Primeiro longa do diretor reúne todo o simbolismo que são naturais em suas narrativas

Apesar de não muito comentado, o subgênero do horror composto por obras abstratas é um dos mais curiosos que esse segmento do cinema tem a oferecer. A questão gerada no espectador e a montagem de cada cena que, não seguindo uma estrutura tradicional, pode ser discutida sob vários pontos de vista concede vida longa a tais produções.

O ucraniano Andrzej Zulawski e o japonês Nobuhiko Obayashi são alguns exemplos de profissionais que se aperfeiçoaram nessa narrativa, entretanto o grande nome que vem à mente quando se trata de temas interpretativos (sob um ponto do terror muitas vezes) é o de David Lynch.

Quando se pensa na carreira do excêntrico diretor a produção mais discutida é certamente Twin Peaks; o seriado que marcou época no início dos anos 90 e atraiu a atenção mundial para o mistério de quem matou Laura Palmer. Não só pela trama central mas o seriado se tornou alvo de análise constante por sua metalinguagem que se intensificou mais na segunda temporada.



Foi em “Twin Peaks” que Lynch lidou com a máxima do abstracionismo.

Mesmo assim, a tendência de Lynch implantar temáticas mais abstratas em suas narrativas data de bem antes à Twin Peaks; na verdade até mesmo antes de Veludo Azul (1986). Seu estilo já estava presente desde seu primeiro longa, em 1977, intitulado Eraserhead; anteriormente o cineasta só havia se aventura em curtas.

Falar da trama de Eraserhead é tentar definir como o diretor concebe cada idéia de projeto, porém o conceito geral segue Henry Spencer (interpretado por Jack Nance que também se tornaria um colaborador de longa data para Lynch) que inicialmente se apresenta como um operário infeliz, que vive na Filadélfia (cidade com grande importância pessoal para o cineasta) que está para entrar em período de férias.

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Seus planos de repouso, porém, são interrompidos quando lhe chega a notícia de que ele tem um filho; criança essa que possui visíveis malformações. Sem escolha, Henry passa a viver com a mãe e a criança em um apartamento minúsculo e preso a um dia a dia sufocante entre os choros incessantes da criança e um trabalho terrível.

A vida de Henry é um pesadelo sem fim.

A produção de Eraserhead foi marcada pela turbulência, principalmente quando o assunto era financiamento. Sendo um projeto independente, Lynch teve dificuldade em obter a verba necessária da AFI (ONG responsável pela curadoria de obras historicamente importantes nos EUA) muito por razão do roteiro da obra, assinado pelo mesmo, ter pouco mais de vinte páginas.



Originalmente o financiamento veio de diversas fontes, com a primeira contribuição vindo de um conhecido do diretor que também era colaborador de Terrence Malick (cineasta com características similares a David Lynch). Eventualmente a esposa do ator principal, Jack Nance, contribuiu também ao passo que o próprio comandante do projeto teve que entregar jornais para manter uma parte do dinheiro entrando.

Em si, o texto da obra é alvo histórico de debates sobre qual é a melhor forma de abordá-lo. É de praxe para o diretor nunca explicar sua escrita pois assim cada espectador pode elaborar uma interpretação própria para o que acabou de ver; com Eraserhead muito se teoriza que o filme trata de como Lynch se sentiu com o nascimento não planejado da filha e quando mesma nasceu com necessidade de uma cirurgia de correção.

Ainda assim, o filme alcançou status respeitáveis junto a outros grandes cineastas da época; Stanley Kubrick teria afirmado que Eraserhead o ajudou a “estar no estado de espirito adequado” para dirigir O Iluminado três anos depois; John Waters (referência do cinema campie) considera esse seu filme favorito.

O que se percebe é que este exemplar simboliza o tipo de narrativa com o qual David Lynch alcançaria a fama poucos anos depois, bem como a curiosa relação dele com o público no qual a cada nova história ele gera um milhão de perguntas sem jamais indicar que dará alguma resposta.

 

 

 



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