Objetos Cortantes | Primeiras Impressões da nova adaptação da autora de ‘Garota Exemplar’

Objetos Cortantes | Primeiras Impressões da nova adaptação da autora de ‘Garota Exemplar’

Nota:

Nostalgia versus Fantasmas do Passado

Uma das produções audiovisuais mais aguardadas de 2018 finalmente chegou. Trata-se de mais uma adaptação (a terceira) de um livro da autora Gillian Flynn para as telas, depois do sucesso incontrolável de Garota Exemplar (2014) e do morno Lugares Escuros (2015). A opção agora é pela telinha, numa minissérie dividida em 8 episódios.

Além do formato garantir mais espaço para o desenvolvimento da trama e dos personagens, outro acerto foi novamente trazer Flynn para adaptar um texto seu no roteiro. Assim como fez com Garota Exemplar, a escritora desenvolve sua obra para a próxima etapa, conhecendo melhor do que ninguém tal universo. Em entrevistas de divulgação, a autora comenta sobre como foi revisitar este que é seu primeiro livro, escrito há 12 anos. Durante este período, Flynn não teve contato algum com a obra. Ao mesmo tempo em que pôde perceber o quão diferente era na época, Flynn – a roteirista – teve total liberdade para aprimorar e evoluir os personagens e situações de sua obra literária. O corte da narração em off e uma melhor atenção aos coadjuvantes foram elementos trazidos ao jogo pela dona da história.

Além do nome de peso de Flynn, existem outros dois grandes chamarizes aqui em Objetos Cortantes. O primeiro é Amy Adams, atriz cinco vezes indicada ao Oscar que, além de protagonizar no papel principal de Camille, assume a cadeira de produtora numa obra pela primeira vez. Isso ocorre quando atores confiam muito num material. E segundo, o comando do franco-canadense Jean-Marc Vallée, indicado ao Oscar por Clube de Compras Dallas (2013), à frente dos 8 episódios na direção. Lembrando que recentemente o cineasta esteve nos holofotes pelo estupendo trabalho em outra série, Big Little Lies, tirando do papel um celebrado livro igualmente – série a qual retornará (como produtor) ano que vem.




Vallée é conhecido como um diretor naturalista, seus sets não fazem uso de luzes artificiais e não existe marcação de atores ou ensaios. Ao contrário de tantos outros cineastas, ele se satisfaz com no máximo 3 takes e é conhecido por pegar atores em momentos de improviso. Essa atmosfera realista e pouco controlada pode ser percebida em Objetos Cortantes, um neo noir feminino, que abraça a nostalgia e descortina fantasmas do passado em meio a uma investigação no estilo whodunit.

Na trama, Adams vive Camille Preaker, jornalista de Chicago que retorna para sua pequena cidade natal de Wind Gap, Missouri, a fim de cobrir uma história envolvendo o assassinato de duas adolescentes. A tarefa enevoada em mistério investigativo e clima pesado é difícil por si só, mas apenas piora para a protagonista, já que o local reserva grandes traumas que ela escolheu deixar para trás. Uma vez de volta, Camille precisará exorcizá-los, mas antes terá que encará-los.

A narrativa é contada em duas linhas temporais, que se mesclam de forma simbiótica, uma dependendo da outra para seguir adiante. No passado, Camille é interpretada pela jovem carismática Sophia Lillis. E para quem apostava em Adams como a contraparte adulta da personagem de Lillis em It: A Coisa – Capítulo 2 - papel que terminou com Jessica Chastain - pode se satisfazer com este prêmio de consolação. Outra curiosidade é ver Adams dentro de uma redação, interpretando uma jornalista. Esta, no entanto, é a versão mais sombria e disfuncional (com o alcoolismo e cortes no corpo implícitos) de Lois Lane – a atriz viveu a personagem das HQs no cinema, nos erráticos Batman vs Superman (2016) e Liga da Justiça (2017).

Além da atmosfera de suspense que permeia a narrativa, de relacionamentos conturbados e personagens tentando cicatrizar feridas, um desejo de Flynn era, ao contrário do texto, enfatizar a fictícia Wind Gap. E aqui o lugar pulsa com vida. Os realizadores conseguem extrair grande sensação de pertencimento, é como se verdadeiramente estivéssemos naquelas esquinas, passando por entre lojas, parando para uma ligação no bar. Definitivamente, o interior dos EUA se destaca como um personagem em Objetos Cortantes. E um que, ao contrário dos fragilizados e feridos personagens, estaremos ansiosos em conhecer.





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