Dentro de um fusca amarelo, Marcelo (Wagner Moura) chega em posto de gasolina no meio de uma estrada de barro e depara-se com um defunto coberto por jornais. O frentista avisa que durante os dias de Carnaval o cadáver continuará a liberar o mau cheiro antes que as autoridades venham buscá-lo. Quando uma viatura da polícia chega, eles estão interessados em vistoriar os documentos do recém-chegado do que ocupar-se do corpo estendido no chão.
Estamos em Pernambuco, na década de 1970, e a cena inicial dá o tom do que será O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, onde a banalização da violência é a regra e a vistoria de todos os cidadãos, uma ordem. Wagner Moura é um viúvo fugitivo em busca do reencontro com o filho, para conseguir sair do país com o menino, ele vai passar por uma cenário de verdadeiro caos místico e político. A começar pela apresentação de seu novo local de moradia pela Dona Sebastiana, interpretada brilhantemente por Tânia Maria, e os elementos estranhos do enredo, como um gato de dois rostos.

Ambientado em pleno Carnaval, a perseguição de dois atiradores é emoldurada por figuras das ruas de Recife e um batuque incessante que traz uma dicotomia peculiar do Brasil: do divertimento à beira do caos, nesse caso, de uma luta pela sobrevivência. Em uma das partes mais bizarras e, ao mesmo tempo, hilárias, os jornais passam a publicar artigos sobre uma perna peluda assassina que deixa um rastro sanguinário por onde passa. Entre o fantástico e a censura, a mídia brasileira consegue utilizar seus contornos para transmitir a realidade ao povo e construir um imaginário social de devastação — mesmo que por uma perna extraordinária.
Além do gato e da perna encontrada na boca de um tubarão, outros elementos enriquecem o tom kafkiano do enredo, com uma mulher possuída após assistir ao filme A Profecia; casais que praticam sexo oral sem pudor no cinema e, ainda, a obsessão e os pesadelos do pequeno Fernando (Enzo Neto) com o tubarão do filme de Steven Spielberg, o qual o menino nunca realmente assistiu, mas que se engendrou no seu imaginário.

A mágica do filme é encaixar de forma orgânica todos esses elementos incongruentes, sem nunca diluir a tensão ou minar os riscos de vida ou morte do protagonista Marcelo, que passa a ser conhecido também como Armando, interpretado com grande destreza e melancolia por Wagner Moura. Em seu primeiro trabalho juntos, Wagner e Kleber conseguiram uma parceria idílica. Um retorno espetacular de Wagner Moura ao cinema brasileiro, depois de passagens por Guerra Civil (2024) e pela fraca série Ladrões de Drogas (2025), produzida por Ridley Scott.
Com maestria Kleber Mendonça consegue reunir um elenco exemplar de estrelas do cinema nacional, como Carlos Nascimento, que vive Seu Alexandre, sogro do protagonista e projecionista, fazendo uma alusão direta com o seu documentário Retratos Fantasmas, até a promissora Alice Carvalho (da série Cangaço Novo), em uma pequena participação, mas tão acachapante quanto os personagens tão vivos e ricos do filme, como os capangas vividos por Gabriel Leone e Roney Villela em busca do extermínio de Marcelo.

Dada a data do lançamento, meses depois do sucesso e Oscar inédito de Ainda Estou Aqui, é impossível não encontrar paralelos entre os dois filmes. A mortificação da Ditadura é latente em ambas as produções. Porém, enquanto Walter Salles mergulha no drama real familiar, Kleber impõe sua marca estética original com elementos de filme de gênero para atirar facas ao período. O fantástico está presente em todas as suas obras, desde o curta Vinil Verde até os diálogos com seus longas sociopolíticos O Som ao Redor, Aquarius e a distopia Bacurau, além do documentário já citado Retratos Fantasmas.
Um filme do Kleber Mendonça Filho não é apenas uma chama de alegorias políticas, mas um deleite estético de divertimento e o uso dos recursos cinematográficos para jogarmos luz sobre as nossas mazelas — seja na milícia urbana, na especulação imobiliária ou até mesmo em uma guerra civil urbana, ou sobre o esquecimento e desaparecimento de cinemas e pessoas.

Se as ruas de Recife pediam seus centros culturais em Retratos Fantasmas, em O Agente Secreto elas perdem as pessoas. As manchetes dos jornais estampam o extermínio de 91 indivíduos e o filme segue contando esses corpos retirados do círculo da vida com trivialidade entre as brumas das festividades de Carnaval. Tal como, enquanto há músicas nas ruas, os barulhos dos tiros são disfarçados e amordaçam verdades dificilmente trazidas à tona — até a contratação de um hitman, que nos remete à esperteza brasileira de barganhar e não levar desaforo para casa.
O roteiro de Mendonça Filho nos prende por longo tempo antes de desvendar os mistérios de perseguição do protagonista, envolto a personagens memoráveis, como a Elza (Maria Fernanda Cândido) e o chefe de polícia Euclides (Robério Diógenes). Kleber ainda ousa uma enorme elipse temporal para nos dar um desfecho e nos conectarmos com a memória de todos os passados da ditadura.

Por meio da pesquisadora Flávia (Laura Lufesi), a história revive em São Paulo evidenciando um plano estilístico e sentimental do cineasta pernambucano: exaltar como a memória deve ser preservada, restaurada e compartilhada em novos meios — assim como o pequeno museu de Bacurau —, como as páginas dos jornais daquela época nos apresentam uma chacina programada pelo governo contra seu próprio povo. Um desfecho para o agora adulto Fernando, não mais atormentado por tubarões, mas pela ausência dos pais ainda na infância.
Com todos esses elementos, O Agente Secreto deve ressoar no júri do Festival de Cannes e tem grandes chances de lutar por seu espaço na temporada de premiação como representante do Brasil, pela atuação de Wagner Moura e a presença marcante do seu elenco, além da grande curadoria musical da época sempre presente em todos os filmes de Kleber Mendonça Filho, com produção mais uma vez da sua esposa Emilie Lesclaux e co-produção com França, Alemanha e Holanda.
