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O Terminal | Relembrando a SUBESTIMADA parceria de Steven Spielberg e Tom Hanks


Steven Spielberg e Tom Hanks já colaboraram inúmeras vezes na sétima arte e, considerando o talento de ambos os nomes, é inegável dizer que suas parcerias são mágicas. Ao longo dos anos, a dupla encabeçou projetos como o clássico ‘O Resgate do Soldado Ryan’, o incrível drama de espionagem ‘Ponte de Espiões’ e o thriller político ‘The Post: Guerra Secreta’. Mas foi em 2004 que Spielberg e Hanks uniram forças para uma subestimada e honesta dramédia intitulada O Terminal – que, recentemente, foi disponibilizado no catálogo da Netflix.

A trama é centrada em Viktor Navorski (Hanks), um viajante do fictício país da Krakozhia que aterrissa no Aeroporto JFK, na cidade de Nova York, mas não consegue entrar em solo estadunidense. O motivo? Enquanto Viktor estava em voo, sua terra natal sofreu um golpe de Estado e o governo usurpador não foi reconhecido pelos Estados Unidos. Dessa maneira, o protagonista se vê em uma situação inédita por não pertencer a nenhuma nação e não poder deixar os limites do aeroporto, com risco de prisão e deportação, além de ter sido destituído de seus documentos. Sem saber o que fazer, ele permanece apenas com sua bagagem e uma estranha lata de amendoins e passa a viver em um dos portões desativados do local.



A estranha história é parcialmente inspirada na vida de Mehran Karimi Nasseri, um refugiado iraniano que ganhou as manchetes ao redor do mundo ao fazer de sua nova casa o Terminal 1 do Aeroporto Charles de Gaulle, em Paris, entre os anos de 1988 e 2006. E, dosando com exímias sagacidade e minúcia, Spielberg transforma esse enredo em uma de suas produções mais honestas e que, infelizmente, não teve a atenção merecida à época de seu lançamento – mas que, com o passar dos anos, alcançou o status cult de forma merecida. Afinal, sabemos que o diretor, conhecido por sua aplaudível e invejável versatilidade identitária, tem habilidosas mãos para transformar o comum em extraordinário e o impossível em possível, traduzindo a essência do ser humano em cada uma de suas produções. E é claro que esta não seria diferente.

A princípio causando estranhamento tanto nos funcionários do aeroporto quanto nos espectadores, Viktor é uma figura complexa, com o coração no lugar certo. Munido de apenas algumas frases em inglês, o nosso improvável herói não sabe o que está acontecendo, porém, tem plena ciência de que precisa esperar tudo se resolver. Sua inesperada presença no JFK começa a conquistar os empregados que se escondem em meio aos corredores e as salas de espera que se expandem pelo lugar, além de causar uma inexplicável irritação em Frank Dixon (Stanley Tucci), Comissário Interino da Alfândega e Proteção de Fronteiras dos EUA e que deseja que Viktor quebre a lei ao sair do aeroporto e se tornar problema federal – impedindo-o de manchar sua irretocável reputação e de desperdiçar a oportunidade de uma aguardada promoção.

Todavia, Frank subestima a inteligência e a honestidade do protagonista, que pouco a pouco se instala, tornando-se membro de uma família que, dia após dia, se une em virtude do excêntrico homem. Provando ser engenhoso e valendo-se das pequenas brechas do aeroporto, Viktor é tecido com uma apaixonante complexidade que vem à tona através de sutilezas performáticas – cortesia do magnetismo inescapável de Hanks, um dos maiores atores de todos os tempos – e de ápices criativos que despontam nos ótimos diálogos assinados por Sacha Gervasi e Jeff Nathanson.

Spielberg é alcunhado como o “diretor do espetáculo”, um epítome que é reiterado por produções como ‘Jurassic Park’, ‘Tubarão’, ‘Indiana Jones’, ‘Império do Sol’ e tantos outros. Seja no drama, na aventura ou na ação, o diretor se remodela à medida que o escopo de determinado projeto lhe é apresentado – e em O Terminal isso não seria diferente: o realizador promove uma quase antologia de esquetes cômicas que servem como respaldo para reflexões sobre guerras, imigração, adaptação cultural e, mais importante, a possibilidade de encontrar gentileza nos lugares mais inesperados. Apoiando-se em breves críticas ao “sonho americano”, Spielberg garante que a multiplicidade de personagens esteja em sintonia com a libertação que Viktor inconscientemente promove.

Se o diretor alcança sucesso ao esquadrinhar os inúmeros temas com a destreza que imaginávamos, ele também faz questão de arquitetar um coming-of-age para cada um dos coadjuvantes – seja na frustrada comissária Amelia Warren (Catherine Zeta-Jones), que vive em busca de um amor verdadeiro à medida que não confia em seus próprios impulsos; no irritadiço e protetor zelador Gupta Rajan (Kumar Pallana); no entregador de comidas do aeroporto Enrique Cruz (Diego Luna), que é secretamente apaixonado pela oficial Dolores Torres (Zoe Saldaña); e no sisudo e amedrontador oficial Judge Thurman (Barry Shabaka Henley).

Há mais de duas décadas, O Terminal chegava aos cinemas e, ainda que tenha se sagrado um sucesso comercial, teve uma modesta recepção por parte dos críticos internacionais – que, talvez, não tenham se sentido satisfeitos com um escopo que, para o calibre de Steven Spielberg, era bem mais íntimo e reduzido. Entretanto, essa é a beleza da dramédia comandada pelo diretor: uma história que, por mais impalpável que seja, transforma o particular em universal em um diálogo tocante e inspirador do começo ao fim.

Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.
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