Os que cresceram durante as décadas de 1980 e 1990 possuem um verdadeiro apreço pelas dublagens consagradas que os clássicos do cinema passaram em nosso Brasil Varonil. Creio que nenhuma outra geração se identifique tanto com este lugar especial no tempo para os filmes. Os anos 80 foram o auge do cinema pipoca em sua melhor e mais pura forma. Assim, as vídeo locadoras surgiam como febre em cada esquina. Era a popularização dos filmes como nunca anteriormente. Somado a isso, tínhamos as queridas exibições da TV aberta.

Sim, é verdade que ainda hoje existem pessoas das gerações mais novas que prefiram assistir aos filmes dublados ou ainda aqueles que dão valor a ambos sem excluir nenhum – muitos jovens gostam de conferir tantos as versões originais quanto as dubladas. E isso não é um fenômeno que ocorre só no Brasil, mas algo comum e recorrente em diversas partes do mundo. Tudo bem que algo pode se perder na tradução e muitas vezes ficamos sem entender uma piadinha ou uma referência – isso porque os profissionais da dublagem precisam adequar uma gíria ou um significado que ressoe para o público do país.

Antes das traduções dos filmes, é preciso, porém, escolher seu título. Sim, em muitos casos a simples tradução direta do título pode se mostrar muito eficaz. E um caso cada vez mais recorrente é a padronização mundial de um título mantida na maioria das vezes em inglês – como por exemplo, Star Wars e Star Trek, que deixaram de ser Guerra nas Estrelas e Jornada nas Estrelas. Mais recente, temos o caso com as séries, como Stranger Things entre outras.

Voltando para a década de 1980, você que é desta geração já parou para pensar como, por mais que alguns títulos aqui no Brasil sejam emblemáticos por si só, não possuem nada a ver com seu original? Desta forma, resolvemos revisitar alguns títulos de filmes desta época, que são clássicos, mas cujas traduções muitas vezes nem ao menos lembram sua versão original. Confira abaixo e comente qual ficou melhor ou pior que o original.



Um Tira da Pesada

O astro Eddie Murphy está em alta de novo e em breve Um Tira da Pesada 4 irá estrear na Netflix. É legal ver que os responsáveis irão continuar mantendo esse título – e não tinha como ser de outra forma. O curioso é reparar o quão datada está a expressão “da pesada”, algo saído diretamente dos anos 80 e que hoje se comporta muito como “gíria idosa” ou aquela “gíria de tiozão”. Isso é para sentirmos o quanto usar gírias na tradução de filmes pode ficar datado rapidamente. No original, como muitos devem saber o tal “tira da pesada” é simplesmente o “policial de Beverly Hills” ou Beverly Hills Cop. Aliás “tira” é igualmente uma expressão datada para se referir a policial. Já o “Cop” americano ainda é utilizado até hoje.

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Rambo – Programado para Matar

O primeiro filme Rambo, de 1982, é baseado num livro que serve como crítica à guerra. Assim, no original o filme recebeu o nome do tal livro, First Blood. A expressão quer dizer algo como “quem tira sangue primeiro”, ou quem derrama sangue primeiro. Quem ataca primeiro. Ou seja “primeiro sangue”. Difícil traduzir né?; por ser uma expressão específica. Para não dar muita volta e ficar muito longo, por aqui os responsáveis resolveram o problema em duas etapas. Primeiro resolveram dar “nomes aos bois”, colocando bem estampado o nome do herói vivido por Stallone: “Rambo”. Depois vinha o subtítulo, que define bem sua personalidade – “programado para matar”. É curioso e chamativo, mas se pensarmos no treinamento do sujeito, faz sentido. E a coisa deu certo, já que até os americanos aderiram ao uso do nome do personagem no título em Rambo – First Blood Part 2 para a continuação.



Máquina Mortífera

Essa foi quase, mas não acertou. Clássico dos buddy cop movies protagonizado por Mel Gibson e Danny Glover, em ambos o original e a tradução o título faz referência à técnica mais que eficiente do personagem de Gibson em causar estragos aos criminosos de plantão. No original, o título é Lethal Weapon – ou Arma Letal. Não seria ruim. Mas aqui no Brasil o letal foi trocado por mortífera. Ok, ambos têm o mesmo sentido. Porém, na hora de traduzir a tal arma original, os brasileiros decidiram optar por “máquina”, que pode ser de tudo desde um carro, uma máquina de lavar ou uma máquina de fotos. E isso antes da gíria “esse sujeito é uma máquina”, que ainda não havia surgido.

A Hora do Pesadelo

Os anos 80 foram incríveis, mas alguns títulos hoje fazem as gerações mais novas passar raiva. Tudo bem, é coisa de tiozão cringe, concordamos. E se tem algo que irritava até mesmo a geração que cresceu na época era a necessidade que os títulos brasileiros tinham de colocar “da pesada” e “do barulho” em tudo quanto era filme de comédia. Já os filmes de terror ganhavam o sumário “a hora” no título. Nessa entraram “a hora dos mortos-vivos”, “a hora do espanto”, “a hora do lobisomem” e por aí vai. E não, nenhum deles tinha como título original algo próximo a isso. O mais notório, é claro, foi a franquia do infame Freddy Krueger no cinema, por aqui imortalizada como “a hora do pesadelo” – que seria obviamente a hora que a pessoa fosse dormir. Porém, o original se referia a um endereço específico, a rua Elm, que era onde ocorria toda a ação do filme. “Um Pesadelo na rua Elm” seria a tradução literal, o que faria muitos brasileiros possivelmente se perguntarem que diabos seria essa tal rua.

O Enigma de Outro Mundo

Seguindo por outro clássico irretocável do terror, agora nos deparamos com uma modalidade curiosa de título brasileiro. Aqui temos um tipo de tradução que visava resumir o filme todo numa única frase. “O Enigma de Outro Mundo” é basicamente do que se trata o filme, nisso eles acertaram. E numa época atual em que o público se preocupa demais com spoilers, esse tipo de tradução jamais seria aprovada. Ainda mais se pensarmos que o original era algo tão sucinto e que poderia significar um milhão de coisas. Aliás é justamente este o título: The Thing, ou “A Coisa”.

Loucademia de Polícia



A cada novo item na lista, uma nova “modalidade” de tradução. Aqui, voltamos para as comédias clássicas dos anos 80. Nessa categoria, os tradutores simplesmente inventaram uma nova palavra para o vocabulário da língua portuguesa, inexistente antes. “Loucademia”. Sim, é a junção das palavras “louca” e “academia”. Uma “academia louca”. Sacamos. Se fossem seguir o original, talvez o público não captasse a mensagem, já que nos EUA os filmes desta franquia cômica são conhecidos apenas como “Academia de Polícia”, ou simplesmente “Police Academy”. O “louco” ficou por nossa conta.

Curtindo a Vida Adoidado

Clássico absoluto das reprises da TV aberta, muitos podem inclusive lembrar quando o filme estreou na Globo na Tela Quente. Sim, foi uma época boa que não volta jamais. O filme é um destes que será para sempre lembrado com muito carinho, como um dos mais marcantes do período. O adolescente “171” Ferris Bueller, vivido por Matthew Broderick, é um dos personagens mais carismáticos da sétima arte, tanto que no original ganhou seu nome no título. “O Dia de Folga de Ferris Bueller”, ou “Ferris Bueller´s Day Off” resume bem o espírito do colegial matando a aula para se divertir com os amigos como se não houvesse amanhã. No Brasil, muitos poderiam se perguntar quem é Ferris Bueller? Bem, a solução foi colocar um título que igualmente resumisse o filme, porém com duas “gírias”. A primeira, curtir, ainda é usada até hoje (que o diga as redes sociais). Já a segunda, “adoidado”, talvez tenha passado um pouco da época.

Mulher Nota Mil

Continuando por filmes de John Hughes que marcaram época, um ano antes de Ferris Bueller chegar aos cinemas, éramos presenteados com esta comédia adolescente que brincava com o clássico Frankenstein. Aqui, dois nerds criam a mulher perfeita em seu computador. E sim, o título em português além de ter a ver com a trama, homenageia a beldade irretocável que era a britânica Kelly LeBrock. Hoje, talvez seja um pouco de mau gosto dar nota a uma mulher por sua beleza. Porém, creio que aqui o título faça referência brincando com o de outro filme. Mulher Nota 10 (Ten) foi uma comédia de muito sucesso com Dudley Moore em 1979. Aqui, seguiram por essa linha na hora de traduzir “Weird Science”, ou “Ciência Estranha”.


Os Aventureiros do Bairro Proibido

Outro título imenso em português, porém, esse igualmente era bem longo em inglês original também. A tradução resume bem o espírito desse filme de matinê e fantasia de John Carpenter. O que muitos podem ter se perguntado na época foi o que era esse tal “bairro proibido”? Bem, ele se refere à Little China, o bairro chinês da cidade de San Francisco. De proibido ele não tem nada, tirando o fato de que existe toda uma subcultura sobrenatural escondida debaixo dele. Muitas cidades americanas possuem a sua Chinatown, o bairro chinês que abriga os imigrantes de tal país. E na tradução literal, “Big Trouble in Little China” seria algo como “Grande Problema/ Encrenca no Bairro Chinês (Pequena China)”. E aí, o brasileiro ficou melhor?

O Milagre Veio do Espaço

Terminando a lista temos um filme que embora tenha marcado toda uma geração, parece não ter ecoado para os dias de hoje e para os mais novos. Apesar disso, o longa é produzido por Steven Spielberg. De fato, mesmo os que viveram na época podem não lembrar do título, apenas de sua premissa que falava sobre robozinhos alienígenas chegando do espaço para ajudar um grupo de moradores de um bairro pobre, a salvar seu prédio desapropriado. Uma premissa insana, mas que combina muito com a época. O filme não foi um sucesso grandioso, vindo a ser redescoberto como cult nas locadoras e nas reprises da TV, onde se mostrou uma boa companhia na sessão dupla com Cocoon, por exemplo. O curioso mesmo é seu título original ambíguo: “*batteries not included”, ou “baterias (pilhas) não incluídas”. Sabe, aqueles avisos quando compramos algum item eletrônico. E o título até possui um asterisco e letras minúsculas. Criativo, mas não muito objetivo. Já a versão em português resume bem o que veremos, porém, soa como algum filme religioso ao utilizar a palavra “milagre”.

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