Obra tem plena noção dos maneirismo que permeiam o gênero e os usa para tecer um comentário

Dentre os diversos gêneros, o terror talvez seja aquele com maior capacidade de mutação e adaptação. Os cineastas especializados no mesmo, quando buscam, sempre encontram formas novas de representar a temática em suas obras. Não à toa o terror possui diversos subgêneros que, apesar de compartilharem semelhanças quanto a atmosfera apresentada, são bastante distintos uns dos outros.

Sobrenatural, Slasher, Found footage, torture porn; os diversos estilos do gênero tiveram seus momentos de maior destaque na história. O slasher, por exemplo, foi carro chefe do terror nos anos 80; o torture porn, encabeçado pela franquia Jogos Mortais, dominou as bilheterias dos anos 2000 e etc. Cada um deles seguiu uma cartilha própria de decisões criativas que naturalmente os identificava como tal.

Essas “instruções” acabaram se tornando os infames clichês que tanto se repetiam nos vários exemplares produzidos, principalmente naqueles que era mais exitosos financeiramente, e eventualmente se reuniram a outras características que funcionavam em determinada obra e eram copiados em outras (como o fato da franquia Sexta Feira 13 ter inspirado outras como Acampamento Sinistro).



A franquia do Jason é o exemplo mais conhecido de regra do slasher seguida à risca.

No entanto, de tempos em tempos alguns diretores do gênero conseguem realizar obras que tecem, subliminarmente ou não, metacomentários que atraem a atenção do espectador para essas normas e assim o filme é capaz de criticá-las abertamente. 

Em 1986 a parte 6 da mencionada franquia de Jason Voorhees, intitulada Jason Vive, satirizou abertamente vários elementos da saga que já eram famosos; em 1996 o diretor Wes Crave junto com o roteirista Kevin Williamson lançaram o primeiro Pânico, que funciona tanto como um tributo ao slasher (já desgastado em 1996) como um comentário sobre as convencionalidades desse tipo de enredo e sobre como ao saber suas regras os personagens podem sobreviver a morte certa.

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Durante o período que estudou em Los Alamos (no estado do Novo México) o diretor Drew Goddard teve uma indagação: a região possuía diversos cientistas como moradores, isso porque ela tradicionalmente é uma localidade isolada que o governo dos Estados Unidos utiliza para testes de armas nucleares; esse procedimento vem desde julho de 1945 quando a região foi palco da primeira explosão nuclear durante os testes do famoso projeto Manhattan.

A lembrança dos cientistas indiferentes foi reaproveitada pelo diretor em sua obra.

Ainda assim, apesar desses cientistas e trabalhadores, em um sentido geral, terem como função diária a criação e aperfeiçoamento de armas que podem destruir a humanidade, os mesmos levavam seu dia a dia a base de uma rotina normal e até desinteressante. Foi a partir dessa observação que Goddard levou para Joss Whedon (bem antes das denúncias de abuso cometidos por ele virem a público) a ideia de um novo filme.



O roteiro escrito pela dupla levou apenas três dias para ser finalizado e traz um enredo, inicialmente, igual a tantos outros do terror. Um grupo de jovens amigos conseguem alugar uma cabana isolada nas montanhas para passar as férias; ao chegar lá eles inicialmente festejam e agem de maneira correspondente a suas idades, no entanto inicialmente suas vidas passam a ser ameaçadas por toda sorte de forças malignas na floresta como assombrações e zumbis.

A similaridade óbvia com Uma Noite Alucinante: A Morte do Demônio, de início, e eventualmente com Sexta Feira 13 não são coincidência. Conforme a história se desenvolve os protagonistas vão percebendo que nada do que está acontecendo é acidental; diferente de Pânico no qual os personagens levemente esboçavam uma percepção de estarem em um filme de terror com regras, em Segredo da Cabana a noção de “respeitar as regras para sobreviver” não se aplica.

Já não basta mais apenas conhecer as “regras”.

A história de Goddard deixa muito de sua força nas mãos da grande reviravolta que, literalmente, é uma justificativa “definitiva” para tudo o que é possível ocorrer, e geralmente ocorre, em obras do terror. Mesmo que as infinitas franquias do gênero não sejam mencionadas diretamente, até porque esse não é um crossover, suas essências compõem o comentário máximo da obra sobre o porquê dos clichês do terror existirem (deixando de lado o mencionado motivo financeiro).

Ao dialogar com o gênero em que atua, a película se mostra bastante original e seu criador um conhecedor amplo da história do terror. Bem como a maioria das franquias famosas foram perdendo, ao longo do tempo, seu poder de assombrar o público graças às infinitas sequências, O Segredo da Cabana não tenciona esse caminho; pelo contrário, seu objetivo é tirar de vez o pano de ilusões das obras do horror.

 

 

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