Você já ouviu o título ‘Contos da Cripta’? Bem, se você é um amante da cultura pop mais jovem, as chances são que provavelmente não. Porém, como dito, se for um fã de cultura pop precisa conhecer agora, pois a franquia engloba tudo o que você provavelmente adora: séries, filmes e quadrinhos. Comecemos pelo começo. O título surgiu ainda na década de 1950, quando era lançado na forma de histórias em quadrinho. Nessa época, nos anos 50, um dos entretenimentos mais consumidos pelos meninos eram essas histórias assustadoras, que entre outras coisas precisou enfrentar a censura dos conservadores que acreditavam que esse tipo de leitura poluía a cabeça da juventude.
Nessa época, diversos títulos disputavam a preferência da garotada, como ‘The Haunt of Fear’, ‘The Vault of Horror’, ‘Crime SuspenStories’, ‘Shock SuspenStories’ e ‘Two Fisted Tales’. Além, é claro, do foco de nossa matéria ‘Tales from the Crypt’, ou ‘Contos da Cripta’, a mais famosa de todas elas. O que elas tinham em comum era o fato de todas serem publicadas pela editora especializada EC Comics. ‘Tales From the Crypt’ foi publicada por William Gaines e editada por Al Feldstein. Com o passar dos anos, em especial na década de 60, tais quadrinhos de terror deram espaço para histórias de aventura e ficção científica, que viriam a se tornar as histórias de super-heróis que conhecemos hoje.

Assim se passaram as décadas de 1960 e 1970, com tais obras esquecidas e guardadas lá no cofre da cultura pop. Até, é claro, chegar aos famigerados anos 80, quando nomes como o produtor Joel Silver (‘Máquina Mortífera’ / ‘O Predador’ / ‘Duro de Matar’) e os diretores Robert Zemeckis (‘De Volta para o Futuro’), Richard Donner (‘Os Goonies’ / ‘Superman’) e Walter Hill (‘Warriors’ / ’48 Horas’), entre outros – todos fãs dos quadrinhos originais – resolveram tirar o título do passado e leva-lo de volta aos holofotes, na forma de uma série de TV iniciando em 1989 e indo ao ar pelo canal a cabo HBO (aliás, bem que a HBO Max podia trazer a série para o seu acervo).
‘Contos da Cripta’ é uma série de antologia, ou seja, cada episódio conta uma história fechada, como seu próprio média-metragem, assim como ‘Black Mirror’ funciona hoje em dia. Na época tais programas de antologia de terror faziam sucesso com os fãs, então ‘Contos da Cripta’ não podia ficar de fora. Para se ter uma ideia, até mesmo os maiores vilões do terror da época ganhavam uma série para chamar de sua nos anos 80. Freddy e Jason estavam em todo lugar, até mesmo na Televisão. Bem, ou quase. Isso porque Freddy até ganhou sua ‘Freddy’s Nightmares’ em 1988 (que durou 2 temporadas), mas Jason não dava as caras em ‘Friday the 13th: the Series’ em 1987 (que ganhou 3 temporadas e por aqui se chamou ‘Loja do Terror’). Ambas também eram antologias.

‘Contos da Cripta’ chegou por último, mas fez mais sucesso, durando sete temporadas até 1996. A narrativa se concentrava em histórias sobrenaturais e algumas mais realistas, mas sempre com elementos de terror, morte e vingança em seus enredos. A marca registrada era o personagem conhecido como Cryptkeeper, ou o coveiro, uma criatura decrépita, quase na forma de uma caveira, que fala com uma voz esganiçada e apresenta todas as histórias. O personagem era criado através de uma marionete e virou o símbolo do programa.
A sacada em ‘Contos da Cripta’ era o talento que conseguiu ser reunido tanto para protagonizar as histórias, quanto para dirigi-las. Também pudera, os produtores citados tinham poder em Hollywood e todos queriam trabalhar com eles. Assim, nessas sete temporadas, nomes como Russell Mulcahy (‘Highlander: O Guerreiro Imortal’), Tom Holland (‘Brinquedo Assassino’ / ‘A Hora do Espanto’), Stephen Hopkins (‘Predador 2’), Gary Fleder (‘Beijos que Matam’), Mary Lambert (‘Cemitério Maldito’), Jack Sholder (‘A Hora do Pesadelo 2’), Tobe Hooper (‘O Massacre da Serra Elétrica’), Fred Dekker (‘Deu a Louca nos Monstros’) e William Friedkin (‘O Exorcista’) comandaram os episódios. Até atores como Tom Hanks, Michael J. Fox e Arnold Schwarzenegger se arriscavam na direção dos capítulos.

Na frente das câmeras, além dos próprios Schwarzenegger, Hanks e Fox, nomes quentíssimos na época como Demi Moore, Christopher Reeve, Whoopi Goldberg, Joe Pesci, Brooke Shields, os veteranos Kirk Douglas e Martin Sheen, e até a nossa Sonia Braga protagonizavam os episódios. Além, é claro, de uma verdadeira constelação de Hollywood.
Durante esta popularidade na TV, o mesmo quarteto formado por Silver, Zemeckis, Hill e Donner resolveu dar um passo ainda mais ambicioso e levar ‘Contos da Cripta’ ao cinema. E assim surgia há 30 anos, ‘Os Demônios da Noite’ (Demon Knight), o primeiro longa-metragem para o cinema com o selo ‘Tales from the Crypt’. A história, é claro, de cunho sobrenatural apresenta a luta milenar entre o bem e o mal. O mal representado pelo senhor dos demônios, interpretado de forma deliciosamente sarcástica por Billy Zane, um nome quente em meados da década de 90. No ano seguinte, Zane viveria o herói pulp ‘O Fantasma’ e em 1997 faria seu maior papel, o vilão de ‘Titanic’. Aqui ele vive um personagem conhecido apenas como O Colecionador.

O Colecionador persegue pelas estradas de forma incansável o protagonista Brayker, o herói vivido por William Sadler, o único capaz de parar o domínio dos demônios na Terra. Para isso ele carrega consigo uma arma bastante poderosa, o sangue de Jesus Cristo, pego há milênios quando nosso salvador estava pregado na cruz e passado de mão em mão pelos guardiões. Sim, Brayker também é um guerreiro ancestral, que permanece em nosso planeta e precisa impedir os planos nefastos. Brayker encontra refúgio em um local bastante inusitado, um hotel de beira de estrada falido, que guarda em seu interior figuras excêntricas, inadvertidamente jogadas no meio de um confronto pela existência da humanidade.
O grupo de pessoas reunidas no hotel, construído em uma antiga igreja, ficará no meio de uma batalha sobrenatural, e precisarão agir e participar caso queiram impedir o apocalipse na Terra. O que o personagem de Billy Zane deseja é abrir um portal para o inferno, criando assim uma nova era de escuridão. No local, destacam-se os personagens de CCH Pounder, a dona do estabelecimento, e Jada Pinkett Smith, no papel de Jeryline, uma presidiária fazendo trabalho voluntário para diminuir sua pena. Pinkett é a terceira personagem mais importante da trama, e terá um significado especial no desfecho. A atriz se encontrava em seu início de carreira e exibia todo o seu carisma e sensualidade.

‘Os Demônios da Noite’ é uma aventura divertida e cheia de energia, repleta de efeitos especiais práticos de primeira, que impressionam até hoje. O filme é daquele tipo que não dá descanso, está sempre bolando uma reviravolta e mesmo assim possui tempo para desenvolver cada um de seus personagens.
É seguro dizer que ‘Os Demônios da Noite’ atingiu seu objetivo e marcou um gol para o selo ‘Contos da Cripta’. Com orçamento de US$13 milhões, recuperou quase todo o seu custo em seu primeiro fim de semana de estreia, arrecadando US$10 milhões em sua abertura, no dia 16 de janeiro de 1995. O longa estreou em terceiro lugar das bilheterias norte-americanas, ficando atrás somente do sucesso ‘Lendas da Paixão’, com Brad Pitt, e do drama racial ‘Duro Aprendizado’. No fim de sua estadia nas telonas somente nos EUA, ‘Os Demônios da Noite’ duplicou seu custo de produção.

O sucesso inicial fez os produtores anunciarem logo uma trilogia, e no desfecho do primeiro já anunciando a sequência. Porém, os produtores não decidiram que história iriam querer contar na continuação, e embora tenham anunciado um título, terminaram modificando-o duas vezes. No fim das contas, decidiram por lançar ‘Bordel de Sangue’, o segundo filme de ‘Contos da Cripta’, logo no ano seguinte, em 1996. Dessa vez a história misturava ‘Os Garotos Perdidos’, ‘A Hora do Espanto’ e ‘Um Drink no Inferno’, com uma trama de vampiros, ou melhor, vampiras donas de um bordel onde todos os clientes entram, mas não saem. O lugar altamente secreto é exclusivo e possui a porta de entrada em uma casa funerária.
Apesar de também conter nomes famosos no elenco, ‘Bordel de Sangue’ sofreu em comparação justamente com o citado ‘Um Drink no Inferno’, um filme de vampiros que tinha assinatura de Quentin Tarantino e direção de Robert Rodriguez, que deu o que falar na época e foi lançado no mesmo ano. Como de costume em casos assim, apenas um dos filmes de temática similar dá certo, e a vitória foi para ‘Um Drink no Inferno’, que se tornou o filme de vampiro a ser visto em 1996. O fracasso infelizmente colocaria um ponto final nos filmes de ‘Contos da Cripta’, sem que o planejado terceiro filme da trilogia jamais visse a luz do dia. Por aqui achamos que está mais do que na hora de ressuscitar essa franquia. E você, o que acha?
