terça-feira, janeiro 13, 2026

Os Guarda-Chuvas do Amor | Conheça o clássico que inspirou filmes como ‘La La Land’, ‘Barbie’ e ‘O Grande Hotel Budapeste’

DestaqueOs Guarda-Chuvas do Amor | Conheça o clássico que inspirou filmes como 'La La Land', 'Barbie' e 'O Grande Hotel Budapeste'

Décadas antes de La La Land: Cantando Estações’, Barbie e O Grande Hotel Budapeste, houve um longa-metragem que serviu de inspiração para incontáveis produções cinematográficas – e este longa ficou conhecido como ‘Os Guardas-Chuvas do Amor’.

Lançado em 1964 sob as talentosas mãos de Jacques Demy, a trama é centrada em dois jovens amantes, Geneviève Émery (Catherine Deneuve) e Guy Foucher (Nino Castelnuovo). Guy trabalha em uma mecânica, enquanto Geneviève trabalha com a mãe na loja de guarda-chuvas da cidade, Cherbourg. Apaixonando-se perdidamente, mesmo em meio aos questionamentos da mãe da garota, Madame Émery (Anne Vernon), os dois veem os planos de um futuro juntos mudarem de uma hora para outra quando o rapaz é convocado para o regimento militar em virtude das tensões contra a Argélia. Despedindo-se em meio a lágrimas, saudades e promessas de um romance eterno, ambos partem em seus respectivos caminhos.



Nesse meio-tempo, Geneviève descobre que está grávida de Guy, e é compelida pela mãe a conhecer o diamanteiro Roland Cassard (Marc Michel), que as havia salvado meses atrás ao comprar um colar de pérolas para ajudá-las a sanar dívidas. Ao conquistar a aprovação da mãe, Roland eventualmente pede a mão da jovem em casamento, que aceita por ter certeza de seus sentimentos mesmo ela estando grávida fora do casamento. Quase dois anos mais tarde, Guy retorna para Cherbourg apenas para descobrir que o amor de sua vida se casou com outro, mudando-se para Paris, enquanto Madame Émery vendeu a loja de guarda-chuvas, colocando um ponto final em um capítulo da história que foi encerrado por completo.

Lidando com a solidão e tornando-se uma pessoa arbitrária, mal-humorada e ranzinza, Guy encontra a chance de ser feliz novamente ao se aproximar de Madeleine (Ellen Farnern), cuidadora de sua Tia Élise (Mireille Perrey), e deixar um recente passado com Geneviève para trás à medida que vai atrás dos próprios sonhos – formar uma família e ter o seu próprio negócio. É claro que, nos breves minutos finais, os protagonistas se reencontram em uma ressentida, fria e saudosista troca de palavras que mostra que, ainda estejam felizes um pelo outro, a lembrança do que jamais poderia acontecer permanece com força descomunal.

É muito provável que Demy, responsável tanto pela direção quanto pelo roteiro do projeto, tenha eternizado os tropos de todos os romances e dramas musicais que foram lançados no cinema desde então – e não apenas nesses gêneros. Para tanto, o realizador se vale de algumas peculiaridades que foram adotadas por incontáveis cineastas nas décadas seguintes, a começar pelo fato de todo o longa-metragem ser cantado: não há uma palavra sequer que não seja recitada entre as melodias de uma orquestra propositalmente melodramática e fabulesca, que enlaça os protagonistas em um conto de fadas às avessas e nos envolve em breves noventa minutos.

Enquanto a trilha sonora assinada por Michel Legrand, firmada nos clássicos arranjos de corda, traduz o sentimento açucarado e agridoce de cada uma das cenas, Demy se vale de um elemento muito específico para corroborar a atmosfera das sequências – a paleta de cores. Se você se apaixonou pela estética que Damian Chazelle imprimiu no vencedor do Oscar La La Land, não sabe o que o espera em ‘Os Guardas-Chuvas do Amor’: a delicadeza nada óbvia do diretor emerge com o uso pungente de cores saturadas, no encontro de tonalidades complementares e contraditórias e em jogos de câmera que enclausuram os protagonistas e coadjuvantes em cenários inescapáveis e, ao mesmo tempo, superprotetores – em que apenas a despedida e o reencontro dos amantes desafortunados se volta para um tom mais sóbrio e apático.

A estética em questão não serviu apenas como inspiração principal do musical estrelado por Emma Stone e Ryan Gosling, mas estendeu seu impacto a outras construções. Como mencionado no primeiro parágrafo deste texto, Wes Anderson valeu-se das cores como motor emocional para construir a memorável e envolvente atmosfera da dramédia O Grande Hotel Budapeste, apostando-se principalmente nas cores quentes para as cenas de romance e de urgência; há três anos, Greta Gerwig se valeu das mesmas escolhas de Demy para arquitetar o mundo quase intangível da protagonista titular em Barbie; e, é claro, podemos ver o uso da cantoria constante em obras assinadas por Stephen Sondheim, Claude-Michel Schönberg e outros.

Enquanto o filme posa como musical, não espere coreografias exuberantes e notas intermináveis no final de cada canção, visto que, assim como a vida, a música não precisa de diferenciações entre uma cena e outra, fundindo-se em um grande solilóquio sobre um amo. É claro que, lá no fundo, queríamos que os protagonistas pudessem retomar um relacionamento que nos encanta desde os primeiros minutos – e justamente essa é a beleza da obra: mostrar que, por mais que a ideia utópica do final feliz seja um desejo intrínseco ao ser humano, encontrá-lo pode não estar no óbvio, e sim em uma felicidade que jamais esperaríamos achar, em meio a marcas e a amadurecimentos inevitáveis.

Com rendições marcantes e atuações irretocáveis de um elenco magnífico, Os Guarda-Chuvas do Amor continua como um dos maiores filmes musicais de todos os tempos e um marco do gênero que influenciou gerações de artistas – que procuraram recriar a beleza única de um filme muito mais profundo do que aparenta.

https://www.youtube.com/watch?v=hl0JEz9xfNY

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Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.
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