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Music | Os 25 anos de um dos capítulos mais IMPORTANTES da carreira de Madonna


Madonna sempre seguiu suas próprias regras.

Desde sua estreia no cenário fonográfico em 1983 com um memorável compilado homônimo até os dias de hoje, a rainha do pop não tem essa alcunha por qualquer motivo – e merecidamente o merece por estar a um passo do que a indústria fonográfica mainstream resolve explorar com artistas que surgem e desvanecem ano a ano. E, após ter abalado as estruturas do cenário musical com Ray of Light em 1998, tornando-se uma das responsáveis pela popularização da música eletrônica nos Estados Unidos e no Canadá, ela tomou um breve tempo para si mesma antes de seguir adiante com sua próxima era.

Em 2000, a cantora e compositora adotou uma nova persona e trouxe uma estética country para promover seu oitavo álbum de estúdio: Music apresentou uma faceta diferente das profundas e críticas investidas que Madonna havia nos apresentado com outras obras e apostou em uma espécie de hedonismo sonoro e bastante convidativo – e que, de certa maneira, a ajudaria a trilhar caminho para o epopeico e irretocável ‘Confessions on a Dance Floor’, lançado cinco anos mais tarde. Unindo-se a nomes como William Orbit, Mirwais Ahmadzaï e Talvin Singh, a performer explorou inúmeros gêneros para arquitetar uma “colcha de retalhos” prazerosa, ainda que não livre de erros óbvios e repetições cansativas.



Lançado há duas décadas e meia, a sonoridade do álbum permanece atual de maneira emblemática, promovendo um encontro entre estilos que, na virada do século, não estavam muito em alta. Afinal, Madonna, aos quarenta e dois anos, começava a sentir o agridoce sabor do etarismo feminino na indústria do entretenimento em meio a inúmeras mudanças: de um lado, a ascensão de Britney Spears e Christina Aguilera como ícones do teen-pop; de outro, a fama irrefreável de boy bands como Backstreet Boys e ‘N SYNC; e, para completar, atos artísticos como TLC e Destiny’s Child abriam espaço para a circulação do R&B e do rap. Então, como se manter viva em meio a uma profusão cataclísmica de eventos que dominavam o mundo da música?

A resposta estava em si mesma. Ora, se Madonna esquadrinhou os gêneros que trouxe da Europa e do Oriente Médio em sua construção predecessora, poderia se divertir com estilos que estavam fora do radar da época – como o dance, o electro-pop, a folktronica, o electro-country e até mesmo flertes com o pop-punk e o punk-rock (ainda que diminuídos em escala). O resultado não poderia ter sido diferente: além da sólida recepção crítica, Music estreou em primeiro lugar em dezenas de países e vendendo impressionantes 4 milhões de cópias em seus primeiros dez dias. Contando com ótimos singles e algumas gemas subestimadas da carreira da artista, o compilado conquistou cinco indicações ao Grammy Awards e voltou a reafirmar a capacidade incontestável de Madonna se reinventar quando bem quisesse.

Ao longo de dez faixas (onze, se contarmos a esquecível releitura de “American Pie”), a rainha do pop é envolvida em toques sintéticos e transformada em uma robótica entidade cuja missão na terra é levar seus fãs para um mundo único – em algo que se correlaciona, de certa maneira, com a PC music que artistas como Charli XCX e A.G. Cook utilizariam mais tarde. Da mesma forma que deixa de levar para esses conceitos apocalípticos (no melhor sentido da palavra, diga-se de passagem), Madonna aposta fichas em uma celebração do prazer e do momento como ele é, maximizando o que pode – por mais que certas incursões se rendam a uma demasia teatral exagerada demais para trazerem sentido aos ouvintes.

Para além da faixa-título, lançada como lead single da produção, outros destaques do álbum merecem menção. Enquanto algumas tracks parecem fora do tom, como se vários fragmentos independentes entre si se misturassem em conflito bélico, outras posam como mágica: “Don’t Tell Me”, por exemplo, é a representação máxima daquilo que se esperava de uma A-list como Madonna, nos mostrando a perfeita fusão entre o trip-hop e o country; “What It Feels Like a Girl”, provavelmente uma das melhores músicas de sua carreira, vem acompanhada da surda presença de sintetizadores de uma bateria que relembra o onirismo de True Blue e que até busca algumas referências do final dos anos 1990, irrompendo como uma sinestésica semibalada que é temperada com os acordes acústicos do guitarrista David Torn.

Por mais que não atinja o mesmo nível artístico de obras como Ray of Light, ‘Like a Prayer’ e ‘Confessions on a Dance Floor’, Music se sagra como um dos capítulos mais importantes da carreira de Madonna ao ser responsável por mostrar que, mesmo competindo com novos nomes no cenário fonográfico, a icônica musicista conseguia acompanhar as pulsões do mainstream sem se render a ele. Apostando fichas no hedonismo como força-motriz e “mote defensivo”, o vigésimo quinto aniversário do álbum é essencial para nos lembrarmos de seu legado e de seu impacto.

Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.
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