Los Angeles, 1994.

Depois de se mudar do Canadá para os Estados Unidos, procurando continuar sua efervescente carreira musical para além de seu país de origem, Alanis Morissette ainda não era um nome conhecido. É claro que a cantora e compositora havia feito sucesso considerado com o lançamento de seu álbum autointitulado – mas o fracasso comercial de ‘Now Is the Time’ a fez procurar por novos ares. E foi nesse meio tempo que ela conheceu o musicista Glen Ballard (que viria a se tornar o primeiro produtor de Katy Perry duas décadas mais tarde), que a levou para a Maverick Records e ficou responsável pela supervisão do que se tornaria um dos álbuns de maior sucesso crítico e comercial de todos os tempos.

Um ano mais tarde, nascia ‘Jagged Little Pills’. O primeiro álbum internacional a transformou numa das vozes mais influentes da indústria fonográfica, vendendo mais de 33 milhões cópias ao redor do mundo e levando para casa nada menos que cinco estatuetas do Grammy, incluindo o prêmio de Álbum do Ano. Ninguém poderia imaginar que o outrora ato de abertura de Vanilla Ice permaneceria no pódio da artista mais jovem ao levar um dos maiores prêmios da indústria musical (21 anos) por uma década e meia – e ninguém também tinha em mente que, até hoje, o álbum carregaria um legado gigantesco, entrando nas mais diversas listas de melhores obras de todos os tempos. E, dentre os nomes que já citaram Morissette como principal influência, temos desde a rainha latina Shakira até a explosão do pop-rock Pink, a queridinha Avril Lavigne e Perry – que, em 2012, chamou o CD do “maior ato feminino já feito”.



Mas o que fez dessa produção uma obra-prima tão grandiosa? Bom, se levarmos em conta o escopo sonoro dos anos 1990, que vinha sido dominado pela crescente voz de Madonna ao longo de sucessos como Erotica e Bedtime Stories e da exultação do estilo R&B (canalizados principalmente por Prince, Boys II Men e Mariah Carey), Alanis saiu das sombras com um produto bastante original que transmutava o extremismo dos estilos musicais para uma fusão muito bem-vinda que variava desde o rock alternativo até o dance-pop, afastando-se também da propaganda estilística e exilada de seus trabalhos anteriores. Reintroduzindo também o esquecido new jack swing (que voltaria para mais um respiro em 2020), suas misturas inesperadas, aliadas a rendições perfeitas de uma mezzosoprano que não tem medo de dizer o que pensa, caíram no gosto popular com força majestosa.

Talvez o melhor conceito que se possa tirar desse álbum é sua coesão. Composto apenas ao lado de Ballard, é notável a organicidade de Jagged Little Pill– e, ao mesmo tempo, como sua construção se distancia das costumeiras fórmulas mercadológicas dos anos anteriores. De fato, cada faixa é própria para um tipo de público e, ao juntá-las em um único lugar, percebe-se que a narrativa amorosa e de autossuficiência proferida pela artista insurge como crítica ferrenha ao ultrarromantismo que vinha se apoderando da esfera mainstream. Na faixa de abertura, “All I Really Want”, Alanis imprime sua paixão pelos escritos de Charles Dickens e se compra à personagem Estella (Grandes Esperanças), envolvida em um relacionamento nada confortável e que beira a toxicidade; já em “You Oughta Know”, uma de suas músicas mais conhecidas e controversas, ela faz uma declamação bastante pessoal sobre um ex-amante (que até hoje permanece um mistério).

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Dominando instrumentos como piano, guitarra e violão – e a presença pungente de sintetizadores oitentistas para adornar um pouco mais cada track -, Morissette acerca em cheio cada inflexão artística que imprime no álbum. Mais do que isso, ela tem uma sutileza invejável e emocionante que cria simetrias assimétricas entre suas canções, “parnasiando-se” em uma métrica poética e vocais surpreendentes – flertando inclusive com as difíceis notas de um soubrette delicioso. Seja na reflexiva “Mary Jane” ou na borbulhante “Ironic”, tudo converge para um equilíbrio dramático do mais alto calibre, ressignificando os conceitos engessados da música para algo muito maior do que poderíamos prever.

Não é surpresa que praticamente todas as faixas do CD viraram singles promocionais e continuam a nos encantar mesmo num momento em que a indústria exala talentos novos a cada mês que se inicia. Alanis cativou uma geração inteira através de performances espetaculares e alter-egos que influenciaram toda sua carreira internacional – voltando às raízes com “Reasons I Drink”, canção de seu aguardado álbum ‘Such Pretty Forks on the Road’ que foi adiado em virtude da pandemia do COVID-19. Enquanto é difícil encontrar o mínimo dos deslizes ao longo das treze faixas, remasterizadas cinco anos atrás, é mais complicado ainda escolher um ponto alto da obra: afinal, temos “Hand in My Pocket” e a otimista “You Learn”, ou então a suavidade de “Wake Up” que entra em contraste com a gritante e urgente “Forgiven”.



Eventualmente, Jagged Little Pill permanece, em suas bodas de prata, como um dos grandes momentos da história fonográfica – não é surpresa que a impactante trama que une as canções tenha se transformado em um musical rock em 2018, ganhando uma versão para a Broadway poucos meses depois e tornando-se criticamente aclamado. Como já foi provado mais de uma vez, o legado de Alanis Morissette vive em cada artista que ouse ir de encontro ao padrão, voltando às glórias de 1995 com paixão inveterada.

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