir achar o tal teorema zero do título, para isso o protagonista passa os seus dias alinhando fórmulas matemáticas em seu computador, no trabalho e em casa. Para operar o programa o personagem usa um joystick de vídeo game (um dos adereços que parecem deslocados e forçados dentro da direção de arte do filme).

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O visual chamativo e fantástico é uma das marcas registradas do diretor, e seu futuro distópico e totalitário, de filmes como Doze Macacos e Brazil, marca presença aqui também. De todos os filmes do cineasta, Zero Theorem mais se assemelha ao citado Brazil – O Filme, que trazia o homem comum, burocrata de plantão, vivido por Jonathan Pryce (G.I. Joe 2 – Retaliação), envolvido na teia do sistema de um mundo no qual não achava que pertencia. O mesmo ocorre com Qohen Leth (Waltz). Mas enquanto Pryce era um apático sujeito ordinário, Waltz é por si só tão desequilibrado e excêntrico quanto o seu admirável mundo novo.



O sujeito sem nenhum pelo no corpo, o que inclui cabelo e sobrancelha, acredita que está morrendo, sem nenhum motivo aparente. Ele vive esperando por uma ligação que irá revelar seu verdadeiro propósito no mundo, além de sempre se referir a si mesmo no plural. Todas essas esquisitices em sua personalidade soam como artifício não genuíno, já que são esquecidas durante o percurso, como uma ideia abandonada. O protagonista possui um chefe inconveniente, vivido por David Thewlis (Red 2), que cisma de trocar seu nome, e insistir em uma socialização chamando-o para festas e jantares. Leth também conhece uma prostituta interpretada pela francesa Mélanie Thierry (Missão Babilônia), o brilho da obra.

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Matt Damon (Terra Prometida) aparece de cabelos brancos como uma figura oracular, dono da grande empresa para a qual o protagonista trabalha. Zero Theorem, além de todas as entrelinhas filosóficas colocadas por Gilliam para serem esmiuçadas pelos interessados, fala sobre o distanciamento e anti-socialização real providos pela modernidade e informatização. Um tema um tanto quanto passado, aqui retratado de forma inusitada, visual, e como de costume, alucinógena pelo diretor. O que o novo trabalho de Gilliam carece em relação aos seus outros projetos futuristas caóticos é a diversão, e um senso de entretenimento.

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A melancolia está lá. E tudo o que diz respeito ao medo de seu próprio mundo. No entanto, os poucos momentos de descontração são incluídos apenas com a presença de Thierry, que demonstra muito talento e aptidão para encarar tudo o que Gilliam joga em direção a ela. A jovem de 32 anos se revela à altura do desafio desse tour de force. Já o protagonista Waltz parece, na maioria de suas cenas, desconfortável e perdido. É como se, assim como alguns trejeitos característicos de seu personagem, o ator tivesse perdido a empolgação pelo trabalho durante o percurso da produção.



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