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Opinião | Taylor Swift e a maximização do show business com o álbum ‘The Life of a Showgirl’


Nesta próxima sexta-feira, 3 de outubro, a titânica superestrela Taylor Swift irá presentear seus fãs com o lançamento do aguardado álbum The Life of a Showgirl, que marca seu décimo segundo compilado de originais.

Contando com doze faixas inéditas, a produção foi anunciada no podcast New Heights, coapresentador pelo noivo de Swift, Travis Kelce – e imediatamente causou um grande impacto nas redes sociais, quebrando recordes de visualização e garantindo que as plataformas se transformassem em um arauto maximizado de vibrantes cores para dialogar com a estética das capas promocionais. Após a revelação do disco, os internautas notaram que a performer promoveu uma repaginação completa da identidade explorada em sua obra anterior, The Tortured Poets Department, que apostou fichas em uma atmosfera mais sombria, melancólica e quase fúnebre.



The Life of a Showgirl, como o nome aponta, empresta sua estética da popularidade das showgirls que começaram a ganhar destaque no século XVIII. O termo, a princípio destinado a jovens mulheres que performavam a fim de atrair e encantar os homens, passou por uma grande mudança com a chegada do novo século, referindo-se, comumente, a performers femininas que cantam e dançam em salões de música – seja em cabarés ou em teatros de escopo reduzido, por exemplo. E, apoiando-se na estética eternizada por Bob Mackie e por nomes como Josephine Baker e Dita Von Teese (essa referenciada brevemente no clipe de “Bejeweled”, single do álbum ‘Midnights’), Taylor promove um encontro entre passado e presente e volta a explorar as glórias de Old Hollywood de maneira apaixonante e inebriante.

O novo compilado de originais de Swift promete ser não apenas seu mais ambicioso, como um dos melhores de sua carreira – e a retomada de parceria com Max Martin e Shellback é apenas mais um indicativo disso. Afinal, ambos os produtores já trabalharam com a artista antes e, sendo muito conhecidos no cenário do pop e seus derivados, não é surpresa que o trio tenha se dedicado ao máximo para o projeto. Para além de um apreço quase inescapável pela explosão sonora, esse incrível time criativo não poupou referências e homenagens, que vão para além da estética mencionada no parágrafo acima.

Taylor swift the life of a showgirl

É claro que detalhes mais contundentes do disco não foram divulgados, com exceção de uma produção cinematográfica que acompanhará o projeto – e que chega aos cinemas norte-americanos em lançamento simultâneo. O filme, que trará pensamentos e reflexões de Taylor acerca de sua mais nova era na indústria fonográfica, já fomenta projeções significativas de bilheteria e virá acompanhado do videoclipe oficial de “The Fate of Ophelia”, faixa que abre o álbum. O lead single, inclusive, traz sugestões de que as emulações navegam para fora da esfera do show business e espalham suas raízes para o teatro inglês.

Ainda que inesperado, ambas as linhas fazem sentido quando pensamos no sentido categórico e pragmático de performance – e William Shakespeare, o dramaturgo mais popular de todos os tempos, não é um favorito unânime por qualquer motivo. Sua obra mais famosa, ‘Romeu e Julieta’, já foi relida inúmeras vezes para os outros âmbitos artísticos que não o dos palcos, enquanto ‘Macbeth’, ‘A Megera Domada’ e ‘Sonho de uma Noite de Verão’ continuam a influenciar realizadores ao redor do planeta. Porém, para The Life of a Showgirl, Swift se apropriou da figura controversa e complexa de Ofélia, uma das personagens principais de ‘Hamlet’.

A peça é centrada no personagem titular, um martirizado príncipe que descobre que o tio, Claudius, foi responsável pela morte do pai para usurpar o trono e casar-se com a mãe – partindo em uma jornada de vingança e redenção que, como bem sabemos, acaba em tragédia. Nesse arco, Hamlet cruza caminho com Ofélia, filha do braço-direito de seu tio, Polônio. Os dois eventualmente se apaixonam, mas a jovem é acometida com uma crescente insanidade que premedita sua trágica morte (afogada após entrar em um rio caudaloso e se deixar levar pela correnteza). A personagem, inclusive, ganhou um quadro que foi traduzido em uma das capas do álbum – e pode indicar uma das temáticas exploradas não apenas pelo lead single, mas pelas outras canções.

Ofélia é uma construção recheada de delineações que já foram exploradas por outras incursões da discografia de Taylor. Afinal, ela vive sob constante vigilância de três homens que cruzam seu caminho: ela é filha de Polônio, irmão de Laertes e interesse amoroso de Hamlet – e cada qual tenta moldá-la a seu bel-prazer, diminuindo sua mera presença em prol de uma submissão mandatória que acompanha a figura da mulher mesmo séculos depois da peça de Shakespeare. Ofélia percebe, mesmo inadvertidamente, que a única maneira de escapar é a morte – e essa morte já existe em sua pseudo-completude, ao existir em uma não-existência, passando dia após dia sendo controlada por cordas invisíveis de mestres de marionetes sádicos e opressores (por mais que isso não fique claro, a priori). Ofélia é complacente ao que lhe foi designado desde o nascimento e interpreta seu papel social até se render à insanidade, tendo seu espectro condescendente jogado fora para uma libertação epifânica.

Esse desejo de escapar aparece na figura da showgirl à medida que Swift transfere a culpa internalizada das mulheres ao cenário do show business e à constante necessidade de reafirmação sob os holofotes e nas explorações minuciosas que acompanham o estrelato. Ora, Taylor inclusive abre espaço para um encontro entre Ofélia e a icônica Elizabeth Taylor (cujo impacto e cuja importância na sétima arte e no entretenimento a garantiram uma menção direta na segunda faixa), e provavelmente usará suas experiências para esse fio condutor entre três épocas muito distintas e, ao mesmo tempo, idênticas.

Swift não é nenhuma estranha a comentários sociais em suas produções, visto que já fez isso com incursões como “You Need to Calm Down”, “The Man” e “Only the Young”. Todavia, ao retornar às glórias do pop e ao abrir um novo capítulo de sua carreira, a artista tem ainda mais espaço para ironizar o engendramento indelével de uma sociedade traiçoeira através de um metafórico álbum que tem tudo para se transformar em um sucesso imensurável.

Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.
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