Memórias de um Caracol: 5 razões para se emocionar com o novo filme de Adam Elliot

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DestaqueMemórias de um Caracol: 5 razões para se emocionar com o novo filme de Adam Elliot

Após um hiato de mais de dez anos, o aclamado diretor australiano Adam Elliot retorna com força total em Memórias de um Caracol, seu mais novo longa-metragem em stop-motion. Conhecido mundialmente por Mary e Max – Uma amizade diferente (2009), Elliot reafirma sua maestria na técnica e na construção de narrativas delicadas, com humor ácido e forte carga emocional.

Desde sua première mundial no 48° Festival de Animação de Annecy, a obra encantou plateias e críticos — são 95% de aprovação no Rotten Tomatoes, com base em 140 críticas. Em junho do ano passado, o longa teve todas as sessões esgotadas em Annecy, onde saiu consagrado com o principal prêmio, o prestigiado Cristal. Indicado ao Globo de Ouro e ao Oscar 2025, Memórias de um Caracol finalmente estreia nas salas de cinema do Brasil nesta quinta-feira, 5 de junho. E aqui vão cinco boas razões para você garantir o seu ingresso.

1. Um trabalho primoroso de stop-motion

Não é todo dia que vemos uma animação com tanto cuidado artesanal. A técnica de stop-motion, que exige uma paciência quase inumana, ganha vida com detalhes minuciosos e texturas palpáveis. Na première mundial em Annecy, Adam Elliot compartilhou curiosidades deliciosas dos bastidores — como o uso de litros de lubrificante para criar as lágrimas dos personagens e papel celofane para animar o fogo. Cada sequência é como admirar uma escultura em movimento.

 

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2. A narração de Grace

Aqui temos dois méritos em um: o roteiro brilhante de Elliot, que mistura humor soturno a momentos de emoção genuína, e a performance tocante da narradora. A voz da atriz Sarah Snook (da série Succession) se encaixa perfeitamente no tom sereno e reflexivo de Grace, a personagem principal — que, como um verdadeiro caracol, é morosa, mas carrega uma carapaça emocional robusta para sobreviver às pancadas da vida.

3. A metáfora do caracol

Assim como nas fábulas clássicas que nos ensinam desde pequenos, Memórias de um Caracol constrói uma poderosa metáfora sobre resiliência e aceitação em torno da protagonista Grace (Sarah Snook) e sua relação com Sylvia, sua companheira caracol. A narrativa é um desfile de momentos contemplativos, porém marcantes — recheados de lirismo, ironia e ternura. É uma metáfora da fragilidade do molusco diante do tempo e de sua resistência frente às intempéries por conta da sua carapaça, enquanto questiona sua real liberdade. É impossível, portanto, sair indiferente de uma sessão. 

4. Quebra de padrões e preconceitos

A representatividade é uma marca registrada nas obras de Adam Elliot, e neste filme não é diferente. A trama abraça personagens que fogem do padrão audiovisual: um patriarca cadeirante, uma idosa com Alzheimer, irmãos órfãos lidando com depressão e exclusão social. Em vez de tratar esses temas com pena ou didatismo, o filme os incorpora com naturalidade, humanidade e dignidade. Mesmo os acontecimentos mais descompassados soam totalmente plausíveis, assim como os imperdíveis curtas do cineasta australiano: Harvie Krumpet (2003) e Ernie Biscuit (2015), disponíveis no YouTube.

5. Aprendizados para a vida

Memórias de um Caracol te faz sair do cinema com o coração apertado e a cabeça cheia. Você já se perguntou o que realmente te motiva a continuar, mesmo quando tudo parece dar errado? O filme questiona o sentido do trabalho, da realização pessoal e da herança emocional que carregamos. Os irmãos Grace e Gilbert (Kodi Smit-McPhee) nos mostram que, mesmo em tarefas monótonas como etiquetar maçãs ou cuidar de uma biblioteca, é possível encontrar sentido em prosseguir sua jornada  — especialmente quando se cruza com pessoas que mudam sua visão de mundo, como a idosa Picky (Jacki Weaver). 

Bônus: Ler é o melhor remédio

Entre romances clássicos como O Senhor das Moscas, de William Golding, e O Diário de Anne Frank até livros de autoajuda e folhetins de banca, Grace e Gilbert encontram na leitura um respiro diante da realidade dura, mesmo nos momentos de migalhas para comer e perdas irreparáveis. A literatura funcionava como fuga, consolo e guia — um lembrete sutil, mas poderoso, de que histórias — como esta — podem transformar vidas.

Letícia Alassë
Letícia Alassë
Crítica de Cinema desde 2012, jornalista e pesquisadora sobre comunicação, cultura e psicanálise. Mestre em Cultura e Comunicação pela Universidade Paris VIII, na França e membro da Abraccine, Fipresci e votante internacional do Globo de Ouro. Nascida no Rio de Janeiro, mas desde 2019, residente em Paris, é apaixonada por explorar o mundo tanto geograficamente quanto diante da tela.

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