O aclamado diretor James Cameron não poupou críticas ao filme ‘Oppenheimer‘, de Christopher Nolan, durante entrevista ao Deadline. Em sua fala, o cineasta de ‘Titanic‘ e ‘Avatar‘ classificou como “covarde” a decisão de não mostrar os efeitos reais e humanos da bomba atômica lançada sobre Hiroshima.
“Sim, é interessante o que ele evitou. Olha, eu adoro a direção do filme, mas senti que foi um pouco uma desculpa moral. Porque não é como se Oppenheimer não conhecesse os efeitos”, declarou Cameron, destacando que o físico J. Robert Oppenheimer tinha plena consciência das consequências devastadoras de sua invenção.
O cineasta foi ainda mais além, ponderando que o filme apenas pincela nas consequências reais da bomba atômica:
“Ele tem uma breve cena no filme em que vemos — e eu não gosto de criticar o filme de outro cineasta — mas há apenas um breve momento em que ele vê alguns corpos carbonizados na plateia, e então o filme continua mostrando como isso o comoveu profundamente. Mas eu senti que ele fugiu do assunto.”
Cameron, que está preparando seu próprio longa sobre os impactos da bomba atômica sob o título ‘Ghosts of Hiroshima‘, lamentou que o projeto de Nolan não tenha aprofundado a perspectiva das vítimas japonesas.
“Não sei se o estúdio ou o Chris acharam que isso era um problema que eles não queriam abordar, mas eu quero ir direto ao ponto”, afirmou.
Lançado em 2023 e vencedor de sete Oscars, incluindo Melhor Filme e Melhor Direção, ‘Oppenheimer‘ é um mergulho psicológico na trajetória de J. Robert Oppenheimer, físico responsável por liderar o Projeto Manhattan, que desenvolveu a primeira arma nuclear durante a Segunda Guerra Mundial. Com estrutura narrativa não linear, uso de IMAX e efeitos práticos, o filme é um retrato técnico e emocional do cientista, com destaque para a atuação de Cillian Murphy no papel principal.
Apesar de aclamado pela crítica e pelo público, o longa também foi alvo de debates por omitir os horrores enfrentados pela população de Hiroshima e Nagasaki. Para Cameron, essa ausência representa uma lacuna significativa.
“Os responsáveis pelo poder atômico precisam ser confrontados com a devastação que causaram. Não dá para falar da bomba sem mostrar quem realmente pagou o preço”, afirmou o diretor.
Cameron revelou em entrevista ao Deadline que assumiu o compromisso em leito de morte com um dos últimos sobreviventes das explosões nucleares em Hiroshima e Nagasaki: levar às telas uma história que mostre os horrores vividos pelas vítimas, a partir de sua perspectiva — algo raramente abordado pelo cinema ocidental.
“Esse é um projeto que vou fazer porque prometi. Não é sobre orçamentos ou bilheteria. É sobre respeito, memória e verdade,” disse Cameron.
Diferente de ‘Oppenheimer‘, sucesso de bilheteria e crítica dirigido por Christopher Nolan que focou no criador da bomba, ‘Ghosts of Hiroshima‘ mostrará o impacto direto e humano das explosões, que deixaram mais de 250 mil mortos — muitos deles ao longo de décadas, devido aos efeitos da radiação.
O filme será produzido em paralelo à franquia ‘Avatar‘, com o próximo longa já marcado para 19 de dezembro. Cameron afirma estar pronto para continuar com os filmes de Pandora, mas sabe que o público pode se cansar. Para ele, essa nova obra representa algo diferente: um legado.
“’Avatar‘ é entretenimento com mensagem. ‘Ghosts of Hiroshima‘ é uma missão. Uma promessa.”
O livro de Charles Pellegrino, que servirá como base para o filme, é publicado pela Blackstone Publishing em parceria com a The Story Factory. O audiobook será narrado por Martin Sheen, reforçando o peso do material.
Ainda sem data de estreia, ‘Ghosts of Hiroshima‘ entra em produção após o lançamento de ‘Avatar 3‘. Cameron já iniciou o desenvolvimento visual e está reunindo equipe técnica e elenco para o longa. A expectativa é que seja filmado com o mesmo rigor técnico de suas superproduções — mas com o peso emocional de um registro histórico.
Se com ‘Titanic‘ James Cameron levou o público às profundezas do Atlântico, com ‘Ghosts of Hiroshima‘ ele parece pronto para nos levar ao epicentro da dor da humanidade. E cumprir uma promessa que, para ele, é mais importante que qualquer recorde de bilheteria.
