Desde a primeira vez em que entrei em uma locadora de filmes, ainda na adolescência, nos anos 1990, senti que aquele lugar era um verdadeiro templo cinéfilo, onde poderia conversar com outras pessoas que compartilhavam a mesma paixão que eu: o cinema. Além disso, e sem a divulgação gigantesca dos dias atuais, descobria filmografias fantásticas de países de todas as partes do mundo. Assim, conheci obras de Bergman, Kubrick, Sokurov e outros tantos cineastas que até hoje levo nas minhas memórias.

Eu ia para a escola já pensando em cinema e, enquanto meus amigos mais próximos só queriam saber de jogar Counter-Strike nas famosas lan houses, assim que tocava a sirene do colégio, indicando o término do dia, eu pegava as moedinhas da mesada que juntava em um cofrinho e partia para um tour pelas locadoras do bairro onde morava.
Era um tempo delicioso, e eu queria descobrir os filmes do passado! As fitas – sim, sou do tempo do VHS – que chegavam logo ganhavam classificações, geralmente por bolinhas coloridas, que se juntavam a tantas outras, com variação de preço. Mas o que me deixava ansioso eram as promoções: pegar um ‘numero x’ de filmes e só devolvê-los na segunda-feira! Sexta-feira era meu dia preferido de ir até as locadoras, por causa disso.

Nesses lugares, hoje esquecidos pelo tempo, eu adorava papear com os funcionários. Sentia-me em uma enorme sala de aula, onde dicas e mais dicas me levavam para descobrir histórias marcantes, despertando em mim um senso crítico com reflexões por todos os lados. Com as outras pessoas que frequentavam – cinéfilos como eu – também conversava aos montes, trocando dicas e entendendo a respeitar os outros pontos de vistas. No início, eu ficava irritado se alguém jogava pedras em um filme que eu amava (rs), mas, aos poucos, fui aprendendo a cada vez mais respeitar os olhares sobre uma mesma obra.
Ah, lembro bem também que inauguraram uma locadora de filmes perto da minha casa, onde você alugava filmes pelo telefone. Quando eu não conseguia ir até essa locadora, por apenas 50 centavos você recebia as fitas em casa – depois os dvds – e, pela mesma quantia, iam buscá-las. E ai se eu esquecesse de rebobinar! Era multa na certa! O catálogo atualizado era colocado na minha caixinha de correio semanalmente, com sinopses e os artistas que faziam parte das obras.

Pouco tempo depois, veio o tempo da Blockbuster, um lugar que eu não curtia muito, pois o contato com as pessoas que trabalhavam lá já era distante. Pra devolver o filme, havia uma gaveta virada para o lado de fora da loja, fato que perdia toda aquela magia que sentia ao frequentar esses estabelecimentos cinéfilos.
Aí chegaram os streamings, a tecnologia, e as facilidades para se chegar até um filme ficou à beira de um mero clique. Indicações por algoritmos hoje são uma tendência, encurtando a distancia até uma obra audiovisual, mas criando uma distância na conversa presencial entre as pessoas apaixonadas por cinema. Tudo ficou mais fácil, porém bate uma tristeza daqueles tempos que não voltarão.

O meu amor pelo cinema continua, mas nunca deixarei de lembrar a sensação de abrir a porta de uma locadora e meus olhos brilharem com tantas possibilidades de descobrir histórias pelas mídias físicas, de encontrar outras pessoas apaixonadas por sétima arte e refletir sobre a sociedade através de bons debates nesses lugares.

E você, lembra desses tempos? Viveu esses momentos? Divida com a gente suas histórias!



