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No Rio, Rodrigo Santoro explica fatores que o atraem na hora de escolher personagens


Nesta quinta-feira (2), a Petrobras promoveu um debate sobre os últimos 30 anos do cinema brasileiro, que contaram com o patrocínio da petrolífera. Coincidentemente, é o mesmo período que marca o movimento chamado de “retomada” do cinema nacional, que encantou o mundo com obras como Carlota Joaquina, Princesa do Brazil (1995), O Quatrilho (1995), Cidade de Deus (2002), Carandiru: O Filme (2003), e mais recentemente Aquarius (2016) e Bacurau (2019).

Realizado na Cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM-RJ), o debate contou com as participações do ator Rodrigo Santoro, do produtor Flávio
Tambellini, que está em cartaz nos cinemas com O Malês, da diretora da Vitrine Filmes, Silvia Cruz, que está distribuindo O Agente Secreto, e do gerente de patrocínios culturais da Petrobras, Milton Bittencourt. Ele foi mediado pela cineasta Marina Person.

Felipe Gaspar/ Petrobras

O grande destaque do debate foi o astro Rodrigo Santoro, que viu o pai, Francesco, ser homenageado pelos ex-companheiros da Petrobras. Dentre tantos temas, ele abordou uma questão bastante interessante: o que o atrai na hora de escolher os projetos que embarca nos cinemas.



“O critério não é um protocolo. Por exemplo, vou pegar ‘O Bicho de Sete Cabeças‘, que teve patrocínio da Petrobras. Eu começo minha história no cinema com um filme que debate uma temática extremamente relevante, que é a saúde mental. Inclusive, foi sancionada uma lei depois do filme, a Lei Antimanicomial, que abordava a situação dessas instituições, como elas estavam no país. Foi uma crítica social, uma denúncia. E essa foi minha entrada no cinema. E as temáticas sempre foram importantes para mim, vide ‘Carandiru‘, sobre o massacre nos presídios, ‘7 Prisioneiros‘, que aborda a escravidão, ‘O Tradutor‘, que fala de uma série de coisas fundamentais e urgentes. Enfim, isso sempre me guia, sempre me guiou e continuará me guiando. Em O Último Azul a gente debate, entre outros temas, o etarismo… As questões, as temáticas sempre foram muito importantes”, disse Rodrigo.

Ele também explicou que o caminho natural para se interessar por um filme é a variedade dos personagens, e como eles podem ajudá-lo a nível pessoal.

“Naturalmente, minha conexão mais direta é com o personagem. O que eu sempre procurei fazer foi buscar um caminho de diversidade dos personagens, em que eu pudesse me aproximar cada vez mais de realidades distantes da minha. Isso eu acho enriquecedor, que expande meu olhar, me amadurece, me humaniza, descontrói meus julgamentos e pré-conceitos em relação às coisas. Sempre busco coisas que eu não tenha feito ainda, porque, nesse processo, eu aprendo muito. E vou dando um update na versão do Rodrigo. E isso é muito importante, porque as ferramentas de trabalho do artista são o próprio corpo, as próprias emoções. E é um trabalho muito delicado, porque você mexe com a sua psique, ainda mais se você realmente mergulha fundo, vai distante. Você acaba visitando lugares em você mesmo que, se você não mexer você mesmo, elas vão ficar ali. Através do meu trabalho, de certa forma, eu trabalho as minhas próprias questões, e acho isso riquíssimo. Talvez a grande paixão que eu sinta pelo que faço venha justamente disso, porque eu quero buscar alguma coisa que esteja distante de mim. Para isso, preciso me humanizar para evitar caricaturas, e preciso me aproximar desse universo e suspender o tal do pré-conceito. Você ‘veste o sapato’ da pessoa, caminha por um mês e só aí você vai ter algum entendimento de quem é aquela pessoa. E isso eu aprendi muito cedo no trabalho, essa importância de relativizar visões. Vamos olhar de vários lugares e vamos tentar retratar como o personagem enxerga, senão você faz um gestual, uma voz que não combina… E eu não acredito em fórmula para arte. Então, se para você funciona segurar um bicho de pelúcia antes de entrar em cena para ter confiança, tá tudo bem. Se a entrega na arte está boa, é ótimo. Tem os atores de método, tem quem prefira fazer o trabalho num take só… E eu respeito todas as formas, porque não existe uma fórmula certa para arte. O importante é você ter acesso ao seu interior para poder externalizar as emoções e SEMPRE humanizar. Por isso que gosto de personagens diferentes, porque me expandem internamente. Isso me interessa muito”, explicou Santoro.

Felipe Gaspar/ Petrobras

Por fim, Rodrigo Santoro apontou algo que pode passar despercebido. Eles debatiam sobre as pessoas que enxergam o cinema como algo estritamente fútil, glamouroso. Porém, ele trouxe à mesa que a sétima arte é uma grande ferramenta para coisas maiores, como a educação.

“É importante enxergar o cinema como uma ferramenta. ‘O Malês’ teve sua exibição solicitada por universidades americanas, como Harvard. É o cinema como ferramenta educativa. Quando a gente vai ao cinema, a gente é exposto a realidades que podem ser muito diferentes das que a gente vive, como disse anteriormente. E o que isso faz? Exercita a empatia. Através de um filme, você consegue trabalhar um processo de compreensão de emoções humanas complexas. A gente reflete o fenômeno da vida, a gente se vê, a gente se analisa. E quando a gente enxerga essas realidades diferentes, o cinema te leva para esse lugar, e você começa a compreender, como expectador, questões complexas, como a injustiça social. Isso é de um poder incrível! O real valor dos patrocínios, como esse da Petrobras, dentro da cultura é que o cinema jamais vai acabar, mas seguirá se adaptando, se inovando. É por isso que a gente assiste filmes de culturas completamente diferentes, da Turquia, por exemplo, e se emociona. É muito importante apoiar essa experiência humana”, concluiu Santoro.

Pedro Sobreirohttps://cinepop.com.br/
Jornalista apaixonado por entretenimento, com passagens por sites, revistas e emissoras como repórter, crítico e produtor.
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