Ao subir ao palco da 68ª edição do Grammy Awards para receber a estatueta de Álbum do Ano por ‘Debí Tirar Más Fotos’, o artista porto-riquenho Bad Bunny aproveitou o histórico momento – afinal, essa foi a primeira vez que um álbum em língua espanhola levou para casa o prêmio máximo da noite -, aproveitou o momento para fazer uma poderosa declaração política contra os oficiais da lei dos Estados Unidos. “Fora ICE. Não somos selvagens; não somos animais; não somos forasteiros. Somos humanos e somos americanos”, ele disse, acompanhado de uma enxurrada de palmas e gritos de apoio.
A vitória de Bad Bunny na última edição da maior premiação da música é, sem sombra de dúvida, a mais importante e emblemática da década – e, quiçá, do século. Afinal, o sexto compilado de originais do artista emergiu em um tenso momento político de subjugação e apagamento da cultura latina no território de Porto Rico que, após passar por um destrutivo processo de colonização espanhola entre os século XV e XIX, foi minado pelas políticas neoliberalistas e imperialistas dos Estados Unidos, cujo líder atual, Donald Trump, mostra-se emblema de uma política segregativa e genocida que se utiliza se falsos artifícios e argumentos para diminuir a importância do território.

Em meio a constantes conversas sobre a libertação e a consagração de Porto Rico como território independente, Trump vem se mostrando cada vez mais autoritário em suas políticas anti-imigratórias, reafirmando um senso-comum de que a população branca, tradicionalista e de língua inglesa do país é superior à própria história do território americano como um todo. Trump é o encontro de séculos de exploração e colonização de uma ideologia autoimposta de hegemonia inabalável e inquestionável, fruto apenas de ações que dependem dos países e locais que sujeitam a lhes servir. Não é surpresa, pois, que os membros do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE), utilizem-se de uma prerrogativa inexplicável para atacar qualquer um que não se enquadre no seleto grupo defendido pela mentalidade autocrática e tirânica do presidente.
O que Trump e seus apoiadores não esperavam era a presença de Bad Bunny como força contrária.

Desde sua estreia no cenário fonográfico, o artista nunca deixou de lado sua herança porto-riquenha, celebrando, inclusive, a diversidade latina que lá se encontra. O território caribenho é lar não apenas de nativo, mas de dominicanos, cubanos, venezuelanos, haitianos e tantos outras nacionalidades que migram para lá em busca de melhores oportunidades e o “sonho americano” – a cruel e ardilosa máxima que vem sido defendida pela mentalidade estadunidense desde as políticas de aproximação do século passado. Dessa maneira, podemos encarar Porto Rico como a expressão máxima da defesa pela diversidade e de que maneira os líderes supremacistas e de extrema-direita se recusam a aceitar um simples fato histórico: a América, como um todo, é formada por imigrantes; os nativo-americanos, por sua vez, passaram por contínuos processos de extermínio que encontraram seu ápice nas investidas ultramarinas europeias do século XV e que, de maneira apologética, foram resgatadas nesses últimos anos.
À medida que constrói uma mistura explosiva de plena, jíbaro, salsa, bomba, reggaeton e house, Bad Bunny esquadrinha sua merecida plataforma para arquitetar textos críticos que são remodelados com produções instrumentais irretocáveis e uma paixão inegável e irrefreável da arte como ferramenta política. A própria direção artística do álbum funciona como uma memorabília poderosa e um exercício mnemônico de junção entre passado e presente: ao colocar duas cadeiras de plástico brancas em um cenário natural, Benito eterniza um fio condutor que une todas as comunidades latinas em um fio histórico similar, uma celebração cultural de poder inefável que é uma afronta deliciosa ao neocolonialismo estadunidense.

Mais do que isso, utilizar esse ponto como alimento de união e fortificação é um passo importante para mostrar, com todas as letras, que, se existe uma cultura estadunidense, ela é fruto de uma usurpação constante de que foi subjugado pelo ímpeto imperialista que encontrou um novo símbolo com Trump. E, a partir daí, o performer se lança a uma série de narrativas líricas pungentes que singram pela nostalgia melancólica da efemeridade do tempo, como é o caso do lead single “DtMF”, e por sua preocupação com o futuro de Porto Rico como subsídio dos EUA e enfrentando os defensores estadistas com uma densa comparação talhada por “Lo Que Pasó a Hawaii”.
É claro que, se pensarmos em anos recentes, tivemos outras vitórias merecidas na maior categoria do Grammy, como ocorrido no ano passado: Beyoncé, através de um extenso projeto que caminha para seu terceiro capítulo, resgatou a memória afro-americana ao alfinetar a dominação branca no country com ‘Cowboy Carter’, que lhe rendeu a estatueta de Álbum do Ano; porém, é notável como a vitória veio acompanhada de uma exaltação de seu impecável corpo de trabalho, ainda mais quando ‘Lemonade’ trouxe, em 2016, uma análise sociopolítica muito mais importante e crucial em meio à situação dos EUA (e que foi subestimado pela Academia Fonográfica à época).

A vitória de Bad Bunny, por sua vez, carrega marcas centenárias que continuam a ressoar no tratamento dos porto-riquenhos, dos latinos e dos imigrantes que compõe a parcela mais imprescindível de um país de caráter cada vez mais opressor e defensor da demagogia política. Receber o gramofone dourado sendo quem é, Benito se vê dividido entre o amargor do que ele e seu povo carregam e um reconhecimento merecido que serve de combustível para incendiar um levante fundamental – navegando por um misto de orgulho e tristeza generalizados que se concentrou em um dos artistas mais vibrantes e incríveis da atualidade.


