segunda-feira, fevereiro 2, 2026

Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal | Conheça as histórias da vida real que inspiraram o filme

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Lançado há cerca de 18 anos, Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal chegou às telonas com a promessa de dar um fim definitivo à franquia do aventureiro mais famoso dos cinemas. O problema é que, para muitos, o final do terceiro filme, lançado em 1989, já era o fim perfeito para o personagem. Afinal, como superar uma conclusão de saga que termina com pai, filho e melhor amigo cavalgando rumo ao pôr-do-sol?

No fim das contas, o longa estreou já com uma certa má vontade do público, e o resultado passou longe do esperado por Steven Spielberg e Harrison Ford, que retornaram à franquia após quase 20 anos. Dentre as maiores reclamações dos fãs, a introdução dos elementos alienígenas e Mutt, o personagem de Shia LaBeouf, se destacaram.

O mais interessante é que esses elementos alienígenas, que foram tão criticados, foram inspirados em histórias que permearam o mundo da arqueologia por ano. A começar pela Caveira de Cristal, que dá nome ao filme.



Entre os séculos XIX e XX, diversos exploradores, arqueólogos e aventureiros alegaram ter encontrado crânios de cristal que datavam da época pré-colombiana. Posteriormente, com a tecnologia dos anos 2000, diferentes museus da Europa avaliaram essas caveiras de quartzo e chegaram à conclusão de que foram feitas com maquinários de joalheria, que só foram desenvolvidos a partir do século XIX. Ou seja, eram artefatos forjados.

O caso mais famoso, porém, é a caveira de Mitchell-Hedges, que chega a ser citada no filme. Segundo a lenda, Anna Mitchell-Hedges [mostrada nesta foto, cortesia de Bill Homann] – filha adotiva de Frederick Albert Mitchell-Hedges, um aventureiro e autor britânico – alegadamente encontrou uma caveira feita de cristal sob as ruínas do altar de um templo em Belize. No entanto, nenhum registro arqueológico da suposta expedição foi realizado.

Fato é que ela aproveitou-se da lenda envolvendo as caveiras de cristal ancestrais para excursionar com a peça pelo mundo. Por onde ia, cobrava entrada para que as pessoas pudessem ver o suposto artefato e se fascinassem com as histórias sobre suas alegadas habilidades sobrenaturais, que teria sido descrita por antigos textos indígenas. Para colaborar com as histórias, um restaurador de arte renomado fez um estudo e afirmou que não havia marcas de ferramentas na caveira. Ou seja, o crânio não teria sido feito por mãos humanas. A história chegou a publicitários, que inseriram a caveira em histórias, anúncios e matérias de revistas, fazendo dela um grande – e rentável – mistério da humanidade na época.

Durante suas exposições e entrevistas, Anna afirmou que a caveira de cristal era capaz de projetar visões do futuro na mente de quem a encarasse – ela chegou a alegar ter previsto o assassinato de John F. Kennedy por conta do artefato -, assim como seria capaz de matar pessoas e até mesmo curar o câncer.

A ideia estranha da caveira não ter sido esculpida por mãos humanas levou Steven Spielberg a um conspiratório caso famosíssimo da história americana: o Caso Roswell. Incidente mais famoso da ufologia [pseudociência que investiga aparições alienígenas] mundial, esse caso data de julho de 1947, quando os Estados Unidos viviam uma “epidemia” de supostos avistamentos de objetos voadores não identificados.

Nesse contexto, a Base Aérea de Roswell, no Novo México, emitiu um comunicado à imprensa afirmando ter encontrado um “disco voador”. A afirmação rendeu manchetes, que instigaram a curiosidade e o pânico. Não demorou para que o exército emitisse outro comunicado afirmando ter cometido um equívoco, que a tal peça apreendida era apenas um balão meteorológico.

Os anos foram se passando e a história virou queridinha da ufologia, com todo um “turismo alienígena” desenvolvido na cidade. A cada nova publicação, os ufólogos afirmavam que era um caso do governo americano escondendo alienígenas. A repercussão foi tanta que, na década de 1990, o governo dos EUA emitiu um novo comunicado sobre o incidente, revelando ao mundo um projeto ultrassecreto de espionagem que testava balões de grande altitude para tentar identificar possíveis explosões nucleares da União Soviética: o Projeto Mogul. Segundo o comunicado, os possíveis corpos alienígenas vistos eram nada mais, nada menos que bonecos de teste de uma experimentação fracassada.

No fim das contas, o Caso Roswell mexeu tanto com a imaginação popular que acabou ganhando esse status de mito moderno. Então, Spielberg não resistiu e mesclou o Caso Roswell – e suas motivações contra a URSS – com a Caveira de Cristal – que tinham um formato diferente – para dar início a essa trama do governo estar escondendo esses artefatos alienígenas na Área 51.

Mas não parou por aí. O clímax do filme é ambientado na Amazônia, em uma cidade ancestral perdida chamada Akator. E isso não foi tirado do nada. Spielberg se inspirou na lenda de Akakor, um dos casos mais famosos da arqueologia e literatura fantasiosa de todos os tempos. Na década de 1970, o livro A Crônica de Akakor foi um best-seller. Escrito pelo jornalista alemão Karl Brugger, o livro relatava seu encontro com uma liderança indígena chamada Tatunca Nara, que seria o último representante de uma ordem capaz de guiar as pessoas a uma lendária cidade perdida no coração da Amazônia chamada Akakor.

De acordo com a história, a cidade era toda feita de ouro e estava conectada por túneis subterrâneos e aquedutos, além de outras tecnologias bastante avançadas e até mesmo pirâmides incas. Mais do que isso, a cidade teria sido encontrada por soldados da Alemanha nazista, mexendo ainda mais com o caráter conspiratório da situação. E aí entra a parte curiosa disso tudo. Tatunca Nara existe mesmo e está vivo até hoje. Ele vive no Amazonas, mas sequer é brasileiro de nascença. Ele se chama Günther Hauck, nasceu na Alemanha e deixou o país na década de 1960, quando enfrentava gravíssimos problemas financeiros. No Brasil, passou a trabalhar como guia de turismo na floresta amazônica, onde guiava europeus em busca de supostas pirâmides incas.

Karl Brugger e Tatunca Nara em um barco no rio Amazonas. Foto: Arquivo/Amazônia Latitude.

A história ficou muito popular, fazendo com que diversos exploradores zarpassem rumo à Amazônia em busca da tal cidade dourada. Nessas jornadas, alguns desapareceram para sempre. Contribuindo ainda mais com a lenda de Akakor e todo o cenário conspiratório dessa trama, Brugger foi assassinado na praia de Ipanema, no Rio de Janeiro, durante a década de 1980. Em meio à ditadura militar, a morte – ele foi morto a tiros – nunca foi esclarecida, fazendo que seu assassinato ganhasse ares de “queima de arquivo”.

Fato é que Tatunca Nara viu as explorações aumentarem na região amazônica, onde ele lucrava como guia de turismo. Claro que ele nunca guiou ninguém até essa suposta cidade dourada, que foi inspirada na lenda de Eldorado, e sempre arrumava desculpas.

Juntando essas três lendas, a equipe criativa de Steven Spielberg construiu a história de uma cidade perdida construída por alienígenas interdimensionais, que aguardavam o retorno de uma caveira de cristal roubada por colonizadores para deixarem a Terra e retornarem para sua dimensão.

É um dos casos mais divertidos de criatividade pura em longas de aventura, protagonizada apenas pelo pai da aventura nos cinemas. Ainda assim, o maior mistério desse filme segue na localização das Cataratas do Iguaçu, que aparecem milagrosamente na floresta amazônica.

Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal está disponível no Paramount+.

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Pedro Sobreiro
Jornalista apaixonado por entretenimento, com passagens por sites, revistas e emissoras como repórter, crítico e produtor.

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